Governo Bolsonaro

Por alinhamento com Trump, Bolsonaro ignorou aposta de Paulo Guedes para presidência do BID

Documentos mostram que Economia chegou a defender nome brasileiro para o banco em cartas a países caribenhos. Secretário de Estado Mike Pompeo visita o Brasil nesta sexta

Ernesto Araújo, durante conferência de imprensa com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em julho do ano passado.
Ernesto Araújo, durante conferência de imprensa com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em julho do ano passado.RICARDO MORAES / REUTERS

Para manter seu alinhamento automático ao Governo Donald Trump, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro ignorou a aposta feita pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para o comando do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a instituição multilateral de crédito mais influente do continente. Ao contrário do que o Governo Bolsonaro vem afirmando, o Brasil teve, sim, um candidato ao posto, o economista Rodrigo Xavier, indicado por Guedes. O nome de Xavier chegou a ser sugerido a países caribenhos em documentos oficiais enviados pela pasta da Economia, mostram papéis obtidos pelo partido oposicionista PSOL aos quais a reportagem teve acesso. Na reta final da campanha pelo BID, Bolsonaro acabou decidindo ouvir os conselhos do chanceler Ernesto Araújo e concordou com a indicação do norte-americano Maurício Claver-Carone, que ganharia o posto em 12 de setembro.

A eleição do candidato de Donald Trump para o órgão quebrou um pacto firmado desde a criação do BID, há 61 anos, de que os Estados Unidos não indicariam o presidente da entidade como uma maneira de prestigiar os parceiros latino-americanos. Agora, quando seria justamente a vez de o Brasil nomear o chefe da instituição, o Itamaraty resolveu seguir a Casa Branca, em mais uma demonstração da guinada histórica pró-EUA da diplomacia brasileira que, na opinião de especialistas em política externa, neste momento tem rendido frutos mais à campanha de reeleição de Trump do que aos interesses de Brasília.

A falta de sintonia entre Guedes e Araújo ficou clara em dois documentos oficiais que os ministérios da Economia e das Relações Exteriores enviaram à Câmara dos Deputados como resposta a requerimentos de informação formulados pela bancada do PSOL. As duas pastas foram questionadas sobre a razões de o Brasil ter apoiado o nome do americano Claver-Carone para a presidência do BID ao invés de insistir na candidatura de Xavier, que havia sido sugerido pelo ministro da Economia em maio.

Nas repostas enviadas ao Legislativo, os ministérios afirmam que o nome de Xavier não chegou a ser formalizado. Mas a Economia se contradisse e apresentou cópias de cartas que foram enviadas a ministros de cinco países caribenhos nas quais apresentam o nome do candidato de Guedes e pede o apoio a ele. Já o Itamaraty se baseou nas exceções previstas na lei de acesso à informação para classificar como reservadas as informações que constavam em dez comunicações feitas com representantes de governos estrangeiros. Quando esse tipo de sigilo é decretado sobre um documento público, o teor oficial dele só é possível ser descoberto após um período de cinco anos. Ao menos dois desses sigilos foram decretados após o questionamento oficial da bancada do PSOL, o que gerou desconfiança até entre membros de três representações diplomáticas ouvidos pela reportagem. O partido opositor a Bolsonaro fez uma representação no Ministério Público Federal contra Araújo por conta disso.

“Não é comum ter segredo em comunicações tão simples”, disse um dos diplomatas latino americanos ouvidos pelo EL PAÍS. Outro afirmou que, desde o início, os movimentos de Araújo pareciam ir em direção oposta ao de Guedes. “Enquanto representantes da Economia diziam para votarmos no Xavier, no Itamaraty o sinal era para esperarmos uma orientação americana”. Guedes só suspendeu a campanha por seu indicado no dia 15 de junho, depois de conversar por telefone com representantes do Governo americano. No dia 16, os Estados Unidos anunciaram a indicação de Claver-Carone, que acabou eleito com os votos de 30 dos 48 países que integram o BID. A Argentina de Alberto Fernández puxou a campanha pela abstenção.

