Quiprocó do PSL: milhões, trapaças e tuítes fumegantes

Comando da legenda suspende cinco deputados e afasta filhos do presidente de diretórios do Rio e de São Paulo. Disputa da sigla que revolucionou direita chegará à Justiça

O presidente Bolsonaro em cerimônia do dia do aviador, na base aérea de Brasília.
O presidente Bolsonaro em cerimônia do dia do aviador, na base aérea de Brasília.ADRIANO MACHADO (REUTERS)

Quando, há dez dias, Jair Bolsonaro pediu para um militante do PSL esquecer o “queimado” presidente da legenda, Luciano Bivar, ele acendeu o fósforo em um caminho de pólvora que aparentemente só tem um destino, um barril prestes a explodir. De lá para cá, já houve vazamentos de gravações clandestinas envolvendo reuniões parlamentares e chamadas telefônicas de Bolsonaro, xingamentos de toda sorte (um deles chamou o presidente de "vagabundo", outro falou que uma parlamentar é "falsa"), tentativas e deposições de líderes do partido e do Governo, além de muito bate-boca pela imprensa e pelas redes sociais. Por fim, as movimentações dos últimos dias demonstraram que o partido está longe de um consenso e ressaltaram que há duas alas bem identificadas no momento, os bolsonaristas e os pró-Bivar.

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O primeiro grupo sofreu seguidas derrotas: viu cinco deputados serem suspensos e se deparou com a perda do comando de dois dos maiores diretórios regionais, o de São Paulo e o do Rio de Janeiro, que tinham como presidentes o deputado Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, dois herdeiros presidenciais.

O segundo grupo, por sua vez, alterou a composição da Executiva Nacional e, com vistas à convenção nacional que será realizada no fim de novembro, aumentou os poderes de Bivar, fundador e dirigente máximo da sigla há 25 anos. A ideia é manter o decano no poder. Para isso, aumentaram de 101 para 153 os representantes da Executiva, são eles quem elegem o comando partidário. E a maioria dos novos 52 membros são ligados a Bivar. O dirigente é investigado pelo esquema de candidaturas fictícias de mulheres em Pernambuco e foi alvo de um mandado de busca e apreensão cumprido pela Polícia Federal na última segunda-feira.

O pano de fundo da guerra interna peesselista são 737 milhões de reais pelos próximos quatro anos de fundos partidário e eleitoral, comandos de diretórios municipais e estaduais com vistas às eleições de 2020 e cargos de representação no Congresso Nacional. Nenhum dos lados admite isso oficialmente, mas nas reuniões internas é parte do que causa discórdia. Na prática, todos se dizem apoiadores do presidente e que querem uma conciliação. Os pró-Bivar afirmam que esperam uma sinalização de paz, mas avisam que quem quiser sair do partido terá o seu mandato solicitado junto à Justiça eleitoral.

“Não tem acordo. O partido que possibilitou eles se elegerem. Se agora querem cuspir no prato do partido, que pulem do 17º andar”, afirmou o líder da legenda na Câmara, Delegado Waldir, em referência ao número da legenda nas urnas, 17. Acusou ainda Bolsonaro de tentar comprar apoio com cargos e controle partidário para ficar com o a liderança da sigla. Ao longo da semana, Waldir disse em reuniões internas que iria “implodir” Bolsonaro e o chamou de “vagabundo”.

Já os bolsonaristas pedem uma “depuração” no PSL, com a abertura das contas e a substituição de Bivar do comando da legenda. “A ala leal ao Presidente Bolsonaro continuará lutando por transparência e democracia no partido”, disse a bolsonarista Carla Zambelli em seu Twitter.

