Pandemia de coronavírus

Fernando Spilki: “Podemos ter problemas com as vacinas no futuro, pois o vírus tem tido espaço para evoluir”

Virologista especialista em vigilância genômica do coronavírus afirma que ainda não é possível saber se a variante indiana poderá se sobrepor à de Manaus, mas afirma que a chegada da cepa pode agravar a terceira onda no país

O virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Corona-ômica
O virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Corona-ômicaFEEVALE / Divulgação

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Antes mesmo de o novo coronavírus chegar ao Brasil, o virologista Fernando Spilki (São Paulo, 45 anos) já integrava um grupo de pesquisadores para organizar esforços ao sequenciamento genético e, assim, dar luz às informações capazes de nortear as medidas de contenção e refazer a trajetória de disseminação do vírus no país. Desde Novo Haburgo, no Rio Grande do Sul, ele agora coordena a rede nacional Corona-ômica, que integra cerca de 20 instituições e tem o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. O grupo só conseguiu de fato intensificar o trabalho no quarto trimestre do ano passado, quando houve enfim aporte financeiro e bolsas do Governo. Por meses, o país viveu um apagão de vigilância genômica. “Temos feito o máximo possível de sequenciamentos e de estudos para conhecer melhor a circulação do vírus no país”, conta, por telefone, o professor da Universidade Feevale ao EL PAÍS. É com base neste trabalho que ele expressa sua preocupação ante a terceira onda que já se desenha no país, onde a pandemia estacionou em um patamar grave. Para o pesquisador, um novo pico está se formando no Brasil independentemente da recente identificação da cepa indiana, potencialmente mais transmissível e que poderá agravá-lo. Contribui para isso o relaxamento das medidas restritivas em praticamente todos os Estados. “O que se desenha é realmente uma onda de uma magnitude infelizmente maior do que essa que nós vivemos.”

Por enquanto, considera, é preciso ter cautela e observar qual será o comportamento da variante indiana B.1.617 ao encontrar a brasileira P1, conhecida como variante de Manaus. No Reino Unido, por exemplo, ela tem ganhado a competição com a também preocupante cepa britânica (B.1.1.7). Spilki também revela preocupação com a possibilidade de surgimento de novas variantes perigosas diante do ritmo lento de vacinação no Brasil. “Por enquanto não temos problemas de proteção clínica com as vacinas, mas lá no futuro poderemos ter porque o vírus tem tido muito espaço pra evoluir.” Na entrevista a seguir, ele aponta que as soluções para conter a crise seguem as mesmas: a testagem estratégica com rastreamento de casos, o distanciamento social e a vacinação.

Pergunta. O Brasil identificou os primeiros casos da cepa indiana. Ela é pior que a brasileira P1?

Resposta. Esta é a grande pergunta. O que a gente já sabe? É uma cepa que seguramente tem uma transmissibilidade alta. No Reino Unido, ela já está se tornando prioritária, mesmo perante a variante britânica, que também tem transmissibilidade alta. Então lá ela está vencendo essa competição. Aqui o que se abre é uma grande curiosidade, e é o que nós vamos ter que acompanhar muito de perto, porque temos a P1 que dominou completamente o cenário nos últimos tempos. Inclusive, quando houve a entrada da variante britânica e mesmo da variante sul-africana, ambas com uma transmissibilidade alta, a P1 continuou dominando esse espaço. Vamos ver como é que vai se revelar isso agora com a variante indiana.

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P. Quanto a presença da variante indiana pode influenciar na intensidade da terceira onda que se aproxima no país?

R. Não há dúvida que se uma variante é mais transmissível e tem a oportunidade de infectar mais pessoas, ela vai fazer mais casos. Ou seja, se não há uma vacinação adequada ou se são tomadas medidas de flexibilização em momentos de surto. Mas é imprudente colocar toda a responsabilidade sobre a variante. A variante não produzirá, sozinha, uma nova onda, mesmo com a transmissibilidade mais alta. Se nós intensificássemos a vacinação, se nós fizéssemos os bloqueios de movimentação devidos e evitássemos, de fato, aglomerações e o contato ao máximo entre nós, não teríamos uma terceira onda. Mas como o cenário é de vacinação lenta e enorme flexibilização na maioria das cidades metropolitanas brasileiras, com uma variante de mais alta transmissibilidade, a conta que fecha é que teremos aí uma onda de grande magnitude.

P. É possível prever qual será o comportamento do encontro das variantes indiana e brasileira?

R. Precisaremos acompanhar de perto. Por enquanto, onde se tem mais notícia sobre o que ocorreu é na Índia. O conjunto de linhagens que compõe esta variante só foi adiante quando teve toda a possibilidade de se espalhar e causou realmente um surto, que para o padrão indiano, para o que eles tinham até agora, foi de uma magnitude inédita. Isto pode ocorrer aqui? Pode. Não necessariamente eu te diria que será com a variante indiana. Só as flexibilizações, o ritmo em que nós estamos funcionando nesse momento no país, já vai nos promover um inverno bastante difícil. Aqui na região Sul, por exemplo, o inverno do ano passado foi um definidor de uma primeira onda que na época nos pareceu muito assustadora e hoje nós sabemos que era muito pequena comparado com a magnitude que é possível se alcançar. Nós já estamos prevendo uma onda de grande magnitude que vai ter ainda o bônus, quem sabe, desta variante. Mas só o que a P1 tem feito em diferentes locais já demonstra que, se não há controle, essas ondas vêm com uma magnitude muito mais elevada do que nós tínhamos em 2020.

