Saem os liberais, ficam o Centrão e os militares no Governo Bolsonaro

Um dia após recado de ministro da Economia, presidente faz aceno a Paulo Guedes, mas, na prática, sua prioridade é garantir o apoio do Congresso

O presidente Jair Bolsonaro entre Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia.
O presidente Jair Bolsonaro entre Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia.CAROLINA ANTUNES / AFP

Há cada vez menos liberais na Esplanada dos Ministérios de Jair Bolsonaro. Aos poucos, eles estão abandonando o Governo num processo que ganhou velocidade. E, embora finja para as câmeras que se preocupa, estancar a debandada não é a prioridade do presidente. Bolsonaro se ancora cada vez mais em dois grupos, o dos militares, integrantes do bolsonarismo-raiz, e o da velha política, representado pelo fisiológico Centrão, neoaliados que se espraiam cada vez mais pelos cargos comissionados da União. A saída de dois secretários-chave do Ministério da Economia nesta semana não é um processo isolado. Vem na esteira da perda de outros quadros “técnicos” ou com estatura política própria em outras áreas. Foi antecedida, por exemplo, pelas saídas dos ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e pelo da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, até então exibido como símbolo da Operação Lava Jato que o ajudou a se eleger.

No grupo dos “notáveis”, sobrou apenas um, Paulo Guedes, tido como superministro da Economia. Mas mesmo czar econômico tem ficado cada vez mais enfraquecido. Já perdeu oito importantes auxiliares, cinco deles porque entenderam que as ações governamentais ocorriam em ritmo mais lento do que almejavam —nesse grupo estão os recém demissionários Paulo Uebel (Governo Digital) e Salim Mattar (Desestatização). Também o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, e o diretor de programas da Fazenda, Caio Megale. Outros três deixaram secretarias especiais ou porque foram demitidos ao sugerir novos impostos, caso do ex-secretário da Receita Marcos Cintra, ou porque alçaram voos mais altos como o atual ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, ou do diretor do Banco do BRICS.

Mas não se trata apenas de problemas que derivam da falta de efetivo apoio de Bolsonaro ou do Congresso à agenda liberal de Guedes. Internamente no ministério há quem se queixe de falta de coordenação. A máquina gerida pelo ministro é gigante. É a junção de quatro pastas anteriores —Fazenda, Planejamento, Trabalho e Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior. “Às vezes parece que não falamos a mesma língua”, reclamou um aliado do ministro. Guedes insiste publicamente que as privatizações e as reformas planejadas por eles não andaram por causa da falta de timing político. “Se o presidente da Câmara quiser pautar algo, é pautado. Se o presidente da República quiser mandar alguma reforma, ela é mandada. Se ele não quiser, não é mandada. Quem manda não é o ministro, não são os secretários”, afirmou o ministro na terça-feira.

A resposta veio nesta quarta. Para tentar demonstrar renovar, no mercado financeiro, a fé de que ainda segue Guedes, Bolsonaro fez um pronunciamento. Ao lado dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, o mandatário defendeu o teto de gastos e a reforma administrativa, que propõe mexer no salário dos funcionários públicos e que ele próprio mandou congelar. Apesar das de renovar os votos reformistas e de austeridade, tramita no Congresso uma série de propostas que pretendem furar o teto como alternativa a incentivar a economia em reação à pandemia do novo coronavírus —pela atual lei, de 2016, o Governo não pode gastar mais do que gastou no ano anterior corrigido pela inflação. Quem apoia driblar a medida são os militares, que de liberais não têm quase nada e, de resto, se alinham com os desejos do presidente de seguir engordando os auxílios sociais advindos da crise para pavimentar um caminho mais suave rumo à reeleição.

Nos bastidores, contudo, está mais do que claro que a prioridade do Planalto não passa por manter a palavra a Guedes. O mais importante é costurar um acordo mais estável com o Centrão, que reúne cerca de 200 dos 513 deputados federais, e assim consolidar uma base no Congresso. O objetivo do presidente é o de reduzir drasticamente as possibilidades de ser apeado do cargo por meio de um impeachment —56 pedidos já foram protocolados por inúmeras razões, desde gestão ineficiente da crise sanitária até por apoiar genocídio de comunidades indígenas.

A aproximação com o Centrão começou há quase cinco meses, mas, ainda assim, Bolsonaro ainda sofre instabilidade. Nesta quarta-feira, por exemplo, para conseguir manter dois vetos presidenciais, o Executivo teve de abrir mão de outros quatro vetos e permitir a sua derrubada. Por isso, é preciso aprofundar o casamento com o Centrão, mesmo ao custo de se afastar ainda mais de sua base ideológica. Parte dessa guinada ao pragmatismo é a escolha de Ricardo Barros (Progressistas-PR) para a liderança do Governo na Câmara, em substituição ao inexperiente Major Vitor Hugo (PSL-GO). Barros foi ministro da Saúde do Governo Michel Temer (MDB) e é um dos expoentes do Centrão.

O presidente fez ainda mais um gesto à velha política. Escalou o ex-presidente Michel Temer, seu antecessor e presidente de honra dos emedebistas, como o líder da missão de ajuda humanitária brasileira ao Líbano. Na base bolsonarista Temer é visto como um dos antagonistas do presidente, mas o que mais importa é que ele ainda tem certa influência em Brasília. Para seguir nos anglicismos de Paulo Guedes, Bolsonaro parece estar mais preocupado com o feeling da classe política do que com o timing das reformas.