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São Paulo precisa de gestores com experiência prática contra as desigualdades que eu mesma vivi

A representação dos interesses da periferia não pode mais se dar pelos mesmos políticos de sempre. A promoção de uma verdadeira renovação da política exige novas estruturas de participação

Tamires Fakih
Tamires Fakih, candidata a vereadora de São Paulo pela Rede.
Tamires Fakih, candidata a vereadora de São Paulo pela Rede.DIVULGAÇÃO (CUSTOM_CREDIT)

Foi numa sexta-feira chuvosa que eu percebi como operam as desigualdades na nossa cidade. Caía uma tempestade no final do dia, e se o trânsito fica infernal em São Paulo quando chove, para o morador da periferia é ainda pior, porque aí é só perrengue, preocupação em não chegar em casa e longas horas no transporte público lotado.

Estava retornando para o bairro da Vila Ré, zona leste de São Paulo, onde moro, depois de um longo dia trabalho. Nesse momento, estava trabalhando como Consultora da UNESCO em um projeto na Secretaria Municipal de Educação, que tinha como objetivo de fortalecer os mecanismos de gestão na educação municipal. Eram as últimas semanas de trabalho e na agenda daquela sexta-feira eu tinha uma reunião importante sobre o projeto, além de ser aniversário do meu pai. A ideia dos colegas de equipe era fazer uma confraternização ao término da reunião.

Em meio a confraternização, eu só me preocupava com a chuva, além de pensar no bolo que havia prometido levar para minha irmã, para celebrarmos o aniversário do nosso pai. Vinda de outra realidade social, eu olhava ao meu redor e parecia que aquele espaço não poderia ser frequentado por mim. As únicas pessoas com semblantes preocupados, por conta da chuva, eram a faxineira do prédio e eu.

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Depois de horas no transporte público, consegui buscar o bolo onde havia encomendado, antes de descer a ladeira de casa. Receosa pelo horário e pela falta de iluminação, vi uma moto se aproximar e temi um assalto. Não teve jeito: tomei um baita susto e acabei caindo, com o bolo e tudo que havia direito.

Resumo da história: meu pai ficou sem bolo e eu desesperançada. Com o passar dos anos entendi que esse episódio não era motivo de vergonha e nem de riso, mas de revolta. Soube, afinal, por que os tomadores de decisão (ou policy makers) que trabalhavam comigo não entenderam o que eu descrevi para eles na segunda-feira: eles nunca passaram pelo que eu passei junto com minha família a vida inteira. E talvez nunca conhecerão a realidade das periferias brasileiras, da mesma forma que não entendem quando falamos que os políticos mudam de cara, mas não mudam de postura.

Tudo começou cedo na minha vida.

Meu pai é imigrante libanês e se estabeleceu na Zona Leste, sem nada no bolso. Foi lá que ele e minha mãe se conheceram e me criaram. Ela é uma batalhadora, teve vários empregos para nos sustentar e pude acompanhá-la várias vezes quando criança nas faxinas que ela fazia na casa das patroas. Aprendi desde cedo a conviver com as diferenças, a negociar e conversar, mesmo nas situações mais adversas. Sou a mais nova de cinco irmãos e reconheço muitos privilégios que tive enquanto caçula, tal como ser a primeira da minha família a ter ensino superior e pós-graduação.

Estudei na Escola Estadual José Bartocci e consegui uma bolsa integral para estudar no Colégio Islâmico de São Paulo, de onde até hoje carrego bons amigos. Acabei concluindo o ensino médio em outra escola pública, Nossa Senhora da Penha, e fiz um cursinho popular para tentar uma vaga na universidade.

E consegui: me formei em Gestão de Política Públicas, sou mestra em Geografia Humana e hoje curso Doutorado em Mudança Social e Participação Política, todos na Universidade de São Paulo. Tenho muito orgulho da minha história e entendo que a educação mudou a minha vida. Mas também sei que não seria possível sem as pessoas que estiveram ao meu lado e muitas políticas públicas que combateram as desigualdades ao meu redor.

Trabalhei por dois anos como assessora técnica na Secretaria Municipal de Planejamento e Orçamento de São Paulo, com foco nas áreas de inovação do setor público e tecnologia. Tem um ditado em inglês que diz que, para saber como a política é feita, é preciso “seguir o dinheiro” (follow the money) - foi isso que aprendi a fazer com minha experiência. Pude conhecer por dentro como as decisões são tomadas e por que elas eram daquele jeito.

