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Arthur do Val: “O centro de São Paulo não é lugar para dar comida ao morador de rua”

Pré-candidato do Patriota à Prefeitura de São Paulo critica ONGs e braço da Igreja Católica que atuam na região, e defende iniciativa privada como solução para o desemprego, apesar da crise

O pré-candidato do Patriota à Prefeitura de São Paulo, Arthur do Val, criticou nesta segunda-feira o atendimento assistencial prestado por ONGs e por setores da Igreja Católica a moradores de rua do centro de São Paulo. “O centro histórico não pode ser um ambiente onde você dá a comida e o morador de rua pegue seu cobertor, durma na rua, e sabe-se lá onde esse cara vai fazer suas necessidades e largar o lixo daquela marmita”, afirmou em entrevista ao EL PAÍS como parte de uma série do jornal com os postulantes ao comando da maior cidade do país.

Ele defendeu que “o equipamento social [para a população de rua] deve ser entregue de forma completa”, com um atendimento “descentralizado [fora da região central]”. De acordo com ele, os ex-prefeitos da capital investiram em políticas públicas na região central com foco nos sem-teto com o intuito de “pagar de bonitinhos”, já que a região tem alta visibilidade.

Do Val, que é deputado estadual e tem um canal de YouTube sob a alcunha de Mamãe Falei, com milhões de inscritos, atacou o trabalho realizado pelo padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e um dos nomes mais respeitados na área. “O que o padre Júlio Lancelotti faz é destrutivo para a cidade de São Paulo”, disse. Segundo ele, “as pessoas acreditam que o padre conhece aquela realidade, mas não, ele aparece para dar marmita a serviço de ONGs, mas não soluciona o problema. Eu duvido que o padre tenha dado uma volta na cracolândia”.

Procurado, o padre Júlio afirmou que não trabalha “com nenhuma ONG”, e que sua ação na rua “é em nome da Arquidiocese de São Paulo, designado pelo Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo da cidade”. Quanto ao fato de não conhecer a cracolândia, o pároco ressaltou que já realizou “mais de 20” missas no local”. “A pastoral realiza há décadas um trabalho de aproximação com a população de rua, não estamos lá apenas para distribuir comida. Agora na pandemia ajudamos o grosso dos moradores de rua da região a realizarem o cadastro para receber o benefício emergencial”, afirmou.

Se o padre Júlio e as ONGs são um problema na visão do pré-candidato liberal, a iniciativa privada seria parte da solução. “Temos um Estado gigantesco, querendo planejar pra onde a cidade deve ir com mão de ferro, e não é assim que acreditamos que as coisas devam ser feitas”, afirmou. Ele não se considera, no entanto, um defensor de “Estado zero”. “O papel do liberal não é falar ‘cada um que se vire’ (...) Eu não acho que ter Estado zero resolva, existem programas [sociais] liberais, como renda básica. O Bolsa Família, do jeito que deveria ser feito, com porta de saída, é um programa liberal”.

Segundo do Val, é preciso reformar o plano diretor da cidade para tirar entraves burocráticos “e obstáculos” para a instalação de empresas e indústrias na cidade. Essa seria, de acordo com ele, uma solução para o problema do desemprego na capital. “Precisamos trazer as empresas pra cá. Garanto pra você que tem milhões de empresas querendo investir em São Paulo e não vêm por causa de entraves e leis trabalhistas absurdas”, diz.

O deputado, que defende uma cidade “menos carrocrata”, afirma ser contra o rodízio de veículos e as multas por excesso de velocidade —para ele ”existe uma indústria de multas” na cidade. Indagado sobre a contradição do argumento, ele diz que não “se pode falar em tornar a cidade menos carrocrata punindo quem usa carro (...) não existe estudo que mostra que o rodízio ajudou a melhorar o trânsito”. Ao contrário do que Do Val diz, existem estudos internacionais e brasileiros que apontam para a relação entre redução do trânsito e a restrição à circulação de veículos privados.

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