Um em cada dez em São Paulo já foi infectado pelo coronavírus. Mais pobres têm taxa de contaminação três vezes maior

Dado é de teste feito em amostra da população do município, que aponta que 1,2 milhão de pessoas já tiveram contato com a doença, número sete vezes maior que o contabilizado até agora

Passageiros na estação da Luz, no centro de São Paulo.
Passageiros na estação da Luz, no centro de São Paulo.Sebastiao Moreira (EFE)

Um em cada dez moradores da cidade de São Paulo já foi infectado pelo novo coronavírus. Nova testagem feita pela Prefeitura em uma amostra da população, o chamado inquérito sorológico, permite concluir que 1,2 milhão de pessoas tiveram contato com o vírus na cidade, o que aumenta em sete vezes o número de casos oficiais confirmados até esta quinta-feira no município, de 178.118. O levantamento mostrou também que a taxa de contaminação é três vezes maior na classe E do que na classe A, algo que já era bem perceptível por meio dos mapas da cidade, que mostram a incidência maior de casos e óbitos na periferia. Menor renda e escolaridade, e maior número de moradores no domicílio foram apontados como fatores de risco para a infecção.

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Este é a segunda investigação do tipo realizada pela Prefeitura de São Paulo com o intuito de medir a real taxa de contaminação pela covid-19 na cidade. No primeiro levantamento, apresentado em 23 de junho, estimava-se que 9,5% da população, ou 1,1 milhão de pessoas já haviam sido infectadas. Agora, esse percentual, chamado de soroprevalência, passou para 9,8%, o que, de acordo com o secretário da Saúde do município, Edson Aparecido, mostra estabilidade. No entanto, comparada com outros países que registraram altos número de casos do coronavírus, a taxa é bastante alta. Na França e Espanha, por exemplo, a soroprevalência chegou a 5%.

Para realizar o levantamento, a Prefeitura pegou como base mais de 5,3 milhões de domicílios, em 96 distritos de todas as regiões da cidade, e realizou 2.864 coletas. A pesquisa, por amostragem, concluiu que a zona sul concentra a maior taxa de soroprevalência, com 11%. O estudo mostrou que os casos se concentram em 14 regiões da cidade, a maior parte delas em áreas periféricas: Brasilândia, Sapopemba —ambas na liderança dos registros de óbito também— Cachoeirinha, Jaçanã, Liberdade, Santa Cecília, Cidade Ademar, Jardim São Luiz, Campo Limpo, Capão Redondo, Parque São Lucas, Itaim Paulista, Itaquera e Lajeado.

Nessas regiões, a estratégia da Prefeitura agora será orientar os agentes de saúde a realizarem um trabalho de monitoramento dos doentes. “Nesses 14 distritos com maior incidência nós vamos fazer um trabalho de campo ainda mais presente”, afirmou o prefeito Bruno Covas (PSDB). Para isso, será feito um acompanhamento dos familiares mais próximos ao infectado. “Vamos na casa das pessoas e testar em média cinco pessoas próximas ao contaminado e dar um atestado para que elas fiquem em casa até sair o resultado do teste”, explicou o secretário da Saúde, Edson Aparecido.

Atualmente, o município está monitorando 288.903 pessoas com síndrome respiratória suspeitas de covid-19. A Prefeitura informou que já realizou 580.000 testes até o momento e que são feitos, diariamente, 5.000 novos exames do tipo PCR (que detectam a presença do vírus quando ele ainda está no corpo) por dia na rede municipal de saúde. Com a nova estratégia de testes e monitoramentos, o município pretende chegar a 400.000 testagens mensais.

A nova estratégia, anunciada mais de quatro meses após o primeiro caso de coronavírus registrado na cidade, vem acompanhada dos sucessivos passos que a capital paulista tem dado rumo à reabertura da economia. Nesta quinta-feira, Covas anunciou também que 70% dos parques voltarão a funcionar na próxima segunda-feira, com horário e público reduzidos. O prefeito deve anunciar também, nos próximos dias, o protocolo de reabertura das academias de ginástica. Essas retomadas ocorrem na esteira dos bares e restaurantes, que tiveram autorização para voltar a abrir ao público a partir desta semana. Comércio em geral, escritórios e imobiliárias foram os primeiros a reabrirem.

Outros sete inquéritos como esses ainda estão previstos para serem feitos em São Paulo. Eles são parecidos com o realizado pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) e financiado pelo Ministério da Saúde. Em três etapas, a Ufpel testou, em âmbito nacional, a real quantidade de infectados pelo coronavírus e apontou que em duas semanas, o número de pessoas que tinham ou já tiveram contato com a doença aumentou em 53%, revelando a alta velocidade com que a covid-19 se espalha pelo país. Outra conclusão foi de que o número real de infectados é seis vezes maior do que a estatística oficial. O inquérito teve três fases, com dados coletados em 133 municípios em todos os Estados.


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