Encontros de Dia das Mães elevam temor de onda de contágios com pandemia estacionada em alto patamar no Brasil

Governadores e prefeitos flexibilizam medidas às vésperas da data e especialistas preocupam-se com um recrudescimento da crise sanitária quando hospitais seguem em situação grave. Casos no país deixam de cair e se estabilizam

Memorial pelas vítimas da covid-19 feito pelo grafiteiro Eduardo Kobra, em São Paulo.
Memorial pelas vítimas da covid-19 feito pelo grafiteiro Eduardo Kobra, em São Paulo.AMANDA PEROBELLI (Reuters)

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Os indicadores da pandemia no Brasil caminham para uma estabilização depois de o país enfrentar o mês mais letal da crise, mas continuam em um patamar tão elevado quanto preocupante. Com uma média de 60.000 novos diagnósticos de covid-19 por dia no país, especialistas alertam que não é o momento de baixar a guarda. Mesmo indicadores que começaram a cair nas últimas semanas agora apresentam tendência de reversão do quadro. Por enquanto, não há surtos exponenciais no país. Mas a situação é preocupante neste momento em que governadores e prefeitos relaxam medidas de restrição às vésperas do Dia das Mães, mesmo com os hospitais ainda em situação delicada e diante de um ritmo de vacinação lento. “É como se a água ainda pudesse subir, mas já está no queixo. Um aumento pequeno já pode fazer com que a água chegue na boca e no nariz”, compara o coordenador na Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt. Diante da maior circulação de pessoas nas cidades e da possibilidade de aglomerações e confraternizações na data comemorativa, o receio é de que o pequeno respiro da pressão do sistema de saúde após o dramático colapso deste ano não se sustente. Só em abril, 82.401 pessoas morreram de covid-19. Nesta sexta, foram 2.165 mortes contabilizadas. E uma nova onda não está descartada.

“Tivemos um pico muito alto na maioria dos Estados e depois houve uma queda, mas esta queda começa a se estabilizar em um patamar muito alto, acima do pior momento no Brasil em 2020″, analisa Leonardo Bastos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele trabalha no monitoramento dos dados de covid-19 e de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), uma complicação causada pelo novo coronavírus e por outros vírus como o H1N1, com uma correção estatística para vencer o atraso de notificações de casos e óbitos. “Essa semana está pior. Vínhamos observando uma queda e agora há uma estabilização”, acrescenta. O país, que chegou a registrar mais de 4.000 mortes em um dia em abril, segue com uma média móvel de óbitos diária acima de 2.000. Mas este dado é o último na ordem de impacto estatístico. Primeiro, crescem as internações e os novos casos. Só semanas depois as mudanças no comportamento social repercutem no número de mortes. Por isso, ainda que o contágio volte a crescer, é possível que o número de falecimentos diários sigam caindo por um tempo. “Flexibilizações e aglomerações no Dia das Mães podem ter um impacto grande, mas não conseguimos mensurar ainda se haverá um forte surto exponencial. A gente espera que as pessoas tenham consciência”, afirma Schrarstzhaupt.

Em São Paulo, o Estado mais populoso do país, o Governo decidiu manter a fase de transição pelo menos até o dia 23 de maio. Mas estendeu o funcionamento de estabelecimentos (que antes deveriam fechar às 20h) até as 21h. Também permitiu que a lotação máxima nos locais passe de 25% para 30%. As novas regras começam a valer justo na véspera do Dia das Mães, uma das datas de maior demanda para o comércio. Os índices da pandemia parecem estáveis no Estado, mas com reduções pequenas. Na última semana, os casos caíram 10,8%, as internações 0,4% e os óbitos 13,5%. “Não acreditamos que esses indicadores estejam apontando para uma tendência de terceira onda”, afirmou o médico João Gabbardo, do centro de contingência. Mas, na opinião de outros especialistas, é preciso manter o alerta diante de patamares ainda elevados de hospitalizações e com datas comemorativas à vista. “São Paulo teve uma leve queda, mas está desacelerando cada vez mais lentamente. Isso já assusta”, pondera Schrarstzhaupt.

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Estados como Rio de Janeiro, Maranhão e Ceará preocupam neste momento diante do elevado índice de hospitalização, segundo Bastos. “Estão em patamares muito altos, quase no topo, quando em muitos Estados houve queda. Mas a epidemia nestes lugares também cresceu um pouquinho depois. Por enquanto, não caíram muito”, explica. A cidade do Rio de Janeiro decidiu flexibilizar as medidas um dia depois de apresentar recorde de casos. A ida às praias está liberada inclusive no fim de semana, e bares já não têm mais hora para fechar. O prefeito Eduardo Paes (DEM), porém, atribuiu o recorde ao atraso nas notificações e disse que há na verdade uma redução do contágio. “Os números nos mostram uma queda de casos, uma queda, graças a Deus, de número de óbitos, uma queda de números da urgência e emergência”, afirmou. Já o Ceará começou a relaxar a quarentena no final de abril. Lá, a ocupação de leitos de UTI da rede pública e privada estava em 93,46% nesta quinta (6), segundo dados da plataforma da secretaria estadual da Saúde. Já a ocupação de enfermarias, onde ficam pacientes menos graves, era de 59,36%. O Estado até vem desacelerando o contágio, mas em ritmo lento.

Schrarstzhaupt, que acompanha os dados de mobilidade no país, afirma que, no último surto exponencial de covid-19 no país, as pessoas se isolaram menos que no pico do ano passado. E acrescenta que as medidas restritivas mais leves acabam sem surtir o efeito na proporção esperada e perdurando mais tempo, o que causa também uma fadiga da população pela quarentena. “Da forma como temos feito você até faz uma reversão da subida, mas com muito sofrimento e uma velocidade de queda muito menor”, afirma. Segundo ele, o mais adequado seria fazer um fechamento duro por tempo suficiente para que as infecções caiam a ponto de ser possível fazer um trabalho de isolamento de casos e rastreio de contatos, como foi feito no Reino Unido, que além de tudo, acompanhou o fechamento com vacinação em massa. “O Brasil tem uma média móvel de 60.000 novos casos diários. Imagina rastrear todos e os contatos? É impossível”, diz. Mas, com a mobilidade crescendo nas cidades, lembra, o provável é que cresçam as chances de contágio das pessoas suscetíveis ao vírus ― que corresponde a cerca de 70% da população brasileira.

Por conta do patamar ainda elevado, a orientação à população para o Dia das Mães é que opte pelas celebrações virtuais, mas, se não for possível, prefira ambientes ao ar livre e use máscaras com maior capacidade de proteção, como a PFF2. “Muitas mães, nas faixas etárias mais elevadas, já tomaram pelo menos uma dose da vacina e isso faz com que as pessoas relaxem mais do que deveriam e deem uma oportunidade maior ao vírus”, explica Bastos, da Fiocruz. Ele lembra que mesmo em aglomerações menores basta uma pessoa estar infectada para transmitir a várias outras. “Isso pode fazer com que a gente não consiga reduzir os casos e possa até aumentar as hospitalizações, não necessariamente de mães, mas vai ter mais gente exposta ao vírus”, diz o pesquisador, que lembra que o país já sentiu o efeito de aglomerações após o Natal e o Ano Novo. Isso, somado ao aparecimento de novas variantes do coronavírus potencialmente mais transmissíveis, acelerou o contágio e colapsou o sistema de saúde em muitas regiões do país. “Alguns lugares esperavam seguir uma queda que não veio”, alerta.

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