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Mary Karr: “Enquanto você é amável, os homens te protegem. O minuto em que deixa de ser, começa a batalha”

Mary Karr
Mary Karr.

Desde que publicou em 1995 The Liars' Club (O Clube dos Mentirosos), o primeiro de seus três romances memorialistas, Mary Karr é conhecida em todo o mundo. Agora o terceiro livro da série, Lit, é traduzido ao espanhol. Todos eles são de uma crueza surpreendente. A vida dessa mulher foi terrível: seus pais eram bêbados, foi estuprada duas vezes e foi viciada em cocaína e álcool. Além de romancista e poeta, Karr é há 30 anos professora na Universidade de Syracuse (Nova York).

Seu romance The Liars’ Club marcou um antes e um depois no gênero das memórias nos EUA. Tão cru como hilariante e comovente, recria sua infância com uma mãe culta e alcoólatra, enquanto seu pai fugia bebendo com seus amigos, os mentirosos. Há 30 anos, Mary Karr (Groves, Texas, 1955) dá aulas na Universidade de Syracuse. Assinou ensaios, como The Art of Memoir (A Arte da Memória), e três antologias de poemas autobiográficos. Agora seu terceiro romance memorialista é traduzido ao espanhol, no qual conta seu próprio alcoolismo, sua cura, sua transformação em escritora e seu encontro com uma fé que é mais fé no ser humano do que em algum deus. Lit (Iluminada) é, para Karr, seu texto mais maduro, uma viagem através da maternidade, da culpa, da caridade e do humor. Em seu pequeno e luminoso apartamento, no Upper East Side de Nova York, há um local com almofadas: o genuflexório onde reza diariamente. Karr é pequena. Parece que pesa meio quilo. Sua força e descaramento mantêm o rosto da menina esperta que foi. Diz que está sozinha e que é mais feliz do que nunca. Não evita nenhum assunto: nem seus vícios e seu relacionamento com o falecido escritor David Foster Wallace. Fez scones (um tipo de bolinho), não para o chá das cinco, mas como se fosse para quem os come às mordiscadas no parque: ela os unta diretamente na manteiga.

O que lhe deu a força para remexer em uma infância tão difícil?

Precisava do dinheiro. Tinha acabado de me divorciar. Tinha um filho de cinco anos e não tinha carro.

Sua franqueza marcou um antes e um depois no gênero. Só pode ser abordado através da sinceridade?

“Há muitas mentiras que vendem livros. O que comove não tem por que ser verdade. Mas ao mentir, você fecha a porta da verdade”

Muitas mentiras vendem livros. O que comove não tem por que ser verdade. Mas ao mentir, você fecha a porta da verdade. Pode pensar que mente em um detalhe insignificante, mas a escolha afeta tudo porque sua mente procurará o bonito.

Precisou lutar para não embelezar sua infância?

Ah, não. Se você cresce em uma família de alcoólatras sabe que mentem o tempo todo. No estilo “Não exxtou bêba” [imita], sabe? Isso, quando era criança, me deixava louca. Depois, quando caí no mundo, estava tão deprimida, ferida e presa que comecei a fazer terapia com 19 anos.

Em Lit a senhora explica como um professor a ajudou.

Não me disse que eu precisava de ajuda, ele a trouxe. Ele e sua mulher inventavam trabalhos bobos para poder me pagar e para que eu pudesse pagar a terapia. Essa terapeuta disse que eu precisava ver minha mãe e perguntar a ela por que havia tentado me matar com uma faca. Até então acreditava nela quando dizia que se não tivesse filhos seria mais feliz. Claro que não teria sido.

A maternidade pode ser uma opressão.

Claro. Os filhos são vampiros, chupam o sangue. Mas tive um. E é então quando você percebe como foi sua mãe. Eu não tinha a menor ideia de como ser uma, me faltavam referências.

Sua irmã não a ajudou?

Minha irmã se casou com um membro da Ku Klux Klan e eu tinha um namorado negro. Na última vez que a vi me jogou um secador de cabelos na cabeça. Ela se parecia com minha mãe, ainda que nunca tenha bebido. Fui à terapia durante anos. Mas o que me curou foi parar de beber.

