Brasileiros mal conhecem a Venezuela que os imigrantes trazem na bagagem

Venezuelanos começam a liderar as cifras de imigrantes no país enquanto brasileiros confundem as razões de sua saída. Quem vive em Pacaraima já sentiu hostilidade. Quem fica em São Paulo tem mais sorte

A venezuelana Samired, que decidiu viver com filho Samir em São Paulo. No vídeo, venezuelanas relatam como é viver na metrópole paulistana.Foto e Vídeo: Lela Beltrão
Mais sobre os venezuelanos no Brasil
BOA VISTA, RORAIMA BRASIL, OUTUBRO 2020: Stefanie é imigrante venezuelana e saiu de um abrigo em Boa Vista para trabalhar numa loja de vestuário em São Paulo. O processo de interiorização dos refugiados venezuelanos vivendo no Brasil é promovido pela Operação Acolhida. (Photograph: Victor Moriyama)
Oásis na era Bolsonaro, Operação Acolhida corre contra o relógio antes da reabertura das fronteiras
BOA VISTA, RORAIMA BRAZSIL, OUTUBRO 2020: Refugiados Dorianny é venezuelana e está viajando no processo de Interiorização promovido pelo Governo Brasileiro com garantia de trabalhos em outras cidades do país. Ela viaja com seus seis filhos, sua irmã e o cunhado.  (Photograph: Victor Moriyama)
“O meu hoje é o Brasil”. A saga dos venezuelanos que se tornaram cidadãos brasileiros
BOA VISTA, RORAIMA BRASIL, OUTUBRO 2020: General Barros, chefe da Operação Acolhida do Exército acompanha a alta de pacientes com COVID-19 no Campanha gerido pelo exército Brasileiro durante a Pandemia de Covid 19 na cidade de Boa Vista.  (Photograph: Victor Moriyama)
Como os venezuelanos ajudaram a controlar a primeira onda da covid-19 em Roraima

Rosalva preparava as arepas e empanadas que vendia em seu carrinho de comida típica antes da pandemia, enquanto um cliente brasileiro falava entusiasmado sobre a crise da Venezuela. Rosalva sorria em silêncio e tentava mudar o rumo da prosa, enquanto ocultava uma lágrima no canto do olho. Não queria estender o assunto que a trouxe até o Brasil, mas não podia ser indelicada. Há cinco anos morando em São Paulo, esta engenheira de Puerto Ordáz rendeu-se a sua nova realidade de imigrante depois de ver a violência aumentar na região em que morava e assistir ao custo de vida disparar. Não foi só isso. A existência de listas na empresa em que trabalhava com os nomes de quem votou ou não no chavismo era algo que a sufocava há muito tempo. Trabalhava na companhia Edelta, a principal hidrelétrica venezuelana, e junto com o marido, no fim de semana, ministrava cursos de gastronomia que havia criado.

Com a entrada de Nicolás Maduro o que era ruim se tornou insuportável, lembra Rosalva, de 37 anos. Os sinais de um quadro de desordem estavam em toda parte e a perspectiva era de que tudo só iria piorar. Protestos de rua em 2014 mataram mais de 40 pessoas, oposicionistas foram presos, e o governo do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, baixou sanções econômicas contra o seu país. Os tempos de bonança chegavam ao fim e o país pagava um preço alto. “Uma bolha estourou”, diz ela.

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O Brasil não era a sua primeira opção. Havia vindo ao país visitar seu irmão, que chegou aqui em 2013 para atuar no Programa Mais Médicos e fazer uma especialização em cirurgia plástica. Acabou ficando. Rosalva aterrissou para a visita familiar em pleno Carnaval e a multidão nas ruas a assustou. Ela e seu marido, formado em Administração, tinham em mente emigrar para os Estados Unidos. Mas quando voltaram a seu país sentiram um choque. “De repente, tudo se agravou, foi muito rápido”, lembra Rosalva. “Estávamos trancados em casa, o dinheiro já não dava para nada, e começamos a ver sequestros no nosso bairro, que antes era uma zona segura”, conta ela, que é mãe de Angelo. “Em novembro de 2015 já estávamos aqui”, conta. Ter o irmão por perto ajudou a se decidir pelo Brasil. Depois, outra irmã seguiu seu exemplo e o Brasil se transformou, do dia para a noite, na pátria da sua família, embora seus pais permaneçam na Venezuela. Neste final de ano os pais vieram se reunir com a família para o Natal aqui.


A engenheira venezuelana Rosalva (à dir.) e sua família em São Paulo.
A engenheira venezuelana Rosalva (à dir.) e sua família em São Paulo. Lela Beltrão

No começo, a engenheira chegou a ouvir a pergunta se a Venezuela ficava na África, embora o país partilhe com o Brasil uma fronteira (terrestre e no mar) de 2.200 quilômetros quadrados. Mas, depois que a tensão política subiu lá e aqui, a Venezuela estava o tempo todo na mídia. Vez ou outra Rosalva se depara com brasileiros que não gostam de ouvir ou não acreditam que a Venezuela viva, na prática, um regime autoritário similar a uma ditadura, embora mantenha ares de democracia. Ainda que eleições, como as legislativas no começo do mês, deem a impressão de normalidade a quem está fora, a realidade mesmo entrega outra coisa a seus cidadãos, relatam os venezuelanos ouvidos para esta reportagem.

