Por alinhamento com Trump, Bolsonaro ignorou aposta de Paulo Guedes para presidência do BID

Documentos mostram que Economia chegou a defender nome brasileiro para o banco em cartas a países caribenhos. Secretário de Estado Mike Pompeo visita o Brasil nesta sexta

Ernesto Araújo, durante conferência de imprensa com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em julho do ano passado.
Ernesto Araújo, durante conferência de imprensa com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em julho do ano passado.RICARDO MORAES (REUTERS)
Brasília -
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AME4147. WASHINGTON (ESTADOS UNIDOS), 11/09/2020.- Fotografía de archivo fechada el 15 de agosto de 2020 que muestra al alto consejero del Gobierno de Donald Trump para América Latina, Mauricio Claver-Carone, mientras habla durante una entrevista en el Césped Norte de la Casa Blanca, en Washington (EE.UU). El estadounidense Mauricio Claver-Carone es el único candidato en las elecciones que se celebrarán este fin de semana para escoger al próximo presidente del Banco Interamericano de Desarrollo (BID), informó este viernes la institución. EFE/JIM LO SCALZO
Candidato de Trump é eleito novo presidente do BID
Brazilian President Jair Bolsonaro speaks at the Brazil-USA Business Relations Seminar in Florida at the Hilton Miami Downtown, Seminar on March 9, 2020, in Miami, Florida. - Brazil's President Jair Bolsonaro on March 8, 2020 visited the US Southern Command, where he signed a defense agreement with the United States enabling joint development of military capabilities, officials said. It came a day after Donald Trump hosted Bolsonaro, a right-wing populist who identifies politically with Trump, at a dinner at Mar-a-Lago, the US president's Palm Beach, Florida resort. (Photo by Zak BENNETT / AFP)
Vitória de Biden nos EUA deixaria Brasil isolado no Ocidente
An activist from Black Coalition for Rights, which represents Brazilian Black movements, holds a cross in tribute to the coronavirus disease (COVID-19) victims, in front of the National Congress after delivering a formal request of impeachment against Brazil's President Jair Bolsonaro, in Brasilia, Brazil August 12, 2020. The writing reads, "Bolsonaro out". REUTERS/Adriano Machado
Ativistas ofuscam oposição em ações para conter os ataques antidemocráticos de Bolsonaro

Para manter seu alinhamento automático ao Governo Donald Trump, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro ignorou a aposta feita pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para o comando do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a instituição multilateral de crédito mais influente do continente. Ao contrário do que o Governo Bolsonaro vem afirmando, o Brasil teve, sim, um candidato ao posto, o economista Rodrigo Xavier, indicado por Guedes. O nome de Xavier chegou a ser sugerido a países caribenhos em documentos oficiais enviados pela pasta da Economia, mostram papéis obtidos pelo partido oposicionista PSOL aos quais a reportagem teve acesso. Na reta final da campanha pelo BID, Bolsonaro acabou decidindo ouvir os conselhos do chanceler Ernesto Araújo e concordou com a indicação do norte-americano Maurício Claver-Carone, que ganharia o posto em 12 de setembro.

A eleição do candidato de Donald Trump para o órgão quebrou um pacto firmado desde a criação do BID, há 61 anos, de que os Estados Unidos não indicariam o presidente da entidade como uma maneira de prestigiar os parceiros latino-americanos. Agora, quando seria justamente a vez de o Brasil nomear o chefe da instituição, o Itamaraty resolveu seguir a Casa Branca, em mais uma demonstração da guinada histórica pró-EUA da diplomacia brasileira que, na opinião de especialistas em política externa, neste momento tem rendido frutos mais à campanha de reeleição de Trump do que aos interesses de Brasília.

A falta de sintonia entre Guedes e Araújo ficou clara em dois documentos oficiais que os ministérios da Economia e das Relações Exteriores enviaram à Câmara dos Deputados como resposta a requerimentos de informação formulados pela bancada do PSOL. As duas pastas foram questionadas sobre a razões de o Brasil ter apoiado o nome do americano Claver-Carone para a presidência do BID ao invés de insistir na candidatura de Xavier, que havia sido sugerido pelo ministro da Economia em maio.

Nas repostas enviadas ao Legislativo, os ministérios afirmam que o nome de Xavier não chegou a ser formalizado. Mas a Economia se contradisse e apresentou cópias de cartas que foram enviadas a ministros de cinco países caribenhos nas quais apresentam o nome do candidato de Guedes e pede o apoio a ele. Já o Itamaraty se baseou nas exceções previstas na lei de acesso à informação para classificar como reservadas as informações que constavam em dez comunicações feitas com representantes de governos estrangeiros. Quando esse tipo de sigilo é decretado sobre um documento público, o teor oficial dele só é possível ser descoberto após um período de cinco anos. Ao menos dois desses sigilos foram decretados após o questionamento oficial da bancada do PSOL, o que gerou desconfiança até entre membros de três representações diplomáticas ouvidos pela reportagem. O partido opositor a Bolsonaro fez uma representação no Ministério Público Federal contra Araújo por conta disso.

