EQUADOR

As barricadas indígenas voltam a ditar os rumos da política equatoriana

Milhares de nativos apoiam protesto contra ajustes econômicos de Lenín Moreno, que já resultaram em ao menos cinco mortes. Há 20 anos, eles derrubaram dois presidentes

As manifestações no Equador depois do acordo com o FMI.
As manifestações no Equador depois do acordo com o FMI.José Jácome / EFE

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A fumaça do gás lacrimogêneo se mistura com a das fogueiras improvisadas. É uma das imagens das marchas que na terça-feira chegaram a Quito, vindas de vários pontos do Equador. De um lado, as forças de segurança e, do outro, milhares de manifestantes que exigem que o presidente Lenín Moreno cancele os últimos ajustes econômicos ou saia. No centro da capital ou nas proximidades da Assembleia Nacional, no chamado parque del Arbolito, os líderes indígenas se declaram dispostos a radicalizar o protesto — os conflitos resultaram na morte de ao menos cinco pessoas em uma semana.

Marchas pacíficas, mas também tensão. Saques e confrontos entre manifestantes e forças de segurança. Os protestosdeixaram na semana passada episódios de violência, uma guerra de histórias entre autoridades e oponentes e tentativas de desinformação. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em qualquer caso, reiterou na quinta-feira sua preocupação com essa escalada e instou a investigar os fatos "cometidos por diferentes atores, principalmente os causados pelo uso excessivo da força".

Pelo menos cinco pessoas morreram durante os dias de mobilização iniciados principalmente pelo aumento do preço da gasolina. O último, segundo o relatório da Ouvidoria, é Inocencio Tucumbi, líder da Confederação de Nacionalidades Indígenas. No entanto, o secretário-geral da Presidência, José Augusto Briones, reduziu a cifra para dois casos: um homem que, de acordo com a versão oficial, foi atingido nas barreiras do início dos protestos e outro, por uma queda e um golpe em sua cabeça durante as manifestações realizadas em Quito.

As comunidades indígenas articulam há uma semana mobilizações que começaram depois do anúncio de um pacote de medidas que inclui um aumento no preço da gasolina de 50 centavos de dólar por galão (quase quatro litros). Nesta quinta-feira, depois de o Executivo ter oferecido uma agenda de diálogo, uma concentração de grupos muito inferior à do dia anterior reteve seis policiais e quase 30 jornalistas na Casa da Cultura, o que as autoridades chamaram de “sequestro”.

A Confederação de Nacionalidades Indígenas (CONAIE) procura aumentar a pressão. A greve nacional de quarta-feira se desenvolveu pacificamente até que a situação se precipitou e aconteceram duros confrontos entre a polícia e grupos de manifestantes. O Defensor do Povo confirmou a morte do dirigente Inocencio Tucumbi durante a marcha, embora não tenha detalhado as circunstâncias.

“Vivemos dias de muita agitação, nos surpreendemos com nossa capacidade de luta e resistência, mostramos ao mundo que o movimento indígena e o povo equatoriano são um só punho, e o lugar que a história nos deu. Fizemos tremer o poder. Nossa palavra está colocada: isto não para até que o FMI saia do Equador”, diz um comunicado da organização assinado por seu presidente, Jaime Vargas, cabeça visível dos protestos. A referência ao Fundo Monetário Internacional tem a ver com um empréstimo de 4,2 bilhões de dólares (cerca de 17, 2 bilhões de reais) acordado em fevereiro em troca de reformas estruturais.

No Equador, de acordo com dados de junho do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, vive mais de 1,4 milhão de indígenas, ou seja, pouco mais de 8% da população total do país. São comunidades rurais especialmente atingidas pela miséria. “Queremos que o Governo saia daqui”, diz José Jacho, de 29 anos, que viajou a Quito com a família desde a província de Cotopaxi, no centro do país. “Estamos cansados, com o combustível tudo sobe, também as sementes, o fertilizante. Por isso estamos organizando estas greves”, diz.

Além da adesão real e visível aos protestos, dezenas de milhares de pessoas, incluindo estudantes, sindicalistas e ativistas, os povos indígenas foram no passado um ator decisivo nos equilíbrios políticos do Equador. Há duas décadas, foram determinantes para a queda dos presidentes Abdalá Bucaram e Jamil Mahuad. A última vítima foi Lucio Gutiérrez em 2005. Dois anos depois chegou ao poder Rafael Correa, que também enfrentou duramente os índios na província amazônica de Morona Santiago por causa de um conflito de mineração. Na época, o Governo acusou de terrorismo alguns líderes do povo Shuar e Correa os chamou de “paramilitares”, embora hoje aplauda os protestos contra Moreno.

Tudo depende agora da capacidade do Governo de negociar e da vontade de diálogo dos manifestantes, que apoiam em parte essa saída. “É bom que medidas sejam tomadas, mas não de uma vez. Nós temos tratores, o combustível é o pão do dia para nós, por isso temos de chegar a Carondelet [sede do Governo] para dialogar”, diz Ezequiel Gómez, 40 anos, da localidade andina de Angochagua.

O Executivo ofereceu medidas para “compensar os efeitos do fim do subsídio aos combustíveis”. Entre elas, reestruturar as dívidas das organizações que não estiverem em dia com os pagamentos do financiamento de suas terras ou financiar o seguro agrícola. Por enquanto, uma proposta insuficiente para os manifestantes.

Dois homens sentados no reboque de uma caminhonete se queixam em uníssono. “Este é o futuro dos nossos filhos”, diz Willy Díaz, de 28 anos, que afirma trabalhar “no transporte”. “O presidente não percebe, aumenta o transporte para os nossos filhos, para os produtos de primeira necessidade”, afirma Héctor, de 52 anos.

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