Com sede em Washington, nos Estados Unidos, o BID tem como principal papel financiar de forma multilateral ações públicas e privadas que tenham como objetivo reduzir da pobreza e os problemas sociais na América Latina e no Caribe. Por isso, a importância de ter alguém da região no comando, e não um representante de outros sócios do banco, como EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha ou China. Só no ano passado, o banco aprovou 11,3 bilhões de dólares em 106 operações. Entre seus clientes, estão órgãos públicos e privados. Seu atual presidente, cujo mandato se encerra neste ano é o colombiano Luís Alberto Moreno. Ele está no cargo desde 2005.

O alinhamento automático com a Casa Branca

O desfecho do BID se une a outras questões onde, desde que Bolsonaro assumiu a presidência, o Palácio do Planalto tem se alinhado automaticamente às pautas internacionais do Governo Trump. O elo se intensificou no último mês, exatamente no momento em que Trump passou a aumentar seus eventos de campanha e a sua mobilização para tentar se reeleger. No período, o Brasil, além de atender aos interesses norte-americanos ao abrir mão de uma candidatura própria para a presidência do BID para apoiar o nome apoiado por Trump, contrariou os interesses de produtores brasileiros aceitando ampliar por mais três meses o prazo de importação de etanol americano com tarifas mais baratas e não se opôs ao anúncio de Washington de que cortaria 80% da importação do aço brasileiro. No comunicado em que citou esse último o Governo americano ainda agradeceu ao “diálogo produtivo” estabelecido com o chanceler Ernesto Araújo.

Antes, o Brasil já havia concordado em liberar da entrada de americanos em território brasileiro sem a necessidade de vistos ―ainda que não houvesse uma reciprocidade americana― e concordou em se retirar do pacto global de migrações. “Todos os movimentos feitos pelo Governo Trump têm de levar em conta a sua campanha à reeleição. Não é diferente em sua relação com o Brasil”, alerta a diretora de programas da ONG Conectas, Camila Asano. Nos três casos mais recentes, Bolsonaro foi orientado por Guedes a seguir caminho distinto do que tomou. Mas o ignorou solenemente.

Premiação simbólica

Nesta sexta-feira, como uma espécie de reconhecimento aos trabalhos de Araújo, o ministro se reunirá com o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em Boa Vista (RR). É a segunda visita de Pompeo ao Brasil. Ele esteve em Brasília na posse presidencial em janeiro do ano passado. No encontro de agora, o secretário fará uma espécie de ato político contra o regime do venezuelano de Nicolás Maduro. Ele ainda passará por cidades da Colômbia, Suriname e Guiana, países que também se opõe ao governante da Venezuela. O pano de fundo é o apoio da comunidade latina dos Estados Unidos no pleito de 3 de novembro. Em sua conta no Twitter, o secretário afirmou que a visita seria para celebrar a democracia e a “liberdade” no hemisfério ocidental.

Em Roraima, Pompeo visitará ao lado de Araújo os centros de atendimento humanitário de venezuelano da operação Acolhida. O curioso, neste caso, é que desde março o Brasil não recebe novos migrantes venezuelanos por causa da pandemia de covid-19. Há a expectativa de que os dois chanceleres ainda discutam o leilão da internet 5G e as concessões do etanol que o Brasil tem feito aos EUA. “Estamos diante de uma política externa contraproducente. Ela rompe tradições e não traz nenhum ganho, nem econômico, nem de soft power”, diz Camila Asano.

Para outros analistas, o Brasil corre o risco de se isolar, caso o republicano Trump perca a eleição para o democrata Joe Biden. “Se a política brasileira dos últimos dois anos nos ensinou alguma coisa é que nunca podemos subestimar o presidente da República", escreveu o colunista do EL PAÍS e professor de relações internacionais, Oliver Stuenkel. O professor diz que seria uma excelente notícia se Bolsonaro conseguisse adotar uma postura pragmática caso o democrata fosse eleito. "Porém, diante do histórico da política externa bolsonarista até agora, é preciso se preparar para uma crise na relação com os EUA ― e o crescente isolamento do Brasil no Ocidente.”