Outro efeito prático desse racha foi a destituição da deputada Joice Hasselmann (SP) da liderança do Governo no Congresso. Joice assinou uma lista em apoio a Waldir e, depois de destituída, criticou Eduardo Bolsonaro e disse que tudo o que ele consegue é por causa do apoio dado por seu pai. “Eu assinei a lista do Waldir porque eu dei a minha palavra. Eu não vou sacrificar a minha palavra e a minha honra por conta de dois meses na liderança, botando um menino na liderança que não consegue nada sozinho”, afirmou após participar de uma reunião na sede do PSL, em Brasília. A parlamentar diz que agora está livre para se dedicar ao seu mandato e à pré-candidatura para a Prefeitura de São Paulo.

Em resposta, Eduardo publicou uma foto em sua conta no Twitter na qual aparece uma imagem de Joice em uma nota de 3 reais. O intuito era mostrar que a deputada era falsa, já que essa cédula não existe.

Tamanho do partido

O PSL tem a segunda maior bancada da Câmara, com 53 parlamentares, um a menos que o PT. Só passou a ter alguma relevância no Legislativo após a eleição do ano passado, quando se aproveitou da onda Bolsonaro e elegeu representantes em todas as regiões do país. Antes, tinha apenas um deputado. Foi uma ascensão meteórica, uma revolução partidária na redemocratização com a criação de um novo partido à direita, que agora começa a ruir.

Nesta semana, estimulados pelo presidente da República, os bolsonaristas do PSL tentaram emplacar o deputado Eduardo Bolsonaro (SP) – o filho 03 – como líder da legenda em substituição a Delegado Waldir (GO). Em duas relações apresentaras na Câmara não conseguiram as assinaturas mínimas necessárias para destituir o deputado goiano, que produziu uma nova lista, com mais apoios que o de seus “inimigos íntimos”, e se manteve no cargo.

Na sexta-feira, quando tentaram articular uma terceira lista para retirar Waldir, nova derrota. Antes que eles protocolassem o documento na Câmara, a Executiva nacional do partido decidiu suspender cinco deputados federais das atividades partidárias. Ou seja, nada dos que eles apresentassem em nome da legenda seria válido. Não poderiam representar o partido em comissões, reuniões temáticas, participar de eleições internas ou assinar listas para troca de líderes.

Os suspensos, todos bolsonaristas, foram: Carlos Jordy (RJ), Carla Zambelli (SP), Bibo Nunes (RS), Alê Silva (MG) e Filipe Barros (PR). “Isso é uma perseguição. Eles não estão punindo os 20 parlamentares, apenas os que eles consideram que são os pivôs do que eles consideram uma afronta ao partido”, queixou-se Jordy.

Os próximos capítulos e Congresso

A briga entre o único partido fiel ao Governo nas votações no Congresso e o próprio presidente está distante de terminar. Na próxima semana, deve chegar à Justiça. Os parlamentares suspensos devem recorrer ao Judiciário para evitarem suas punições. Enquanto que o presidente da República e o presidente da legenda se cercam de ex-ministros do Tribunal Superior Eleitoral para futuras atuações nesta seara.

Bolsonaro recorreu ao advogado Admar Gonzaga para buscar uma maneira de proteger os deputados que o acompanharem em uma eventual migração para outra legenda sem serem punidos pela lei eleitoral. Enquanto que Bivar buscou o advogado Henrique Neves, para se informar de como ele deve agir em caso de desfiliação em massa. Quer saber, por exemplo, se deve requisitar os mandatos de quem saiu da legenda e se é possível evitar a perda de parte dos fundos partidários e eleitoral, que se baseiam no tamanho da bancada eleita no último pleito.

O quiprocó — palavra usada, por enquanto, no sentido brasileiro, como sinônimo de confusão, e não no norte-americano, de toma-lá-dá-cá— também abre uma pergunta maior sobre a já precária relação do Planalto com o Congresso. A disputa vai afetar a votação de projetos importantes para o mercado financeiro? A consultoria de risco político Eurasia disse nesta semana que espera mais atrasos nas votações (a Previdência do Senado está prevista para a próxima semana) do que perda de apoio para os projetos.