Pandemia de coronavírus

As lições contra o coronavírus que Coreia do Sul e China podem dar ao mundo, incluindo o Brasil

Os dois únicos países que conseguiram reduzir o número de contágios apostaram no fechamento de escolas, testes massivos e diferentes tipos de confinamento

Equipe médica da cidade de Incheon, na Coreia do Sul, aplica teste para coronavírus em um posto de diagnóstico rápido.
Equipe médica da cidade de Incheon, na Coreia do Sul, aplica teste para coronavírus em um posto de diagnóstico rápido.KIM CHUL-SOO / EFE

Em um momento em que os casos de coronavírus no mundo passam de 740.000, com mais de 36.000 mortos pela doença, os olhares se voltam para os países que conseguiram, de alguma forma, achatar a curva de crescimento das infecções, conseguindo uma redução no número de vítimas da Covid-19: China e Coreia do Sul. O que fizeram de certo para conter a pandemia? Onde erraram? Como replicar as boas práticas em outras realidades sócio-econômicas? Estas são algumas das perguntas feitas por presidentes, primeiros-ministros e responsáveis pela Saúde nos quatro cantos do globo. O EL PAÍS analisou algumas boas experiências adotadas na luta contra a doença nos dois únicos países que, até o momento, brecaram o contágio.

Coreia do Sul

O país asiático é atualmente o grande exemplo de sucesso envolvendo o combate ao coronavírus. Um dos afetados pela pandemia, com pouco mais de 9.600 casos confirmados, a Coreia do Sul apresentou uma das menores taxas de letalidade da doença no mundo, 0,9%. Este indicador positivo foi fruto de uma estratégia de enfrentamento ao vírus única no mundo, e que fez com que o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmasse que o país é um exemplo de que “é possível controlar o coronavírus”. Ele exortou as demais nações a aplicar “as lições aprendidas com a Coreia do Sul”.

Mas cumprir o desejo de Ghebreyesus e replicar a experiência sul-coreana não será tão fácil. Algumas medidas tomadas pelo país asiático são simples de serem copiadas, outras nem tanto. Em fevereiro, o Governo do presidente Moon Jae-in colocou em prática o fechamento das escolas para evitar que as crianças, na maioria das vezes assintomáticas, levassem o vírus para dentro de casa e contaminassem seus pais e avós. A medida simples vem sendo adotada em vários países do mundo, mas é criticada por Jair Bolsonaro. Sobre o método de ação do Executivo coreano, o chefe do Programa de Emergências de Saúde da OMS, Mike Ryan, afirmou na quinta-feira: “Eles fizeram decisões táticas e precisas, envolvendo o fechamento de escolas e a liberdade de movimento, sem lançar mão de algumas medidas draconianas [como a quarentena forçada]”.

Uma das principais cartadas da Coreia do Sul para enfrentar o coronavírus foram os diagnósticos massivos para a doença, obtidos por meio de uma política de testar o maior número possível de pessoas. As empresas locais se dedicaram à produção dos kits necessários para o diagnóstico (atualmente cerca de 100.000 unidades são produzidas todos os dias), e uma semana após o início da epidemia milhares de pessoas estavam se submetendo ao exame diariamente. Esta não é a realidade da maioria dos países em desenvolvimento, onde faltam de insumos básicos para o atendimento às vítimas e até os próprios testes —o ministro da Saúde brasileiro, Luiz Henrique Mandetta, admitiu a falta dos kits no país, mas afirmou que a quantidade deles deve aumentar ao longo das próximas semanas.

Ao detectar a Covid-19 em seus estágios iniciais, a Coreia do Sul conseguiu criar uma rede de tratamento eficaz, responsável pelo baixo índice de letalidade da doença no país. “Isso foi essencial para impedir ou atrasar a disseminação do vírus”, afirmou a uma TV local o ministro da Saúde, Park Neunghoo.

O caso sul-coreano também tem outra especificidade não encontrada no Brasil, por exemplo, e que permitiu um controle eficaz da pandemia. A maior parte dos casos iniciais foi identificada na cidade de Daegu, e tinham relação com pessoas ligadas a uma igreja messiânica local. Ainda no estágio de uma centena de contágios, o prefeito do município falou em uma “crise sem precedentes”, e pediu a todos os cidadãos que ficassem em suas casas fazendo isolamento voluntário. Ele também recomendou que usassem máscaras caso precisassem sair para as ruas. Foi prontamente obedecido. Ou seja, as autoridades agiram cedo e com precisão.