Mary Karr: “Enquanto você é amável, os homens te protegem. O minuto em que deixa de ser, começa a batalha”

Por que começou a ler memórias tão cedo?

Porque não sabia como ser uma pessoa. Não sabia como as pessoas viviam. Intuía que o que nós fazíamos era estranho e equivocado. Também não sabia como me transformar em escritora.

Mas sabia que queria ser uma.

Só tinha os livros.

E os deve a sua mãe.

Sim. Era tão inteligente...

Tão inteligente que sendo alcoólatra, ganha uma herança e compra um bar...

Vou lhe dizer uma coisa, minha mãe era tão competente..., tinha uma mente fora do comum, habilidade para desenhar e construir uma casa, mas a maternidade é escrever com uma mão e fazer a comida com a outra em parte por sua própria autoexigência, não porque ninguém espera tanto de você. É enlouquecedor. Somos educados com essa autoexigência.

“A natureza do alcoolismo é progressiva. Beber funciona. Quando você começa é maravilhoso. Depois piora e já não para de piorar”

A senhora não!

A sociedade o faz. Quando sua casa não funciona você procura referências fora. As mulheres jovens vão nos tirar desse círculo vicioso.

Teme que o movimento MeToo se transforme em uma moda?

Eu direi o que penso. Toda semana uma jovem entra na minha sala na Universidade para me dizer que foi estuprada. Dou aulas há 30 anos e isso sempre aconteceu. Temos uma ideia enfiada na cabeça: as mulheres não têm poder, usam o sexo para conseguir favores de homens poderosos e depois se arrependem e se envergonham e culpam os homens. Esse é o ponto de vista masculino. Enquanto você é amável, os homens te protegem. No momento em que você deixa de sê-lo, a batalha começa. E você vai perder. Quando me formei em Princeton, o diretor do programa parou na porta de sua sala. Não me tocou, mas se humilhou contando que havia sido gordo e que as garotas não o notavam, para que eu dormisse com ele. Eu lhe disse que eu havia sido magra e estranha e que isso não importa. Ficou 45 minutos sem sair da porta. Eu lhe disse: “Você terá que vir até aqui e me estuprar, seu porco”. Por fim decidiu que eu estava louca. O pior veio depois. Disse aos professores que havia me pedido em casamento e que eu havia caçoado dele.

Em Princeton.

Sim. As professoras acreditaram nele. Meus estudantes negros se queixavam de que sempre pediam a identidade a eles. Diziam que tinham medo de que os matassem. E eu não dava importância: “Mais alguma coisa?”. Estava enganada. Nossa geração de feministas se enganou. Permitimos que tudo isso continuasse olhando para o outro lado, não perdendo tempo no que acreditávamos que não podia mudar.

O que aconselha às alunas que lhe contam um estupro?

Que se querem mudar as coisas devem denunciar e estar preparadas para que não acreditem nelas.

Contam à senhora porque disse em seus livros que sofreu dois estupros. Não revelou os estupradores, entretanto.

Nos livros mudei todos os nomes com exceção dos da minha família. Em meu bairro existiam garotos catalogados como “malvados” pelos vizinhos. Nenhum me fez nada. O que me estuprou vinha de uma das “famílias de bem”. Eu o descrevi com aparelho dental para que as pessoas soubessem que não era dos pobres. Quando publiquei, outra garota me contou que ele a estuprou. Disse a seu pai e ele deu um tiro em si mesmo. Quis matar o responsável, se embebedou e acabou se matando. O irmão do meu estuprador é um de meus melhores amigos. Há pouco tempo eu contei a ele e foi maravilhoso porque não duvidou de mim.

Mary Karr: “Enquanto você é amável, os homens te protegem. O minuto em que deixa de ser, começa a batalha”

Ele lhe perguntou por que não havia contado antes?

É sempre a mesma coisa: você não quer causar problemas. Quando disse à minha mãe e irmã: “Fui estuprada duas vezes, primeiro o vizinho, depois seu segundo marido”. Ela disse: “Que filhos da puta”. E minha irmã: “Vamos pedir comida mexicana”. Isso foi tudo.

Por que não podemos ser amáveis para poder nos sentir livres?

