Séries de TV

‘Aruanas’, a feroz batalha da Amazônia em uma ficção realista

A série da Globo que retrata a luta de quatro ativistas de uma ONG ambiental, aborda a partir da ficção um dos debates mais candentes dentro e fora do Brasil de Bolsonaro

Natalie (Débora Falabella), à esquerda, em uma cena de 'Aruanas'. Divulgação

As espetaculares imagens aéreas de enormes áreas da densa floresta tropical na Amazônia brasileira podem ser enganosas. Sob essa beleza se trava uma batalha feroz entre aqueles que querem que a preservação da biodiversidade prevaleça para deter a mudança climática e aqueles que veem nessas terras um maná de riqueza inimaginável esperando para ser explorado. É uma realidade cotidiana há décadas no Brasil, que nos últimos meses alcançou uma enorme relevância, dentro e fora de suas fronteiras, porque a cada vez mais evidente crise climática coincidiu com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, que considera secundária a proteção do meio ambiente e despreza as ONGs. O assunto que preenche os jornais e os noticiários é também a matéria-prima com a qual foi criada a série brasileira Aruanas (sentinelas na língua tupi), que conta a luta de três ativistas para salvar a Amazônia, as fundadoras de uma ONG ambiental, e sua estagiária. Tudo temperado com suas vicissitudes pessoais.

Embora nem essa ONG nem Cari, a cidade amazônica onde a ação acontece, existam, as peças com as quais esse thriller é construído se ajustam como uma luva à realidade dessa batalha que é travada tanto em lugares remotos da maior floresta tropical do mundo quanto em escritórios, restaurantes ou dormitórios de grandes cidades. Rodada em cenários naturais, lá estão a contaminação das águas pela mineração, os bodes expiatórios, o assassinato de empregados que denunciam abusos, o comportamento mafioso de alguns empresários, os rankings de empresas verdes e algumas das contradições das ONGs. As peças são reais, o fictício é a montagem. “A senhora é daquela ONG xiita?”, pergunta o suado comissário de polícia de Cari a Verônica, uma advogada estilosa e a honesta do trio. “Não, sou de Aruanas”, responde ela a essa expressão — "ONG xiita" — tão utilizada por Bolsonaro e detratores da causa ambiental.

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O ativismo ambiental é especialmente perigoso no Brasil. Apenas no ano passado 20 ativistas foram assassinados, segundo a última contagem da ONG Global Witness. O primeiro cadáver não demora muito a cruzar o caminho de Verônica, de Natalie –jornalista de fama, rica, a especialista em apertar as teclas necessárias para que o mundo conheça suas denúncias e conquistas– e Luiza, que é a ativista do imaginário popular, apaixonada, corajosa, muito ligada ao terreno. A estagiária Clara, na casa dos vinte anos, é a que diz o que pensa sobre seus inimigos, mas também sobre o ativismo, enquanto foge de um namorado perseguidor. O empresário ganancioso de Aruanas e seus colaboradores pronunciam muitas frases habituais no discurso político de Bolsonaro. “Quem gosta da floresta tropical e dos índios são os famosos. O povo gosta de dinheiro”. Ou o habitual “minha agenda também é ambiental, mas o país tem outras prioridades”.

A série Aruanas é transmitida no Brasil pela Globoplay, o canal por assinatura da Rede Globo, que decidiu transmitir abrir o primeiro capítulo pela TV aberta em 3 de julho. Um em cada dez brasileiros (23 milhões de pessoas) o assistiu, de acordo com uma porta-voz da série. Também pode ser assistida em outros 150 países, traduzida em 11 idiomas (incluindo o espanhol) pelo portal www.aruanas.tv. Deixará de ser um produto para minorias quando, no próximo ano, a Globo transmitir os dez episódios da primeira temporada gratuitamente para seu público brasileiro. Nada parece indicar que o debate ambiental esfriará até então.

A diretora Estela Renner explica que a série pretende muito mais do que entreter. O objetivo é colocar o foco no dia-a-dia dos ativistas ambientais, na batalha que travam para deter a crise ambiental. Não como heróis, mas como pessoas que saem para trabalhar naquilo em que acreditam sem a certeza de que voltarão para a casa de um quarto. Os ecologistas “devem ser protegidos e seu trabalho deve ser reconhecido”, explica Renner em resposta às perguntas enviadas por este jornal, mas também acredita que sua série “contribuirá para que a visão social, econômica e política sobre a biodiversidade do Brasil seja que a vida vale mais que a morte, que nossa floresta tropical vale mais em pé do que derrubada”.

Da esquerda para a direita, a estagiária Clara e as fundadoras da ONG: Natalie, Luiza e Verônica.
Da esquerda para a direita, a estagiária Clara e as fundadoras da ONG: Natalie, Luiza e Verônica.

A série é patrocinada pela empresa brasileira de cosméticos Natura, que fez da defesa da sustentabilidade ambiental parte de sua marca e acaba de comprar a mítica Avon. Um grupo de ONGs locais e internacionais assessorou os criadores da série para que seu relato seja, com a permissão dos cânones do entretenimento, fiel à realidade.

Ciente de que a questão está agora mesmo no polarizado Brasil, a diretora insiste que “o meio ambiente e as questões em torno dele devem ser um assunto presente nas casas, bares, grupos de WhatsApp e refeições em família” porque esta não é uma questão, acrescenta, “de direita ou de esquerda, de progressistas ou conservadores, estamos falando da existência humana”.