Com quase 263.000 venezuelanos residentes no Brasil, a Venezuela caiu na boca do povo brasileiro de modo superficial, como assunto de torcida de futebol, especialmente após a polarização que se cristalizou no país nos últimos anos. De um lado, os que argumentam que Maduro é vítima do bloqueio econômico dos Estados Unidos, que começou em 2015, sangrando a economia local. De outro, os que usam a Venezuela como exemplo do que pode acontecer no Brasil se a esquerda voltar ao poder. Diante de uma realidade muito mais complexa do que essa leitura maniqueísta, estão os venezuelanos que se veem obrigados a fugir do país para sobreviver.

Nem todos os brasileiros conhecem a Venezuela ou as razões que levam os venezuelanos a sair. Muitos não acreditam que quem emigra do seu país de origem não é por mera discordância política de Maduro. “Isto não é um arroubo das pessoas que se opõem ao regime. É uma realidade muito dura. Já saíram mais venezuelanos do meu país do que sírios em dez anos de guerra”, compara Raúl Escalona, que era diretor de televisão e de teatro na Venezuela, e se viu obrigado a sair depois de ameaças a sua família feitas por partidários do Governo. A Síria, sob o regime de Bashar al-Assad, vive uma sangrenta guerra com forças opositoras que de 2011 até março deste ano já havia matado mais de 384.000 pessoas. Cerca de 5 milhões de sírios saíram do país destruído em uma década de guerra. Aqui, ao lado do Brasil, em cinco anos de ocaso, o número de refugiados venezuelanos já chega a 5,5 milhões ―número que só parou de subir porque as fronteiras na América do Sul estão fechadas pela pandemia.

Coube ao Governo de Jair Bolsonaro ampliar a solução emergencial montada pelo Governo Michel Temer para receber os venezuelanos com a Operação Acolhida, que ainda não consegue acomodar todos os necessitados, mas é a única resposta momentânea brasileira para os mais vulneráveis que se viram no meio do tiroteio.

Aos pés da lava do vulcão

Se nos primeiros anos da crise venezuelana o Brasil recebeu mais imigrantes de classe média e classe alta, nos últimos dois anos o perfil mudou para uma população mais vulnerável que estava sem remédios, sem comida, e sem segurança. “Por que os venezuelanos estão aqui no Brasil? Não é perseguição política. É a fome”, diz o padre Jesus de Bobadilla, que atua na paróquia de Pacaraima, fronteira com o município venezuelano de Santa Elena de Uairén, por onde o fluxo de venezuelanos começou a se intensificar nos últimos quatro anos. “Ninguém me contou. Eu estava aqui, ao lado do vulcão, a lava já me queimou”, diz o padre, nascido em Marrocos, e criado na Espanha, que vive em Pacaraima há 11 anos.

Jovens venezuelanas trabalham informalmente limpando vidros de carros nas ruas de Boa Vista, Brasil.
Jovens venezuelanas trabalham informalmente limpando vidros de carros nas ruas de Boa Vista, Brasil.Victor Moriyama (Victor Moriyama)

De estatura baixa e olhos azuis muito claros, Jesus é uma das testemunhas mais importantes do fluxo venezuelano no Brasil dos últimos anos. Era em sua paróquia que eles buscavam ajuda quando chegavam após dias de peregrinação para mudar a rota de suas vidas. Além de uma refeição e uma palavra de aconchego, buscavam informações de como recomeçar sua vida ali ― tais como sobre documentos e vacinas. Jesus acabou atuando como um parceiro da Polícia Federal na fronteira, embora tenha ganho a ira dos cidadãos que antes contavam com ele. “Não me arrependo”, diz ele que criou um café da manhã que começava às 4h30 da manhã para atender os venezuelanos, o Café Solidário.

A cidade pequena, de pouco mais de 10.000 habitantes em 2015, começou a mudar abruptamente com barracas de lona montadas pelas ruas. A população ficou furiosa. “Nós chegamos a receber mais de 1.000 venezuelanos de um dia para o outro que passaram a morar nas ruas, colocando suas barradas em ruas centrais”, diz o padre, que reconhece as razões da ira de seus detratores. “Aqui nunca tinha havido homicídios e de repente começaram. Houve prostituição de menores, drogas, foi uma metamorfose radical”, diz ele. “É compreensível que a população reagisse”, afirma.

Mas a reação ganhou um componente tóxico, incentivado por autoridades, diz Jesus. “A xenofobia, muito mais perigosa que o coronavírus”, diz o padre, ele mesmo já ameaçado diversas vezes de morte por moradores locais que inclusive deixaram de frequentar suas missas por cuidar dos venezuelanos que chegavam à cidade. Em 2018, políticos em campanha, como a então governadora Suely Campos e o senador roraimense Romero Jucá tentavam se reeleger com a pauta antivenezuelanos. Ambos foram derrotados.