Além disso, a polícia e os serviços médicos voltaram boa parte de suas forças para fazer um trabalho de detetive na identificação e rastreio dos indivíduos com quem os primeiros contaminados tiveram contato. Com isso, foram testadas centenas de pessoas que possivelmente estavam infectadas e foram posteriormente tratadas e colocadas em quarentena. No Brasil esta janela de oportunidade para a ação rápida com bons resultados de controle da doença foi fechada, uma vez que já temos transmissão sustentada no país, o que torna impossível traçar a origem de um caso de contaminação a uma pessoa ou local específico.

A medida mais dura adotada pelo Governo coreano foi com relação aos pacientes com casos leves da doença. Eles receberam a ordem de ficar em quarentena em suas casas, e foram obrigados a baixar um aplicativo em seus telefones celulares que alertava as autoridades caso saíssem do isolamento social. As multas para quem viola os termos do confinamento chegam a 2.500 dólares (cerca de 12.000 reais). A população de algumas regiões também é informada em tempo real sobre o estado de saúde dos seus vizinhos, o que foi alvo de críticas devido à superexposição dos doentes e à violação da privacidade.

Mesmo com a experiência de sucesso da Coreia do Sul na contenção do coronavírus, ainda é cedo para comemorar, entretanto. No dia 28 de março um aumento abrupto no número de novos casos registrados em 24 horas acendeu um alerta para as autoridades, apesar de o dado ser condizente com as oscilações da curva de contágio do país. No dia seguinte, no entanto, este número voltou a retroceder —o país teve 96 novos contágios no dia 27, uma alta para 146 no dia 28, e, no dia 29, teve 105.

China

Além da Coreia do Sul, a China, onde a epidemia começou, é o outro país que conseguiu reduzir a taxa de contágio da doença, após alcançar mais de 81.000 casos e 3.300 mortes. No entanto, existem alguns problemas com relação aos dados do gigante asiático —e o quanto se pode aprender com sua experiência. Um deles é a baixa confiabilidade e transparência das estatísticas divulgadas pelo Partido Comunista chinês e suas autoridades de Saúde. O país chegou a ser acusado de ter ocultado a magnitude da epidemia, o que facilitou sua disseminação pelo mundo. No entanto, há consenso dentro da OMS de que o número de casos no país está em declínio.

O que se sabe é que as autoridades locais lançaram mão de uma quarentena obrigatória para milhões de habitantes, principalmente na região de Wuhan, principal epicentro da doença. Nesta quarta-feira, depois de mais de três meses de clausura, os moradores de alguns bairros puderam finalmente sair por algumas horas, mas o local continua isolado do resto do país. A expectativa é de que este confinamento obrigatório se estenda até 8 de abril. Tudo indica que a quarentena dos 11 milhões de habitantes de Wuhan ajudou a desacelerar o contágio pela doença, segundo um relatório feito por pesquisadores do Imperial College of London, feito por encomenda da OMS.

Este tipo de confinamento feito pela China, apesar de drástico, é elogiado no relatório, e pode servir de referência mundial. “As políticas que a China implementou para conter o vírus, assim como o relaxamento progressivo do confinamento [fundamental para evitar que o contagio dispare], podem servir de referência para outros países que estão lidando com a pandemia”, dizem os especialistas. Por fim, as medidas chinesas só funcionaram devido ao senso de comunidade da população, acostumada a fazer alguns sacrifícios em termos de individualidade e liberdade em prol de um chamado bem comum, segundo aponta relatório da OMS. “Eles aceitaram e cumpriram uma série de medidas amargas, como a suspensão de reuniões públicas e o confinamento domiciliar obrigatório”, segue o texto.

Assim como a Coreia do Sul, a China também apostou no fechamento das escolas para conter o avanço da doença. Algumas regiões estão sem aulas há mais de dois meses. Um duro remédio, mas que vem apresentando resultados.

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