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Bruno Covas: “Padre Lancelotti é incômodo necessário para a prefeitura não perder o foco”

Em entrevista ao EL PAÍS, prefeito desenha estratégia contra a polarização política, defende sua gestão de críticas e afirma que quem decidirá data para volta às aulas serão os médicos

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas.
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas.
Marcelo Cabral|Gil Alessi


O prefeito e candidato à reeleição pelo PSDB, Bruno Covas, defendeu nesta quarta-feira, durante entrevista ao EL PAÍS, o trabalho do padre Júlio Lancellotti, da pastoral do povo de rua. O religioso se tornou alvo de ataques nas últimas semanas após Arthur do Val (Patriota) ―que também está na disputa pelo Executivo municipal― dar início a uma campanha de difamação com relação ao trabalho de Lancellotti. “Nos últimos quatro anos em que estive na prefeitura o padre nunca veio pedir nada pra ele, sempre veio até nós solicitar para essa população [de rua] que muitas vezes não tem voz, não tem que os defenda”, afirmou Covas. O prefeito disse que o trabalho do pároco por vezes é “um incômodo, mas um incômodo necessário para que a prefeitura não perca o foco” no atendimento aos moradores de rua. A entrevista com o mandatário é parte de uma série de conversas do jornal com os postulantes ao comando da capital.

A declaração de Covas sobre o tema, oposta à de do Val, já sinaliza uma disputa ideológica polarizada durante a campanha para a disputa de novembro. Uma das estratégias de do atual prefeito para buscar a reeleição é se colocar como uma alternativa à polarização entre os campos bolsonarista, de um lado, e de de esquerda, de outro. Mas já sente as chamas das críticas que uma candidatura autodeclarada de centro recebe dos dois lados. “No Governo do PT, eu era chamado de neoliberal. Agora, no governo do Bolsonaro, eu sou chamado de comunista”, resume.

Para turbinar esse centro, Covas reuniu uma ampla frente, incluindo pelo menos oito partidos - ―entre eles MDB, DEM, Podemos, PP e outros―, o que lhe garantiu o maior tempo na propaganda eleitoral de TV e rádio da disputa. Seu vice na chapa é Ricardo Nunes, do MDB, de perfil conservador. É uma das poucas chapas, aliás, que optou por um homem no posto de vice, uma posição dominada pelas mulheres na atual disputa. Ele não se mostra preocupado com a questão. “Não fazia sentido escolher uma mulher só por ser mulher. O Ricardo é uma escolha que mostra a amplitude da coligação, trazendo um outro partido para poder compor a chapa majoritária”.

A batalha eleitoral de Covas, que chegou ao posto máximo no município com a ida de João Doria para o Governo do Estado, não é um caminho de via livre. Na pesquisa Atlas Político divulgada na semana passada, Covas aparece com 16% das intenções de voto, numericamente à frente dos adversários Guilherme Boulos (PSOL) (12,4%), Celso Russomanno (Republicanos) (12,3%) e Márcio França (PSB) (11,5%). No entanto, não é possível falar em liderança, devido à margem de erro do levantamento, de três pontos percentuais para baixo ou para cima.

Durante a entrevista, as denúncias de corrupção dentro do PSDB ―contra o ex-presidenciável Aécio Neves e os ex-governadores Geraldo Alckmin e José Serra, denunciados pela Operação Lava Jato― foi um tema que pareceu deixar o candidato menos confortável. Ele se diz favorável às investigações, mas tenta descolar a campanha municipal de um tema que certamente será explorado pelos adversários. “Que se investigue. Que a Justiça verifique se essas denuncias tem ou não fundamento. Não serei eu a passar a mão na cabeça, só porque é do meu partido.” No entanto, Covas acrescenta que, em sua opinião, os temas municipais irão dominar a campanha, de modo que quem deverá ser colocado em julgamento é a sua gestão. “O candidato sou eu”, resume.

Defesa da gestão

Apesar do alto teor inflamável, digamos, da campanha, os temas municipais mais ligados à gestão do dia-a-dia da cidade também deverão estar presentes. Durante a entrevista, o prefeito defendeu a atuação da prefeitura em pontos de seu mandato que foram alvos de críticas, como a zeladoria da cidade ―varrição de calçadas, manutenção do asfalto e de espaços públicos― a distribuição de linhas de ônibus no mapa de transporte da cidade e as ações no controle da proliferação de mosquitos, que se multiplicaram nas calhas dos rios Tietê e Pinheiros nos últimos dias.

Um dos pontos em que o candidato à reeleição foi mais enfático foi sobre a volta às aulas. Covas defendeu critérios “da área de Saúde” para determinar o retorno na rede municipal de ensino. O Governo do Estado prevê a retomada no dia 7 de outubro, mas o prefeito disse que pretende aguardar antes de bater o martelo sobre o tema. “Vamos nos pronunciar nos próximos dias (...) essa decisão ainda não foi tomada, estamos avaliando os últimos resultados de inquéritos realizados entre adultos e crianças, e analisando novos estudos para decidir”, afirmou. De acordo com ele, o retorno às aulas não será pautado por “pressão de professores, pais ou donos de escolas”. “A Saúde é que vai dizer se é seguro”, disse. Ainda segundo Covas, a secretaria de Educação já teria liberado recursos para compra de material, como máscaras e termômetros, para quando ocorrer o retorno.

O tema saúde também veio à baila, quando Covas afirmou estar em pleno processo de recuperação em sua batalha contra o câncer detectado no seu trato digestivo ―desde outubro do ano passado, foram oito sessões de quimioterapia, além do uso da imunoterapia, em um paciente com apenas 40 anos de idade. Segundo ele, a experiência serviu para que desse uma nova importância para o porque de “eu, que tenho condições de pagar um plano de saúde, tenho um tipo de tratamento, enquanto que alguém que não tem essa condição não consegue um tratamento do mesmo tipo”. Essa teria sido a razão para o lançamento de programas municipais destinados, por exemplo, a reduzir as filas de espera por tratamentos oncológico e na busca por empréstimos para investir no segmento, como na construção dos hospitais de Parelheiros e da Brasilândia.

Com relação a intervenções na região central, que fica deserta após o horário comercial, Covas defendeu o uso de imóveis ociosos no local como forma de garantir moradia para a população de baixa renda ―uma opção, aliás, que costuma ser mais associada a candidatos de esquerda. “A gente deve enviar nos próximos dias o novo Projeto de Intervenção Urbana para a Câmara dos vereadores”, afirmou. A ideia é reformar imóveis deteriorados na região com uso de dinheiro público e privado para “trazer a população para morar no Centro”. “É preciso ocupar os espaços vazios que temos. Há a possibilidade de receber milhares de pessoas, tendo em vista a quantidade de habitações subutilizadas na região”, afirmou.

Para “descentralizar” a cidade e levar empregos para as regiões periféricas, que concentram a maior parte da população que precisa cruzar a cidade para trabalhar, o prefeito aposta na nova concessão de terminais de ônibus. Estes espaços devem ser melhor utilizados, segundo ele, para que se criem “novos centros espalhados com espaços comerciais”. “Temos que aproveitar os espaços públicos subutilizado para que eles se tornem espaços de geração de emprego e renda nas periferias da capital”, diz.



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