Na eleição municipal deste ano, três dos 11 candidatos a prefeito em Boa Vista, capital de Roraima, colocaram o assunto dos “privilégios” dos venezuelanos em pauta, como contou o jornalista Fabio Zanini, da Folha de S. Paulo. Um deles sugeria, inclusive, o fechamento de abrigos da Operação Acolhida, que deu alimentação e alojamento aos venezuelanos, e garantiram que não ficassem a esmo nas ruas da cidade. Assim como Pacaraima, Boa Vista incorporou os venezuelanos à sua economia local, mas tem os tons da crise do país fronteiriço escancarado nas ruas. Há pedintes estrangeiros nos semáforos, em praças e nas portas de lojas. Já existe uma das ruas da cidade só com prostitutas venezuelanas.

Boa Vista soma em 2020 exatos 419.652 habitantes segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números avançam ano a ano: a população era de 375.400 pessoas em 2018, e 399.200 em 2019, configurando um dos maiores avanços populacionais do Brasil, e um problema estrutural latente com a entrada dos venezuelanos. Hoje 40% dos atendimentos de saúde em Roraima são dedicados a venezuelanos, segundo disse o governador do Estado, Antonio Denarium, em fevereiro deste ano. A reportagem testemunhou alguns poucos comentários e risos depreciativos sobre eles, muito embora não seja o senso comum na cidade, como os próprios entrevistados ouvidos pela reportagem disseram. Há vendedores de loja, garçons em hotéis e restaurantes e até empreendedores estrangeiros em Boa Vista. Há dois anos a cidade tinha 40.000 venezuelanos, segundo declarações oficiais de autoridades na época. Hoje, há quem fale em 80.000. A Prefeitura de Boa Vista não confirmou os dados para a reportagem e pediu para que a Operação Acolhida respondesse ao questionamento. Já a Operação Acolhida disse que cabia à prefeitura dar a resposta.

São Paulo, de imigrantes

Se há hostilidade com os novos estrangeiros em Pacaraima e Boa Vista, na São Paulo que acolhe quase 200 nacionalidades o clima é outro, segundo relato dos entrevistados nesta reportagem. Samired, de 31 anos, conta que levou um tempo para se adaptar a tantas mudanças, em especial numa cidade grande, barulhenta, e que vive as 24 horas intensamente. “A gente não fica parada um dia, é uma cidade muito grande, precisa ter a cabeça aberta”, explica ela, que encarou um começo difícil para se adaptar à nova cultura, ao novo idioma desde que chegou há dois anos com o filho Samir. Diz que “ainda” não sentiu preconceito em São Paulo, onde mora com o filho e o namorado que veio encontrá-la este ano. “Meu filho ouviu brincadeiras no começo pela diferença de idioma enquanto jogava futebol”, lembra. Mas o saldo parece positivo. “Muita gente tem sido muito boa com os imigrantes venezuelanos aqui”, diz ela. “O brasileiro é muito carinhoso, amável, eu gosto do calor dos brasileiros, estou muito agradecida”, diz Samired, que pensa em voltar quando a economia melhorar.

Raúl e sua esposa, Elvira, moram em São Paulo agora: "Me sinto um paulistano de coração".
Raúl e sua esposa, Elvira, moram em São Paulo agora: "Me sinto um paulistano de coração".Victor Moriyama (Victor Moriyama)

Raúl, por sua vez, se sente em casa em São Paulo, uma capital urbana de 12,2 milhões de habitantes cuja vida cultural é vibrante. O jornalista frequentava os teatros da capital paulista com a sua esposa, Elvira, até o início da pandemia. “Me sinto um paulistano de coração”, comenta ele, que já viveu no Equador, Costa Rica, e também na França e na Espanha quando jovem. Chegou a trabalhar como assistente em uma produção do brasileiro Glauber Rocha nos anos 60. Voltou para a Venezuela, onde fez sua carreira em canais de televisão.

A vida deu voltas, e Raúl reencontrou-se com o Brasil com mais de 70 anos. Mas já se deparou com olhares desconfiados entre brasileiros de esquerda por ele endossar críticas ao Governo de Maduro e Hugo Chávez. Rosalva também identifica partidários do PT que se incomodam quando ela se posiciona contra a Venezuela chavista. Mas quando o assunto não é política, a percepção é outra aqui em São Paulo. “Se alguém me olhou diferente por minha nacionalidade, eu não reparei”, conta ela, que vê no Brasil um país com muito menos burocracia que a Venezuela. A ideia de voltar vai ficando a cada dia mais distante. Se os primeiros anos havia uma expectativa de voltar em algum momento, agora, Rosalva só vislumbra viver, quem sabe, sua aposentadoria por lá se as coisas melhorarem.

Esta reportagem é resultado do laboratório de produção de jornalismo “Refugiados e Migrantes” e faz parte da série de publicações realizadas com apoio da Fundação Gabo e Acnur


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