_
_
_
_
LOURDES CASANOVA | DIRETORA DO INSTITUTO DE MERCADOS EMERGENTES

“América Latina errou ao renunciar à política industrial”

Professora da Universidade Cornell (EUA) pede a volta dos bancos de desenvolvimento: “É preciso algo mais do que apenas o mercado e a região não pode ir na direção contrária”

Ignacio Fariza
Lourdes Casanova durante o Fórum EUA, América Latina e Espanha, organizado pelo EL PAÍS.
Lourdes Casanova durante o Fórum EUA, América Latina e Espanha, organizado pelo EL PAÍS.EL PAÍS
Mais informações
Comércio latino-americano cai 10% em meio à desaceleração econômica global
Desaceleração econômica global amplia fosso entre países ricos e pobres
Impulsionada pelo Brasil, extrema pobreza na América Latina tem pior índice em dez anos

A receita para o crescimento nas últimas décadas deu uma guinada drástica: da ideia de que a melhor política industrial é a não política industrial, que tantos adeptos conquistou nas últimas décadas, se passou, em poucos anos, à revalorização da figura do Estado como um leme que define o rumo a longo prazo. “Entramos em outra fase, confirma Lourdes Casanova (Fraga, 1958), diretora do Instituto de Mercados Emergentes e professora da Escola de Administração Samuel Curtis Johnson, ambas ligadas à Universidade Cornell. E a América Latina –uma das regiões que segue mais de perto da academia– não pode ignorar essa nova realidade: “É preciso levá-la em conta. Existe uma volta aos bancos de desenvolvimento em todo o mundo, muitos países da região perceberam que é preciso algo mais do que apenas o mercado e a região não pode ir na direção contrária. Nos Estados Unidos, por exemplo, cresceram as vozes que pedem que o Estado tenha um papel importante na implementação da rede 5G, algo que teria sido impensável alguns anos atrás”, aponta em uma conversa com o EL PAÍS em um hotel no centro de Nova York , a um passo do Central Park.

A revalorização da função dirigente do Estado mostrou a realidade oposta, especialmente na América Latina: “Talvez tenham ido longe demais na desindustrialização de suas economias em busca de benefícios a curto prazo. Erraram claramente em renunciar a uma política industrial”. Num mundo em mudança, enfatiza Casanova, a necessidade de planos de longo prazo é mais importante e do que nunca. “E isso é, infelizmente, exatamente o oposto do que vemos em muitos países latino-americanos, onde solavancos e mudanças de direção são muito frequentes e pouco se pensa a médio e longo prazo. O consenso em relação a políticas de futuro é o que dá força a uma nação: a maioria dos países de sucesso são aqueles que o alcançaram”.

A necessidade de uma visão de longo prazo na região

A ausência de valor agregado sobre as exportações latino-americanas é, aponta, um bom exemplo do que se refere quando fala sobre a ausência de planejamento de longo prazo. “Pensemos na soja: a Argentina e o Brasil se tornaram dois dos maiores produtores mundiais de soja, em boa medida para abastecer o mercado chinês. Mas até agora não foram capazes de agregar valor ao produto.” Pode-se falar de maldição das matérias-primas? “Longe disso; basta ver os casos do Canadá, Estados Unidos, Austrália ou Nova Zelândia. São uma bênção, mas só se você for capaz de agregar valor a elas. Não faz sentido, por exemplo, que um dos maiores itens de importação do México seja a gasolina: não é normal exportar petróleo e importar combustível”.

A outra grande lição do transcurso da economia global nos últimos anos é que a luta para ver quem produz mais barato “terminou”. É uma batalha, afirma a professora de Cornell, que a Ásia ganhou: primeiro a China –“que agora passou para outra fase, de investimento, à qual devemos prestar muita atenção, porque participa cada vez mais de compras de empresas no exterior”– e, mais recentemente, o Vietnã e o Camboja. “É algo que a América Latina precisa aprender, e principalmente o México, um país que hoje tem um custo de mão-de-obra inclusive mais baixo do que a China, quando, a longo prazo, o que serve é a escala, a cadeia de valor e o tamanho do mercado interno.”

Integração comercial, fundamental para o crescimento

Em seu leque de recomendações, Casanova, hoje referência em uma universidade que compete nas grandes ligas das universidades norte-americanas depois de anos de ensino na prestigiosa escola de negócios francesa Insead, não se limita aos Governos e chama também à reflexão os grandes capitais latino-americanos. “Ter uma das sociedades mais desiguais do mundo prejudica muito o crescimento: precisam recuperar o espírito de seus antecessores, que era contribuir para o desenvolvimento de seus países.” Também devem ser conscientes, acrescenta, de que “para que suas empresas prosperem é necessário aumentar o consumo. E que pobreza e a desigualdade não são apenas problemas éticos gravíssimos, mas um obstáculo para o crescimento econômico”.

Estamos caminhando para uma maior integração comercial na América Latina? A cada ano, de acordo com um relatório recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a região enfrenta uma fatura superior a 11 bilhões de dólares (cerca de 44 bilhões de reais) pelo fato de que, em vez de ter um único acordo comercial, conta com dois grandes blocos (a Aliança do Pacífico e o Mercosul) e aproximadamente trinta acordos bilaterais. Não será fácil, mas o caminho a seguir é, “inevitavelmente”, se integrar mais para poder competir como bloco. “Oxalá isso aconteça em breve. Mas, enquanto isso, é preciso acabar com a fragmentação na medida do possível, pois impede a coordenação dos esforços de desenvolvimento de tecnologia e de inovação, que deveriam ser regionais. Cada país, simplesmente, não pode fazer a guerra por sua conta.”

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_