Quase 80% dos lares latino-americanos não resistem a 3 meses sem renda

Estudo do BBVA Research alerta para as consequências econômicas da pandemia entre as famílias de maior vulnerabilidade financeira

Moradores de Quito, no Equador, retiram cestas básicas entregues pelo Governo durante o confinamento decretado contra a pandemia, em 27 de maio.
Moradores de Quito, no Equador, retiram cestas básicas entregues pelo Governo durante o confinamento decretado contra a pandemia, em 27 de maio.Dolores Ochoa (AP)

Os estragos produzidos pela pandemia golpeiam com especial dureza os lares mais vulneráveis. A queda do emprego evidencia que a capacidade das famílias para fazer frente a seus gastos regulares quando perde sua rende depende diretamente do desenvolvimento econômico dos seus países. Enquanto nos Estados Unidos quase 50% dos lares conseguem se manter por até seis meses, o percentual cai para 5,5% no Equador e Paraguai, para 7% na Argentina, Peru e Colômbia e 14% no Brasil e Chile. Os dados são do relatório Vulnerabilidade financeira dos lares perante a covid-19: uma perspectiva global, desenvolvido pelo BBVA Research. “No caso de perder sua principal fonte de renda, 78% dos lares, em média, não cobririam seu custo de vida durante três meses”, adverte o relatório, que não inclui a Venezuela.

“Entre as certezas que já se têm está que os confinamentos decretados nos últimos meses levaram muita gente a perder seu emprego ou a ter que reduzir suas horas de trabalho. Isto implica o desaparecimento ou redução de sua renda, com o consequente impacto na economia e no bem-estar das famílias”, afirma o relatório, que analisa “qual é a capacidade dos lares para continuar mantendo seu nível de gasto corrente diante dessa perda de renda”. O resultado, segundo os pesquisadores, permitirá “abordar medidas que ajudem a paliar a deterioração no bem-estar ou a ampliação da lacuna de desigualdade”.

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O conceito que norteia o relatório é o de “vulnerabilidade financeira”, isto é “a capacidade de fazer frente ou não às turbulências econômicas dependendo unicamente de recursos próprios”. Para medi-la, estima-se por quanto tempo uma família que perdeu sua renda conseguiria cobrir seus gastos em alimentação, energia, água, educação e saúde sem precisar recorrer a um crédito ou medidas mais extremas, como mudar de casa.

O resultado da pesquisa destaca a enorme disparidade que a pandemia causou entre economias desenvolvidas e em vias de desenvolvimento. Países como os Estados Unidos, Canadá e os europeus têm um alto grau de resiliência financeira, ou seja, são lugares onde quase 40% das famílias são capazes de subsistir sem renda por mais de meio ano. Quando o período é reduzido a três meses, a proporção média aumenta para metade das famílias. Na Espanha, por exemplo, dois em cada três lares são capazes de passar três meses sem renda alguma.

A situação muda dramaticamente nos países emergentes, sobretudo na América Latina. “Os dados do relatório sugerem que existe uma relação direta entre vulnerabilidade financeira e desenvolvimento econômico do país. Nos países emergentes do estudo (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Rússia e África do Sul) pouco mais de 10% das unidades familiares suportam mais de seis meses”. “Os níveis de resiliência financeira frente às medidas de confinamento decorrentes da pandemia são, portanto, significativamente menores nestas economias”, adverte o relatório. Além disso, em geral, depois do desconfinamento gradual na região, uma parte importante das famílias não recuperou seu nível de renda anterior à pandemia.

Fatores microeconômicos

O nível macroeconômico de um lar não basta para medir sua vulnerabilidade financeira. O relatório do BBVA volta os olhos também para aspectos microeconômicos que atrapalham as chances de sobrevivência. Por exemplo, “as características que definem a pessoa que toma as decisões financeiras no lar, como o gênero, o nível educacional, a idade e a situação profissional”.

A pesquisa encontrou fatores que se repetem entre os responsáveis por sustentarem os lares mais vulneráveis, “como ser mulher, ser muito jovem ou de idade avançada, ter apenas educação primária ou estar em situação de desemprego ou fazer parte do coletivo de pessoas inativas”. “Tais relações, entretanto, são condicionadas por fatores próprios de cada sociedade”, advertem os pesquisadores. Em todos os países da América Latina ocorre que os lares chefiados apenas por mulheres superam a média de vulnerabilidade financeira, sobretudo na Argentina, Brasil e Peru. Só o Paraguai escapa à norma.

A análise se baseou em pesquisas feitas por diversos organismos sob as diretrizes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir a educação e as capacidades financeiras da população. Os países estudados foram África do Sul, Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Espanha, Finlândia, Hong Kong, Países Baixos, Paraguai, Peru, Reino Unido e Rússia.

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