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Manobras para destruir a esperança na Venezuela

Governo de Maduro soube desmantelar cada halo de otimismo com eleições questionadas, negociações fracassadas, repressão e violência

Nicolás Maduro, em ato encerramento da campanha nesta quinta-feira em Caracas.
Nicolás Maduro, em ato encerramento da campanha nesta quinta-feira em Caracas.---- / EFE

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Neste domingo, a Venezuela fecha um ciclo de cinco anos em que as esperanças de mudança acabaram se transformando em desespero e letargia. Em que os cidadãos marcham para um lado ou para outro por inércia, não por convicção. O Governo de Nicolás Maduro soube desmantelar cada halo de otimismo, de todas as formas possíveis e imagináveis: com eleições questionadas; com negociações fracassadas para desativar protestos; com repressão e violência... Manobras que acabam ocultando uma crise humanitária sem paralelo na história recente da América Latina. Resta uma pergunta: e agora? Em 6 de dezembro de 2015, os opositores conseguiram uma vitória que nem mesmo eles imaginavam ser possível. Já naquela época o cansaço, a violência, a crise econômica e os presos políticos eram fatores que desencadeavam a mobilização cidadã. O que aconteceu desde então? Tudo piorou. O escritor venezuelano Alberto Barrera resumiu o fenômeno como uma luta contra o cinismo. O Governo certificou-se de que não haja garantias suficientes para que outra derrota seja possível, e conseguiu ― com certa ajuda da oposição ― que a indiferença seja maiúscula. Segundo a última pesquisa da empresa Datanálisis, 62% da população não apoia nem Guaidó nem Maduro, e nenhum dirigente supera os 30% de aprovação. A necessidade de sobreviver, é bem sabido, despolitiza.

Convém considerar certas evidências para não se chegar à conclusão de que Nicolás Maduro é o político que executa as manobras mais calculadas do planeta. Os Estados Unidos, com a chegada de Joe Biden, adotarão outra posição em relação à Venezuela para não terem que assumir toda a responsabilidade das sanções impostas pela Administração de Trump ― que asfixiaram os cidadãos, não as elites. Os erros de Guaidó, sobretudo um levante fracassado e uma incursão protagonizada por mercenários, pesaram mais que os atropelos com os quais o Governo tentou solapá-lo. Tudo isso força um redirecionamento da estratégia. A oposição se reduz ― depois de ter sido reduzida à força ― a ponto de acabar com as esperanças de seus seguidores.

Enquanto isso, a liderança chavista é reconfigurada sob uma aparência de falsa normalidade. Isso é uma maratona ― e os dirigentes são exímios maratonistas. Sabem que são parte da solução e, desse modo, são conscientes de que necessitam de uma legitimidade internacional que os ajude a reduzir as sanções.

A crise política mergulhou a Venezuela num turbilhão econômico que abriu como nunca a brecha social de um dos países mais ricos do continente. Isto porque, entre todos os cursos acelerados que propiciam as diferentes crises, os “momentos decisivos” e as declarações políticas com insultos e críticas mútuas, esconde-se o drama das milhões de pessoas que foram embora, das que decidiram ficar e das famílias dos que já não estão. Todas elas mergulhadas numa letargia imposta, nunca buscada.

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