Pandemia de coronavírus

Guerra da vacina se acirra, e Butantan cobra cota de São Paulo antes de entregar doses da Coronavac

Ainda repleto de lacunas logísticas, passo a passo até a vacinação vira um ‘BBB’, que tem como pano de fundo a disputa de Bolsonaro e Doria pela primeira foto de um vacinado no Brasil

Propaganda da Coronavac no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.
Propaganda da Coronavac no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.Andre Penner / AP

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Enquanto a pandemia volta a ganhar contornos dramáticos em vários Estados, especialmente no Amazonas, o presidente Jair Bolsonaro segue protagonizando cabo de guerra com o governador João Doria (PSDB), agora em torno da primeira foto da vacinação contra a covid-19 no Brasil, prevista para a semana que vem. A disputa conturba um cenário já cheio de atrasos, lacunas logísticas e dúvidas dos Estados que se dizem prontos para começar a imunização e cobram a pasta comandada por Eduardo Pazuello. Nesta sexta-feira, o Ministério da Saúde, por meio de seu departamento de logística, mandou um ofício ao Butantan, ligado ao Governo de São Paulo, solicitando a entrega imediata de 6 milhões de doses da Coronavac, a vacina desenvolvida pelo instituto em parceria com o laboratório chinês Sinovac. O Butantan, por sua vez, avisou que só vai disponibilizar o estoque se a pasta esclarecer quanto do contingente já ficará em São Paulo. Apesar da iminência da vacinação, o Ministério da Saúde ainda não apresentou aos Estados quantas doses vão para cada um, um passo básico para planejar a operação.

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O novo interesse do Governo Bolsonaro pelo estoque da Coronavac aumentou depois que o Ministério da Saúde experimentou uma reviravolta na aquisição de 2 milhões de doses da vacina de Oxford, desenvolvida em parceria com a empresa AstraZeneca e, no Brasil, pela pública Fiocruz. O avião que havia sido preparado para buscar os insumos na Índia, previsto para decolar na última quinta-feira, precisou atrasar a viagem a Mumbai após o Governo indiano barrar a venda do lote fabricado pelo laboratório Serum Institute. A Índia resiste em autorizar a exportação de vacinas antes de iniciar a campanha de imunização para seus habitantes. Bolsonaro espera que a compra do lote seja liberada em “dois, três dias, no máximo”.

Com o avião empacado no aeroporto de Recife, o presidente se vê novamente emparedado por prefeitos e governadores, que cobram urgência na divulgação do cronograma de aplicação das vacinas. Em ofício enviado ao Planalto, o Fórum de Governadores pediu agilidade no Plano Nacional de Vacinação, que pode atrasar ainda mais caso o Butantan não repasse todo o estoque exigido pelo Governo, além da “urgente necessidade de definição das quantidades de doses, do primeiro lote, que serão disponibilizadas a cada Estado e municípios”, como descreve o documento assinado pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT). Contando com os estoques projetados pelo Governo federal, ele e outros governadores, a exemplo de Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, se anteciparam ao anunciar o início da vacinação em seus respectivos estados para a semana que vem.

O novo capítulo na batalha de comunicação pela capitania da imunização contra covid-19 começou na tarde desta sexta-feira, quando o Governo paulista emitiu uma nota informando que iria disponibilizar, inicialmente, apenas 4,5 milhões de doses ao Ministério da Saúde, para posterior distribuição aos Estados. Contrariando a narrativa de Bolsonaro, que chegou a descartar a compra da Coronavac, à qual ele se refere como “vacina da China”, o Ministério da Saúde assinou, no início do mês, a compra de 100 milhões de doses do imunizante. Apesar do contrato de exclusividade com o Governo Federal, o Instituto Butantan, que já importou mais de 10 milhões de doses, garantiu que a remessa prevista para São Paulo não seria afetada. A concorrência pode parar no STF, assim como o embate pelas seringas, vencido por Doria após a União tentar confiscar equipamentos comprados pelo Estado.

Antes, a troca de farpas políticas seguia pública. Doria havia responsabilizado Bolsonaro pela crise da falta de oxigênio em Manaus e insinuou que o presidente deveria ser indiciado por genocídio. “É resultado da política caótica da saúde pública do Governo federal. Não é razoável imaginar que a situação de caos seja debitada na conta de um prefeito ou governador. Temos Governo federal pra quê? Ministério da Saúde pra quê?”, questionou.

Ato seguido, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, Bolsonaro voltou a atacar o rival paulista, que deseja disputar a presidência em 2022. “Doria está morto politicamente”, disse Bolsonaro. “Fechou São Paulo e foi para Miami, não é exemplo pra nada. Ele não sai na rua, não vai na padaria comprar um pão, não vai à praia. Está desesperado tentando me atingir. É um governador que se perdeu completamente.

‘BBB’ vacina

Desde a semana passada, a expectativa pelo início da vacinação no Brasil se transformou em uma espécie de reality show, que acompanha o passo a passo dos pedidos de aprovação para uso emergencial de dois imunizantes. Neste domingo, o “BBB das vacinas” terá seu primeiro paredão com a análise dos resultados da Coronavac, e o composto produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A reunião da Anvisa que decidirá se as vacinas poderão ser aplicadas no país terá transmissão ao vivo nas redes sociais da agência reguladora, a partir das 10h. Como pano de fundo, seguirá a atenção pela briga de egos políticos nos bastidores.

O Governo de São Paulo já havia reclamado da demora para avaliação da Coronavac e das exigências feitas pela Anvisa ao Butantan. “Me causa um espanto tremendo”, queixou-se o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, ao comentar sobre a lista de pendências elencadas pela agência reguladora. Até o fim da tarde desta sexta, a Anvisa apontava que 10% da documentação exigida sobre a Coronavac ainda estariam pendentes de envio. Doria afirmou que a secretaria da Saúde permanece de prontidão para encaminhar quaisquer documentos que sejam requisitados.

Segundo previsão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o Governo deve lançar a campanha de imunização contra o coronavírus na próxima terça-feira, com a primeira rodada programada para o dia seguinte. Pazuello também chegou a dizer que priorizaria Manaus, em colapso. Em São Paulo, Doria mantém o marco zero da vacinação no Estado agendado para 25 de janeiro, data do aniversário da cidade de São Paulo.

Especialistas argumentam que faz sentido iniciar a vacinação em várias partes do país ao mesmo tempo, mas a racionalidade epidemiológica não parece estar guiando o processo. Com o revés da Índia, Doria ganhou um trunfo. Para que o governador paulista não o desbanque no xadrez político pelo pioneirismo dos imunizantes, Bolsonaro agora depende da vacina que tanto desprezou —e desaconselha tomar—, mas que se tornou imprescindível para sua sobrevivência no jogo.

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