Pandemia de coronabírus

Pandemia faz com que milhões de latino-americanos sejam incorporados ao sistema financeiro

No Brasil, Colômbia, Chile e Costa Rica, a obrigação de ter uma conta para receber os auxílios emergenciais levou milhões a se bancarizarem

Imagem de uma agência da Caixa no Rio de Janeiro.
Imagem de uma agência da Caixa no Rio de Janeiro.Antonio Lacerda / EFE

Mais informações

Em alguns países da América Latina, a pandemia do coronavírus fez o que campanhas e iniciativas durante anos não conseguiram: que milhões de pessoas abrissem sua primeira conta bancária. No Brasil, Colômbia, Chile e Costa Rica, as pessoas que querem receber um apoio econômico do Governo durante o confinamento precisam de uma conta para receber a transferência. Segundo diversos especialistas, essa maior inclusão financeira pode ser vantajosa na recuperação econômica.

O avanço mais importante até agora foi visto na Colômbia. De acordo com a Associação Bancária e de Entidades Financeiras da Colômbia (Asobancaria) nos meses da emergência sanitária, 1,5 milhão de pessoas se incorporou pela primeira vez ao sistema financeiro. Isso eleva a taxa de bancarização do país a 85,6%. No Brasil, com uma taxa de 70% de bancarização, aproximadamente dois milhões e meio de pessoas abriram sua primeira conta de banco para poder receber a ajuda do Governo, de acordo com dados do Fórum Econômico Mundial. O Chile também reportou um avanço. Em uma apresentação no começo de julho, o banco central reportou que nos meses de março a maio o número de contas correntes no país aumentou entre 30% e 40% em comparação com o ano anterior. Sua taxa de bancarização é de 74,3%. Na Costa Rica, um país com uma população de apenas cinco milhões de pessoas, 180.000 pessoas entraram no sistema bancário em um mês e meio, de acordo com José Manuel Salazar Xirinachs, ex-funcionário da Organização Mundial do Trabalho (OIT), que faz parte de um grupo de especialistas que aconselha o Governo do país centro-americano. “É impressionante”, diz Salazar Xirinachs. “A maioria é de informais e autônomos, por exemplo, empregadas domésticas, que na Costa Rica somam 125.000 basicamente, das quais uma grande maioria acabou sem trabalho”.

“O objetivo era não colocar obstáculos, tornar tudo muito simples e muito direto. Se a pessoa tinha um celular e um telefone, praticamente 100% das pessoas têm isso, não? Isso é uma maravilha”, diz o economista. A Costa Rica, como a Colômbia, se aliou a bancos comerciais para que a abertura de uma conta bancária não precisasse da presença física do cliente e pudesse ser feita pelo portal do Governo. “A pandemia criou toda essa migração à transformação digital e esse é um grande exemplo de uma boa transformação digital”.

Saúde econômica

“O acesso a um telefone, uma conta bancária e uma identificação digital são cada vez mais centrais à saúde econômica e, em alguns casos, uma questão de sobrevivência”, diz um relatório das Nações Unidas publicado em 26 de agosto. “Uma ou mais partes desse kit de sobrevivência digital, entretanto, ainda não estão disponíveis para quase metade da população adulta, desproporcionalmente mulheres, na maioria dos países em desenvolvimento”. Entre suas descobertas mais importantes, a ONU aponta que fazer os serviços bancários online é mais barato e que os principais beneficiários devem ser os estratos econômicos mais baixos, que dependem, em muitos casos, das remessas do estrangeiro, por exemplo.

O Banco Mundial afirma que 2,5 bilhões de pessoas no mundo não utilizam serviços financeiros formais. 75% dos que vivem na pobreza não têm conta bancária. Tanto a instituição como as Nações Unidas, entre outras organizações internacionais, afirmam que a inclusão é fundamental para reduzir a pobreza e impulsionar o desenvolvimento. A penetração da Internet, por outro lado, é tão importante quanto e na América Latina é mais alta do que a bancarização. O banco reporta que mais da metade dos adultos na região tem um telefone celular, uma porcentagem maior à média das economias emergentes.

Em El Salvador, a baixa bancarização da população levou em abril a uma situação arriscada. Ao anunciar que eram oferecidas transferências diretas aos mais necessitados, centenas de pessoas se aglomeraram nas sucursais bancárias para abrir uma conta e poder receber o apoio, expondo-se ao contágio. No Brasil, o processo de entrega da ajuda governamental precisou ser adaptado, uma vez que só quem tinha conta poderia sacar o benefício. Inicialmente, muitas pessoas lotaram as filas da Caixa para conseguir a ajuda emergencial. Embora não tenham ocorrido problemas tecnológicos significativos nos pedidos de ajuda, apenas algumas instabilidades no site, milhares de usuários tiveram problemas no cadastro por não estarem com o CPF regularizado. Em semanas, o sistema permitiu a criação de contas mais funcionais que precisavam de pouca documentação.

Mais economias

O desenvolvimento econômico de um país depende, em certa medida, de que as empresas médias e pequenas tenham acesso a empréstimos que lhes permitam crescer seus negócios. E, sem as economias dos habitantes guardadas no banco, estes têm menos capacidade de emprestar, diz Sebastián Nieto, chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos para a América Latina.

“Isso é uma boa notícia”, diz o especialista por telefone, de Paris. A crise deixou uma lição importante aos países, assim como uma infraestrutura digital que pode ser usada para outros programas de ajudas econômicas. “A grande pergunta agora é até que ponto podem se tornar, de uma forma ou de outra, permanentes?”.

“E isso faz com que se você pode ter essa ajuda do Estado, são valores, de qualquer modo, reduzido e dependendo como se liga à inclusão financeira, são depósitos que você terá, mas não são economias permanentes, que é o que eu gostaria ao desenvolvimento financeiro na América Latina”, afirmou Nieto.

Mais informações