Cai a noite em Moria: dormir entre escombros e rente ao chão

Incêndios no campo de refugiados da ilha de Lesbos, na Grécia, deixam seus 13.000 habitantes em uma situação-limite

Um grupo de refugiados passa a noite ao relento depois do incêndio no campo de refugiados de Moria, em Lesbos (Grécia).
Um grupo de refugiados passa a noite ao relento depois do incêndio no campo de refugiados de Moria, em Lesbos (Grécia).Álvaro García
ENVIADO ESPECIAL | Mitilene (Lesbos) - 13 set 2020 - 17:20 UTC

Cai a noite em Lesbos e a estrada para Moria fervilha de figuras humanas que driblam os escombros e os caminhões. O acostamento e os olivais estão ocupados por famílias e grupos de refugiados que nesta semana, levando só a roupa do corpo, deixaram o assentamento de imigrantes desta ilha grega. Três incêndios arrasaram o maior campo de refugiados da Europa, um buraco negro na história da UE onde sobreviviam 13.000 pessoas que ficaram sem teto. “Em dois anos que estou aqui isto é o pior que vivi”, afirma Ali Ahmed, um somali de 24 anos que trabalha como voluntário.

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Cidadãos como o afegão Shokor Rizayi se instalaram à beira da estrada numa barraca doada por uma ONG. Rizayi se senta sobre um balde de plástico e se ilumina com uma fogueira alimentada com tábuas procedentes dos restos do assentamento calcinado. Perdeu todos os seus pertences no incêndio e está há quatro dias sem poder tomar banho. Rizayi cruzou da Turquia para Lesbos há um ano. Diz ter 16 anos, mas não tem documentos que comprovem isso e está batalhando para que o Ministério de Migração grego assim reconheça, para poder se beneficiar da acolhida oferecida por países como França e Alemanha a menores desacompanhados em Moria.

O Acnur, agência da ONU para refugiados, diz haver 407 menores não tutelados em Moria, embora Rizayi aponte que são muitos mais. Enquanto diz isto, um menino passa arrastando uma caixa amarrada a uma corda e um velho colchão.

“Há mulheres grávidas dormindo ao rés do chão, e só há dois médicos na área, dos Médicos Sem Fronteiras”, afirma Ali Ahmed, que trabalha como voluntário na ONG dinamarquesa Team Humanity. As instalações da ONG dão abrigo a 500 pessoas que fugiram de seus acampamentos quando estes pegaram fogo. No acesso à área da Team Humanity há um trânsito constante de refugiados que se aproximam para pedir alimentos, roupa e material de higiene.

Um refugiado segura um bebê em um acampamento improvisado em Lebos.
Um refugiado segura um bebê em um acampamento improvisado em Lebos.Álvaro García

Dentro do recinto, as 150 famílias ali acolhidas tornaram a acampar, outra vez sem espaço para uma mínima margem de intimidade. Ali fica clara a ameaça para a qual o Acnur e os Médicos Sem Fronteiras vêm alertando nos últimos dias: o risco de uma onda de infecções da covid-19 é elevado. “É impossível manter a distância de segurança, as pessoas não têm água para se lavar e muito menos material sanitário”. O primeiro caso positivo foi detectado em Moria neste mês e, segundo as autoridades gregas, antes do incêndio já haviam sido notificados 35 infectados. O Ministério de Migração afirmou na sexta-feira que perdeu contato com os doentes, que eram mantidos em quarentena.

Jornalistas, funcionários da ONU e voluntários de ONGs chegaram nos últimos dias em massa a Mitilene, a capital de Lesbos. Pela estrada para Moria circulavam durante a noite caminhões, escavadeiras e comboios do Exército dedicados a erguer um novo acampamento de acolhida temporária. Os faróis dos veículos iluminavam a famílias que se aproximavam dos jornalistas para pedir socorro ou alertar para a doença de algum familiar que ninguém pôde atender. Sírios e afegãos em sua maioria, também paquistaneses, iraquianos, iranianos e congoleses, formavam rodinhas ao longo da estrada, separados por sua cultura e procedência, mas compartilhando a escuridão e a incerteza.

A tensão está longe de amainar em Lesbos. Pela manhã, a polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar um protesto em que centenas de refugiados exigiam soluções para sua situação. Sem comida e água suficientes, dormem ao relento em acampamentos e acostamentos de estradas. E se opõem à construção de um novo campo preparado por Atenas.

Uma refugiada foge do fogo com seu bebê nos braços.
Uma refugiada foge do fogo com seu bebê nos braços.Petros Giannakouris / AP

“Há muita tensão, a polícia está disparando gás lacrimogêneo”, contava por telefone Clement, um refugiado nigeriano, informa Andrés Mourenza. Segundo o jornal grego To Vima, os refugiados lançaram pedras e os agentes antimotins utilizaram gás para dispersá-los. Clement afirmou não ter visto ninguém jogando pedras e disse não entender por que a polícia os atacou durante um protesto “pacífico”.

“[Os policiais] não pareciam se importar que houvesse crianças entre os manifestantes, lançaram muitíssimo gás”, afirmou. Nas redes sociais circularam vários vídeos de jornalistas presentes na passeata e dos próprios refugiados que mostravam centenas de pessoas, muitas delas mulheres e crianças, levando cartazes nos quais se lia: “Não queremos voltar a um inferno como Moria”. Nas mesmas imagens se via a polícia atirando bombas de gás.

Este incêndio pôs novamente o foco na ineficaz resposta da União Europeia ao desafio migratório e na nula capacidade de acordo entre seus membros. Enquanto uma dezena de países, encabeçados por França e Alemanha, anunciaram nesta semana que acolherão 400 menores não acompanhados que sobreviviam em Moria, há outros, como a Áustria, que já anunciaram que se opõem totalmente à sua redistribuição. O Governo grego ― a pesar do mal-estar dos moradores de Lesbos ― rejeita uma transferência maciça para fora da ilha, localizada a apenas 24 quilômetros da costa turca. Na sexta-feira, Margaritis Schinas, vice-presidente da Comissão Europeia, declarou que o Executivo comunitário apresentará sua proposta para um novo pacto de migração e asilo que seja “duradouro e eficaz”.

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