Movida pelo desejo de mudanças, minha trajetória no poder público não parou por aí. Fui selecionada pela UNESCO a participar do projeto na Secretaria de Educação e, depois, por lá também continuei na condição de chefe de um núcleo responsável pelas pesquisas de mercado, da área de licitações e contratos da pasta, por cerca de um ano. Em seguida, comecei a trabalhar na Procuradoria Geral do Município, onde fui assessora especial e desenvolvi outros projetos de gestão e inovação.

O que eu sentia durante minha passagem de seis anos na Prefeitura de São Paulo era algo que já havia experimentado algumas outras vezes na vida: aquele não era o lugar para gente como eu, vinda da periferia. São espaços marcados pela desigualdade e exclusão de mulheres, pobres e pessoas da periferia. Vejo que algumas manifestações sociais como o movimento Black Lives Matter, nos Estados Unidos, ou o Gilets Jeunes, na França, demonstraram o que no Brasil vivemos desde nossa redemocratização - justamente o aprofundamento das desigualdades das populações mais vulneráveis nas cidades.

Li há alguns anos um político famoso escrever que conhecia “teoricamente” o nosso país. Na verdade, isso não quer dizer quase nada. Sei que a experiência teórica na gestão pública é essencial em um bom gestor. Mas isso nem se compara com a experiência prática na elaboração de políticas públicas de qualidade, vivendo na pele todos os dias as desigualdades como as que eu vivi durante a minha vida. Se esse político viveu na pele o que leu nos livros, eu fui entender nos livros e na prática da gestão pública o que vivia na pele desde que nasci.

O que vemos nos últimos anos no Brasil é uma profunda crise institucional e democrática, e mesmo assim os políticos querem continuar a se repetir e manter as mesmas práticas. Em São Paulo, por exemplo, 90% da Câmara de Vereadores vai tentar a reeleição, sendo que eles possuem em média 56 anos e são na maioria homens. Mulheres são menos que 20%.

Entendo que o rompimento com essa situação e a promoção de uma verdadeira renovação da política exige não só a inclusão de novas pessoas nas instituições públicas, mas também novas estruturas de participação que englobem a voz e a escuta ativa desses sujeitos políticos na tomada mais transparente de decisões. Mas só isso não basta.

Um verso da música AmarElo, do Emicida, diz que “pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. Eu penso nisso todos os dias. Em situações sociais drásticas como as que vivemos com a pandemia da covid-19, são necessárias medidas que protejam os mais vulneráveis e que reduzam a exclusão social. Não podemos deixar que o Governo Federal reduza o auxílio emergencial e burocratize ainda mais a vida do cidadão comum, que pega filas normes na Caixa sem saber que esse valor não pagará nem sequer o arroz, que nunca foi tão caro assim no Brasil.

Também precisamos promover a retomada da economia alinhando crescimento econômico, geração de emprego e sustentabilidade no curto prazo, de forma a promover, sobretudo, incentivo fiscal e linhas de crédito subsidiado para pequeno e médio empresário. Só assim São Paulo vai sair da crise econômica. Se até nos Estados Unidos é possível pensar num novo pacto social de combate às desigualdades sociais em conjunto com a crise climática e ambiental no mundo (chamado também de Green New Deal), no Brasil esse debate já passou da hora de acontecer.

Mas aqui ele deve assumir outros contornos: os das periferias. Sabemos que os mais afetados pelas mudanças climáticas são os mais pobres e a fome se tornou o principal problema das cidades na pandemia da covid-19. É imprescindível ter políticas concretas de combate permanente à fome em São Paulo, integrando as redes de agricultores familiares às comunidades mais carentes, por exemplo. Também é preciso recuperar os programas de proteção e capacitação de jovens e mulheres para que eles possam voltar ao mercado de trabalho com o mínimo de segurança.

A representação dos interesses da periferia não pode mais se dar pelos mesmos políticos de sempre. Hoje eu entendo que aquele era sim o meu lugar. Pessoas como eu precisam estar em todos os espaços. Precisamos de uma São Paulo a altura de seu povo e dos nossos sonhos. Vencer as inúmeras crises da pandemia, mas vencê-las combatendo as desigualdades impostas à população da periferia.

Esse processo é coletivo e depende de todos nós. É a nossa vez, e precisa ser pela nossa voz.

Tamires Fakih, de 29 anos, é moradora da zona leste, gestora de Políticas Públicas pela USP, doutoranda em Mudança Social e Participação Política na USP e candidata a vereadora de São Paulo pela Rede Sustentabilidade.

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