A amabilidade permitiu aos homens se imporem pela força durante anos. Mas não podemos falar assim deles. É uma porcentagem pequena os que fazem isso. Os melhores estão desconcertados se perguntando o que fizeram de errado. Mas quando um comete um abuso, não diz a alguém que tem as pernas bonitas. Pega a pessoa, a força e impede que ela se mova. A imaginação é outra coisa. Eu me imaginei tendo um caso com o entregador de lenha. Isso é a fantasia, uma maravilha que nada tem a ver com os homens que se masturbam no metrô e com o professor de Princeton, que certamente foi demitido: dormiu com oito estudantes.

E isso porque era gordo e feio.

Mas tinha o poder. Qual é a leitura? Que as jovens queriam nota mais alta. Eu não compro essa defesa do abuso do poder. Não me interessa ser amável se não me respeitam. Sua defesa é que não se pode sequer fazer um galanteio, quando o que não se pode fazer é muito claro.

É mais fácil comunicar a dor?

Há uma frase que atribuem a Tolstói, mas que foi escrita por Henry de Montherlant: “A felicidade se escreve em branco”. A dor exige vontade, fugir dela e repará-la. A luta, o grito e o insulto duram enquanto a doçura derrete como açúcar na água. Há maldade no mundo, mas também há muito amor, que é o que nos salva. Está em todas as partes, até mesmo nessa conversa. Com 20 anos eu teria pensado: você é mais bonita do que eu e mais cosmopolita...

Sua verdade é o horror e o melhor. Sua mãe tentou matá-las, mas também as instruiu.

Os contrários convivem. Antes de completar 15 anos li Sartre, Shakespeare, Neruda, Lorca e T.S. Eliot. A verdade é um terreno complexo.

Sua adolescência foi uma busca, saiu de casa com 17 anos.

E uma sucessão de vícios. Nos anos setenta, na Califórnia, era mais fácil conseguir drogas do que cerveja. Fiquei tão viciada em cocaína que soube que não podia usar mais. Hoje quando vou ao dentista não tomo analgésicos. Fico com medo.

Seu maior vício foi o álcool. O que o desencadeou?

Ter um filho quando não havia sido criança. Saber que você é responsável por um ser tão vulnerável quando ninguém foi responsável por você é psicologicamente duro. Agora sei do que preciso: uma vida organizada, ver amigos e me cuidar. Isso me faz forte. E livre.

Dedicou Lit a seu filho. Ele o leu?

Não. Leu The Liars' Club, mas retirei as páginas do estupro.

Por quê?

É muito gráfico. Sabe que fui estuprada, mas não precisa ter essas imagens no cérebro.

Por que uma mulher bêbada tem pior fama do que um homem bêbado?

Dizem que lidamos pior com o álcool. Eu acho que um homem não aguenta uma alcoólatra da maneira como as mulheres aguentam seu companheiro alcoólatra.

Está há 30 anos sem beber. Foi a reuniões dos Alcoólicos Anônimos em Boston. Teria sido diferente no Texas, onde cresceu?

Ah, também fui no Texas. E na Espanha, no Vietnã... Você vai quando precisa. Às vezes somos três na parte de trás de uma tinturaria. Você estabelece relações de extrema proximidade com pessoas que nada têm a ver contigo com exceção da coisa mais importante de sua vida.

E sempre ajuda?

A natureza do alcoolismo é progressiva. Beber funciona. Quando você começa é maravilhoso. Depois piora e não para de piorar. Se você toma uma garrafa de uísque e acha que em 10 anos continuará bebendo o mesmo se engana: beberá duas. Primeiro perderá a casa, depois seu companheiro e depois irão colocá-la em um sanatório e você acabará na rua. Mas não pode parar porque em sua cabeça beber solucionou sua angústia e irá ajudá-la outra vez. Quando aceita que já não é a pessoa que ficava bem bebendo, tem a opção do Alcoólicos Anônimos. O que nos une é que queremos nos recuperar de uma doença mortal.

Sua conversão ao catolicismo é outra surpresa em sua biografia.

