“Mãe, amor e saudade brotam em cada um que teve a sorte de conviver com a senhora”

Scheila Vargas escreve uma carta para a mãe, Clarinda Maria da Conceição, de 74 anos, que era conhecida pelo sorriso largo que presenteava aos familiares e vizinhos do 'beco de Clarinda', em Niterói, e que morreu em decorrência da covid-19

Clarinda Maria da Conceição, uma das vítimas da covid-19 no Brasil.
Clarinda Maria da Conceição, uma das vítimas da covid-19 no Brasil.Arquivo Pessoal
Scheila Vargas
São Gonçalo (RJ) - 07 ago 2020 - 20:37 UTC

Clarinda Maria da Conceição, de 74 anos, era conhecida pela paixão pelo samba, o amor à família, e o sorriso largo que presentava a todos que cruzavam seu caminho. O carisma era tanto, que a rua onde morava, em Niterói, é conhecida como o “Beco de Clarinda”. Era ali que ela xingava ou cumprimentava quem gritava seu nome na rua, de brincadeira, esperando alguma resposta bem-humorada ou um “vai com Deus, meu filho”. Clarinda pariu cinco filhos, mas deixou órfãos diversos amigos. Mulher negra, semianalfabeta, casou-se aos 18 e separou-se aos 27 —um escândalo na década de 1970—. Apesar do racismo, machismo outras dificuldades, educou sozinha os filhos e mais três netas. Quando pegou covid-19, que agravou outros problemas que já tinha, como diabetes, ela não deixou de sorrir e cantar: “O show tem que continuar”, disse no leito do hospital. E é assim que sua filha, Scheila Vargas, lembra da mãe na carta a seguir, enviada à repórter Joana Oliveira.

“Oi, Mãe,

Que saudade! A senhora não imagina como faz falta! Não só para mim, meus irmãos, netos e bisnetos, mas para todo mundo q conviveu com a senhora. Seu sorriso e falatório já não dão vida ao “Beco de Clarinda”, seus vizinhos e amigos já não ouvem mais seus xingamentos de brincadeira que alegravam todos que passavam na sua porta e gritavam: “Clarinda!” só para te perturbar e te ouvir xingar ou falar: “vai com Deus, meu filho!”.

Mãe, a senhora é tão presente na nossa vida, que todo dia falamos da senhora. Saiba que só temos lembranças boas e engraçadas, porque preferimos esquecer os dissabores que a vida lhe causou. Afinal, não foi nada fácil ser mulher divorciada na década de 1970. Pior ainda foi conseguir emprego sendo negra, semianalfabeta e mãe de 5 filhos, mas a senhora mostrou o quanto era valorosa e conseguiu nos criar. Sambou na cara de cada adversidade e seguiu linda e sorridente com seus filhos sob suas asas.

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Mãe, costumo dizer que a covid foi só uma desculpa que Deus usou para te levar ao encontro dos seus filhos, Débora e Cesar, porque uma Mãe que viveu a maternidade lindamente como a senhora, morre um pouco quando perde um filho... A senhora perdeu dois. E ainda retirou forças do útero pra criar as três filhas que Débora lhe deixou. Olha parte do que Thayssa escreveu para a senhora:

“Gratidão e amor! As duas palavras que me transmite a lembrança da minha Vó...Gratidão por ter exercido com maestria a função de vó/mãe por 13 anos, oito meses e 28 dias...E amor por tudo, literalmente tudo que vinha dela transbordava amor. Chegou a hora da partida, e agora tem a palavra dor pra definir o que estou sentindo... Que dor é essa que consome tudo? Na verdade, só não consome o meu amor. Eu vou te amar para sempre, Vó, obrigada por tudo”.

E é, assim Mãe. São amor e saudade que brotam em em cada um que teve a sorte de conviver com a senhora. Eu sei que um dia nos encontraremos, porque amor não morre. Seguiremos em frente com a dor da saudade, mas seguiremos felizes, porque temos sua marca registrada, somos fortes e felizes, somos a descendência de Clarinda! Que benção poder falar isso. E como a senhora cantou no leito do hospital: “O SHOW TEM QUE CONTINUAR!!!!”

Até um dia. Te amo, te amo, te amo demais,

Scheila.”

A história de Clarinda Maria da Conceição foi contada pelo projeto Inumeráveis, um memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil.

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