Trecho de documento do Ministério da Economia, assinado pelo ministro Paulo Guedes, para o ministro das Finanças de Bahamas. Na carta, ele diz que o Brasil decidiu apresentar a candidatura de Rodrigo Xavier para o BID.
Trecho de documento do Ministério da Economia, assinado pelo ministro Paulo Guedes, para o ministro das Finanças de Bahamas. Na carta, ele diz que o Brasil decidiu apresentar a candidatura de Rodrigo Xavier para o BID.

“Não é comum ter segredo em comunicações tão simples”, disse um dos diplomatas latino americanos ouvidos pelo EL PAÍS. Outro afirmou que, desde o início, os movimentos de Araújo pareciam ir em direção oposta ao de Guedes. “Enquanto representantes da Economia diziam para votarmos no Xavier, no Itamaraty o sinal era para esperarmos uma orientação americana”. Guedes só suspendeu a campanha por seu indicado no dia 15 de junho, depois de conversar por telefone com representantes do Governo americano. No dia 16, os Estados Unidos anunciaram a indicação de Claver-Carone, que acabou eleito com os votos de 30 dos 48 países que integram o BID. A Argentina de Alberto Fernández puxou a campanha pela abstenção.

Com sede em Washington, nos Estados Unidos, o BID tem como principal papel financiar de forma multilateral ações públicas e privadas que tenham como objetivo reduzir da pobreza e os problemas sociais na América Latina e no Caribe. Por isso, a importância de ter alguém da região no comando, e não um representante de outros sócios do banco, como EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha ou China. Só no ano passado, o banco aprovou 11,3 bilhões de dólares em 106 operações. Entre seus clientes, estão órgãos públicos e privados. Seu atual presidente, cujo mandato se encerra neste ano é o colombiano Luís Alberto Moreno. Ele está no cargo desde 2005.

O alinhamento automático com a Casa Branca

O desfecho do BID se une a outras questões onde, desde que Bolsonaro assumiu a presidência, o Palácio do Planalto tem se alinhado automaticamente às pautas internacionais do Governo Trump. O elo se intensificou no último mês, exatamente no momento em que Trump passou a aumentar seus eventos de campanha e a sua mobilização para tentar se reeleger. No período, o Brasil, além de atender aos interesses norte-americanos ao abrir mão de uma candidatura própria para a presidência do BID para apoiar o nome apoiado por Trump, contrariou os interesses de produtores brasileiros aceitando ampliar por mais três meses o prazo de importação de etanol americano com tarifas mais baratas e não se opôs ao anúncio de Washington de que cortaria 80% da importação do aço brasileiro. No comunicado em que citou esse último o Governo americano ainda agradeceu ao “diálogo produtivo” estabelecido com o chanceler Ernesto Araújo.

Antes, o Brasil já havia concordado em liberar da entrada de americanos em território brasileiro sem a necessidade de vistos ―ainda que não houvesse uma reciprocidade americana― e concordou em se retirar do pacto global de migrações. “Todos os movimentos feitos pelo Governo Trump têm de levar em conta a sua campanha à reeleição. Não é diferente em sua relação com o Brasil”, alerta a diretora de programas da ONG Conectas, Camila Asano. Nos três casos mais recentes, Bolsonaro foi orientado por Guedes a seguir caminho distinto do que tomou. Mas o ignorou solenemente.

Premiação simbólica

Nesta sexta-feira, como uma espécie de reconhecimento aos trabalhos de Araújo, o ministro se reunirá com o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em Boa Vista (RR). É a segunda visita de Pompeo ao Brasil. Ele esteve em Brasília na posse presidencial em janeiro do ano passado. No encontro de agora, o secretário fará uma espécie de ato político contra o regime do venezuelano de Nicolás Maduro. Ele ainda passará por cidades da Colômbia, Suriname e Guiana, países que também se opõe ao governante da Venezuela. O pano de fundo é o apoio da comunidade latina dos Estados Unidos no pleito de 3 de novembro. Em sua conta no Twitter, o secretário afirmou que a visita seria para celebrar a democracia e a “liberdade” no hemisfério ocidental.

Em Roraima, Pompeo visitará ao lado de Araújo os centros de atendimento humanitário de venezuelano da operação Acolhida. O curioso, neste caso, é que desde março o Brasil não recebe novos migrantes venezuelanos por causa da pandemia de covid-19. Há a expectativa de que os dois chanceleres ainda discutam o leilão da internet 5G e as concessões do etanol que o Brasil tem feito aos EUA. “Estamos diante de uma política externa contraproducente. Ela rompe tradições e não traz nenhum ganho, nem econômico, nem de soft power”, diz Camila Asano.

Para outros analistas, o Brasil corre o risco de se isolar, caso o republicano Trump perca a eleição para o democrata Joe Biden. “Se a política brasileira dos últimos dois anos nos ensinou alguma coisa é que nunca podemos subestimar o presidente da República", escreveu o colunista do EL PAÍS e professor de relações internacionais, Oliver Stuenkel. O professor diz que seria uma excelente notícia se Bolsonaro conseguisse adotar uma postura pragmática caso o democrata fosse eleito. "Porém, diante do histórico da política externa bolsonarista até agora, é preciso se preparar para uma crise na relação com os EUA ― e o crescente isolamento do Brasil no Ocidente.”

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