Pandemia de coronavírus

“O negro está isolado há muito tempo. A pandemia só aprofundou isso”, diz vencedor de concurso

Fotógrafo Roger Silva, primeiro lugar na microbolsa EL PAÍS e Artisan, fala sobre o ensaio de autorretratos idealizado a partir da morte de uma empregada doméstica por covid-19 no Rio

Uma das fotos do ensaio "Banzo", de Roger Silva.
Uma das fotos do ensaio "Banzo", de Roger Silva.RogerSilva / Roger Silva

Roger Silva, 40 anos, morador da periferia de Maceió, em Alagoas, é professor de história, adesivador e fotógrafo. Com a série de fotografias de autorretrato Banzo, que se propõe a discutir as angústias da população negra periférica em tempos de isolamento social, Roger Silva foi o vencedor da microbolsa oferecida pelo EL PAÍS em parceria com a editora de livros de fotografia Artisan Raw Books Artisan, apoiada pelo Favela em Pauta. A convocatória era destinada a fotógrafos independentes com ensaios que retratassem a vida cotidiana da periferia durante a pandemia do novo coronavírus (veja aqui os trabalhos vencedores).

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Nascido em Barreiras, no interior do Pernambuco, Roger morou com os avós em uma cidade ao sul do Estado até os 15 anos, enquanto seus pais residiam em Maceió. Começou a trabalhar aos 10, ainda no interior pernambucano e, aos 15, foi para a capital alagoana. Quando seu pai morreu, em 2002, se mudou para Maragogi, no litoral de Alagoas, onde trabalhou por anos em uma locadora. Voltou para Maceió para estudar história na Universidade Federal de Alagoas, na qual se formou em 2019, e dar aulas em escolas particulares da cidade.

“O curso de história mudou minha vida na perspectiva de entender quem eu era, enquanto negro e ser social. Mas sofri bastante, porque trabalhava num supermercado pela manhã e tarde, e estudava à noite”, conta Roger. “A universidade não é pensada para o trabalhador e várias vezes pensei em desistir. A desigualdade é tão desonesta que nos tira o direito de ter o acesso à universidade pública”, conclui. Além de historiador, o pernambucano trabalha com adesivação para completar a renda mensal.

Mas, entre as ocupações, a que mais lhe encanta é a fotografia. “É algo que me realiza, me faz ter esperança. É a melhor parte da minha vida”, resume. A paixão pelas fotos veio antes do desejo de fazer história, já que ganhou sua primeira câmera dos pais na infância, mas foi durante a faculdade que Silva entendeu como a fotografia poderia ser uma profissão. “Percebi a fotografia como um arquivo histórico, de pessoas e arquiteturas, no qual poderia investir. Comprei uma câmera em 2014 e comecei a fotografar em Maceió”, conta. “Estava incomodado em não ver o negro, periférico, favelado na fotografia alagoana. A partir daí, comecei a fazer a fotografia periférica, pra falar de algo que me representa e faz parte de mim. Maceió não tem só belas praias e avenidas, tem também pessoas sofrendo que todos tentam esconder”, justifica. O fotógrafo deixa claro que os trabalhos autorais não garantem sua sobrevivência, mas a persistência vem de manter as redes sociais atualizadas para possíveis bicos.

Morador do Eustáquio, na periferia da capital alagoana, Roger Silva apresentou ao concurso o trabalho Banzo, uma série de autorretratos que representam as dificuldades da população negra que vive nas áreas mais carentes durante a pandemia do novo coronavírus. Para o trabalho, o fotógrafo utilizou máscaras produzidas por um amigo artista plástico que, segundo ele, expressariam melhor “angústias, medos e dores” do que o próprio rosto. Fez as fotos em sua casa, sozinho, durante algumas madrugadas. “São autorretratos feitos no Eustáquio, mas eles transpassam isso. São narrativas da periferia em geral, além dessa espacialidade”, comenta.

A ideia veio a partir da notícia da morte de uma empregada doméstica por covid-19, a primeira registrada no Rio de Janeiro, ainda no início da pandemia, que foi infectada pela patroa depois de uma viagem à Europa. “Minha mãe também é empregada e fiquei com esse medo. Por isso a ideia de fazer algo que falasse sobre a angústia da periferia.” O nome do trabalho, Banzo, significa “afetado por tristeza; que revela abatimento”. “É uma expressão usada pelos africanos escravizados no Brasil, que diziam estar banzos quando tinham tristeza ou saudades da sua terra”, explica o autor. “Estamos isolados na quarentena, mas isso também é uma questão histórica. Somos banzos desde muito tempo. A pandemia só aprofundou isso”.

O fotógrafo finaliza com uma reflexão sobre o que o novo coronavírus mudou na vida cotidiana da periferia: “Para não perder o pouco que temos, precisamos sair de casa, porque ninguém dá outra alternativa. Às vezes a gente tá com um sorriso no rosto, mas destruído por dentro. O Banzo é sobre isso.”

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