P. Por conta da identificação dos primeiros casos da cepa indiana no Brasil, estão sendo adotadas algumas medidas como vacinação de portuários e aeroportuários. O Ministério da Saúde também enviou um volume maior de testes ao Maranhão, onde os primeiros casos foram detectados. Até que ponto essas medidas de fato podem controlar a transmissão?

R. É acertada a vacinação dos indivíduos de linha de frente, dos ambientes de aeroporto e porto ―e deveria haver um cuidado bastante grande também com fronteiras terrestres, até porque há outras variantes circulando na América Latina. Mas deveria ser complementada com medidas que também incluíssem, por exemplo, um cuidado maior com voos de indivíduos que estivessem passado por regiões onde a variante já está circulando, além da Índia. Quanto ao Maranhão, lá os casos estão monitorados, provavelmente não vai se espalhar por ali porque você tem todos os casos atendidos. É o que aconteceu lá, por exemplo, com a P1 com os pacientes que foram transferidos para UTIs [a outros Estados, durante a crise de Manaus]. A P1 não se espalhou pelo país com pacientes que estavam ultramonitorados. Ela se espalhou pelos viajantes, pelos turistas, pelas atividades de negócio. E é isso que provavelmente ocorrerá com a variante [indiana] aqui.

P. Vários Estados investigam casos possíveis da cepa indiana. Em um nível de transmissão tão alto como o que se tem hoje no Brasil, qual é a viabilidade de fazer, de fato, o rastreamento e o bloqueio de casos?

R. Nós teríamos que implementar, e com muito mais eficácia, a testagem de contatos e a quarentena desses indivíduos. Especialmente nos momentos em que a epidemia se arrefece, como foi agora algumas semanas atrás, é o momento de atacar forte com a testagem estratégica. Acredito que a testagem evoluiu bastante no Brasil, com muito mais testes sendo realizados, mas a gente ainda precisa evoluir mais. No Brasil, ela se tornou muito uma complementação ao diagnóstico clínico, praticamente só se testa no país indivíduos que já estão com sintomas da infecção. E aí é um dos grandes erros do nosso manejo, a gente não testa pessoas que estão em contato e acaba deixando porta aberta para que outros indivíduos se infectem. Isso poderia nos ajudar a manejar um pouco melhor uma onda como essa que prevemos que vem.

P. Um passageiro vindo da Índia desembarcou em Guarulhos e viajou ao Rio de Janeiro antes do resultado do teste, que depois confirmou infecção pela cepa indiana. Este caso demonstra que o Brasil continua falhando na vigilância?

R. Este é um caso de grande ensinamento. Até hoje, a maioria das novas variantes que chegaram ao Brasil vieram exatamente por esta via, do voo internacional ou de fronteiras terrestres. O atendimento adequado deste caso seria combinar a mesma coisa que foi feita no Maranhão, onde se detectou os indivíduos infectados, se testou os contatos, se isolou. Este caso de Guarulhos é um caso que foi felizmente diagnosticado, se sabe o que aconteceu, agora há a necessidade de complementação que é ver os contatos, testá-los e fazer quarentena. Agora, isso tem que ser feito de maneira preventiva. Então seria muito importante testar mais pessoas e isolá-las na chegada justamente para evitar um espalhamento. Foi assim que países como a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia conseguiram, ao longo do tempo, se planejar adequadamente.

P. Com o atual ritmo de vacinação no Brasil, é um alento ou traz uma preocupação de gerar variantes ainda mais preocupantes?

R. O ritmo é muito lento e uma imunização parcial infelizmente continua dando espaço para que essas novas variantes ocorram, então seria importante uma intensificação muito grande da vacinação pelo desafio da epidemia no país. Nós temos números muito altos, temos tido muita dificuldade em realizar as outras medidas que ajudariam a diminuir esse problema, que é efetivamente o distanciamento social, o suporte às famílias e às empresas. O que nos resta como ferramenta mais efetiva, seria uma vacinação massiva. E neste ritmo isso é perigoso.

P. A maioria dos Estados relaxou muito as medidas restritivas. Ainda há tempo de aumentar o distanciamento social e tentar controlar a pandemia?

R. Sempre é tempo de agir. Se nós mantivermos o ritmo atual, a nossa predição é de mais variantes. Por enquanto não temos problemas de proteção clínica com as vacinas, mas lá no futuro poderemos ter porque o vírus tem tido muito espaço pra evoluir. Há muitas pessoas ainda suscetíveis e se infectando todos os dias. Então, isso é um problema.

P. Que história a vigilância genômica conta da trajetória do vírus no Brasil?

R. No início nós tivemos pouco acúmulo de mutações. Não havia grandes novidades a respeito do assunto nem no Brasil, nem no mundo. Quando houve aquele arrefecimento da epidemia, em muitos países em agosto, mas no Brasil entre setembro e outubro, foram retomadas muitas atividades e houve uma série de possibilidades para que as pessoas entrassem novamente em contato. O que que isso frutificou? Você já tinha uma população parcialmente imunizada pelas linhagens antigas e, a partir dali, você começa a ter o problema de aparecimento de novas variantes com perfil bastante diferenciado [novas linhagens a partir da P1 têm sido identificadas em vários Estados. Uma delas, a P4, foi identificada em 20 cidades do interior paulista. Ainda não se sabe se é mais agressiva ou mais contagiosa, mas tem mutações semelhantes à da Índia]. Então essa é a história da epidemia do ponto de vista genético que desenha esta situação que temos hoje, com o ritmo de evolução muito mais acelerado do que nós tínhamos no ano passado.

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