Eleições na Argentina

Herança econômica ‘maldita’ de Macri perturba a transição argentina

Presidente eleito Alberto Fernández qualifica de “mentira” um relatório oficial que considera que o país está “pronto para crescer”

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, depois da reunião com seu colega mexicano, Andrés Manuel López Obrador, na Cidade do México.
O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, depois da reunião com seu colega mexicano, Andrés Manuel López Obrador, na Cidade do México.Pedro Mera (Getty Images)

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Um pequeno relatório intitulado Oito Pontos sobre a Economia perturbou a transição de Governo na Argentina. O texto de sete páginas, que não tem assinatura ou papel timbrado, mas foi distribuído pelas equipes de comunicação da presidência, afirma que a situação econômica que Mauricio Macri legará ao seu sucessor, o peronista Alberto Fernández, deixará o país sul-americano “pronto para crescer" em 2019. Do México, onde está em viagem, Fernández pediu ao macrismo que “pare com a mentira”.

A “herança recebida” do kirchnerismo foi a muleta de Macri no início de seu mandato em 2015. Repetida como um mantra para justificar o ajuste da economia, perdeu força com o avanço da gestão e o aprofundamento da crise. Fernández ainda não falou em “herança recebida”, mas alertou que o 10 de dezembro não será “um dia mágico” que resolverá todos os problemas. O próximo Governo receberá um Banco Central com reservas internacionais próximas de zero, inflação acima de 55%, dívida externa próxima de 100% do PIB, mais pobreza e desemprego do que há quatro anos e restrições à compra e venda de dólares semelhantes ao cepo cambiario que Cristina Kirchner impôs no fim de seu mandato.

O relatório divulgado pela Casa Rosada, elaborado pela chefia de Gabinete liderado por Marcos Peña, procura o lado positivo dos índices mais duros. “Sobre a herança econômica que deixamos”, começa o texto, decidido a ir diretamente à questão. “No final de 2019, o país está pronto para crescer. Sem mágica, sem mentira, sem ficção. Graças ao esforço dos argentinos durante todos esses anos, revertemos a herança de 2015 (...) O ponto de partida para 2020 é muito mais saudável”, continua.

O Governo argentino enumera as razões de seu otimismo: o déficit fiscal caiu pela metade, as estatísticas oficiais foram normalizadas, o custo da energia se ajustou aos padrões internacionais, a infraestrutura foi melhorada e as exportações cresceram. Em seu último relatório sobre a Argentina, o Fundo Monetário Internacional estimou que a economia do país sul-americano cairá 1,7% no próximo ano, que se somará aos 3% esperados para este ano.

Sobre os problemas mais evidentes, o Governo buscou argumentos ao menos criativos. Assume que a dívida externa cresceu 75 bilhões de dólares (cerca de 300 bilhões de reais) em três anos, mas garante que não havia alternativa devido ao déficit fiscal e às contas não pagas deixadas pelo kirchnerismo. E se a inflação não caiu foi porque “infelizmente, não pode ser eliminada de um dia para o outro”. “Mas nesses quatro anos demos os passos necessários para começar a ver uma redução sustentada e sustentável da inflação: corrigimos as tarifas e a taxa de câmbio; e equilibramos as contas públicas”, diz o relatório.

Admite, no entanto, que as coisas se complicaram a partir de abril do ano passado, com a primeira grande desvalorização do peso, mas a atribuiu ao medo gerado nos investidores pelo retorno do peronismo. “No início de nossa gestão conseguimos levantar os controles cambiais porque as pessoas olham para o futuro para decidir hoje. Agora tivemos de recolocá-los, contra a nossa vontade, porque essas mesmas pessoas têm medo do que pode acontecer no futuro.”

Fernández respondeu ao relatório no México, em declarações feitas a um canal de notícias argentino. “Embora ainda restem 10 minutos de Governo, peço-lhes que parem com a mentira, porque dois anos atrás ninguém pensava que a Argentina teria a crise que tem e é produto da grande inoperância do Governo”, disse o presidente eleito, visivelmente incomodado. Acusou Macri de demorar a adotar o cepo cambiario por questões eleitorais e, assim, provocar a saída de 22 bilhões de dólares do Banco Central desde sua derrota nas primárias em 11 de agosto. Sobre o problema da dívida externa, disse que “há quatro anos, não existia”. A “herança recebida” foi a muleta de Macri. Tudo indica que também será a de Fernández.