Eu sei. Em minha vida só havia escutado impropérios contra a Igreja. Fiz um tour por todas. Gostava dos batistas porque cantavam. Mas quando falaram mal da homossexualidade, soube que não poderia apoiar isso. Por fim foi com um padre, o padre Cane, com quem aprendi sobre caridade e amor desinteressado. Ele tinha tudo: paralisia, câncer, úlceras. Perguntei a ele se estava bravo com Deus e me respondeu que ainda não. Ainda que não fosse muito inteligente e eloquente e fosse de direita de uma forma que eu não gostava, se comportava como um grande ser humano. Eu lhe perguntei: “Como pode votar em quem vota e deixar que os gays entrem em sua igreja?”. Respondeu: “Foram expulsos da igreja presbiteriana e me pediram o porão para se reunir. Eu deixei e começaram a vir à missa”. Então percebi: não é mais complicado do que isso.

Por que se tornou especificamente católica?

Não deveria ser permitido ser católica muita gente que foi educada no catolicismo. Eu nunca fui me confessar e menti. Precisava dizer a verdade. Sei que o catolicismo pode ser associado a abusos da Igreja, mas no meu caso foi uma luz que em vez de me cegar me iluminou. Certamente você conheceu gente que sentiu que eram santos.

Poucos.

São poucos. Dorothy Day dizia que os pobres cheiram mal e são mal-agradecidos. É esse realismo. Nada a ver com as mulheres que passam o rosário e que você tem a sensação que irão te devorar viva. Compartilhar será a religião do século XXI. Sou a favor do aborto. E precisam acabar com essa bobagem sobre os preservativos. Mas para mim o catolicismo é a possibilidade de voltar a ser criança e que alguém me guie. Não me salvará do mal, mas fará com que, quando chegar, eu possa enfrentá-lo.

Esse crescimento espiritual está associado a uma religião?

Ficar sozinha em casa é muito perigoso para uma viciada.

Quando chegou a Harvard a senhora escreveu: “Não conseguirei trabalho. Até os atendentes de livraria têm doutorado”.

Quando decidi ser escritora sonhava em ver meu nome impresso, não em ter um grande livro, não era tão inteligente. Pensava na foto da contracapa, como posaria.

Há um limite para o humor? Achava que a senhora seria mais sarcástica... E malvada?

Posso sê-lo. Veja, na noite em que disse a minha mãe e a minha irmã que havia sido estuprada quando era menina, minha irmã me perguntou: “Por que ninguém me estuprou?”. Eu respondi: “Talvez você não fosse bonita o suficiente”.

Quando perdeu o medo?

Quando decidi que estava disposta a parecer boba para evitar ser estúpida.

Foi namorada do escritor David Foster Wallace.

David estava louco. Quando estávamos sóbrios foi um bom amigo e ainda penso que foi tão, tão estúpido que se matasse... Acho que a maioria das pessoas que se matam estão matando a pessoa errada.

Foi seu caso?

Acho que gostaria que fosse sua mãe a morrer. Era muito promíscua. Tentou dormir com seus amigos de colégio. Ele nunca escreveu sobre isso.

Estamos há duas horas falando de mães ruins.

Não falamos dos pais porque ou não estavam presentes ou, no caso de David, também era um monstro. Meu pai tem algo de bom porque não tentou me matar com uma faca, ainda que tenha nos deixado com minha mãe e bebido até se matar. Mas, não sei nem como explicar, ele se iluminava quando eu entrava em um ambiente. Pensava que eu era esperta, divertida e linda. Era um fã. Se eu tivesse dito ao diretor do colégio “vai se lascar” e saísse, sua reação seria: “Esse aí precisa apanhar”. Isso te fortalece e te enlouquece ao mesmo tempo.

É capaz de escrever algo que não seja autobiográfico?

Dediquei três anos a um romance terrível. Agora trabalho em um ensaio sobre ter a idade que tenho. Outro dia disse a meu filho: “Quero morrer acompanhada da senhora da limpeza”. Paguei pelos últimos meses de meus pais, cuidei deles e não foram felizes. Não quero fazer isso com ele. Não quero causar mais miséria além da que causei em vida. Prefiro que ele e minha nora estejam por aí fazendo algo fabuloso.

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