Trump ameaça China com mais tarifas na última fase das negociações comerciais

Bolsas da Ásia registram quedas generalizadas depois de um anúncio que esvaziou o otimismo sobre um acordo nesta semana

O secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin (à esquerda), e o representante de Comércio, Robert Lighthizer, durante uma visita à China em 1º de maio
O secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin (à esquerda), e o representante de Comércio, Robert Lighthizer, durante uma visita à China em 1º de maio

Donald Trump retoma a tática da ameaça num momento crucial da negociação comercial com a China. O presidente dos Estados Unidos advertiu em um tuíte neste domingo, a três dias de uma nova reunião para avançar em um pacto que ponha fim a um litígio que dura quase um ano, que na próxima sexta-feira, 10, elevará de 10% para 25% as tarifas aplicadas a produtos chineses importados num valor de 200 bilhões de dólares (787 bilhões de reais). Além disso, está disposto a impor essa alíquota a todos os bens procedentes da China. A negociação, diz, “continua, mas muito lenta, e eles tentam renegociar. Não!”.

Depois do aviso de Trump, as Bolsas da Ásia, que vinham subindo graças às expectativas de um acordo definitivo entre as duas potências nesta semana, abriram a manhã em vermelho. A Bolsa de Xangai iniciou o pregão com queda de 3,66%, ou 112,275 pontos, situando-se em 2.965,59 pontos. A de Shenzhen, mais especializada em valores tecnológicos, iniciava a jornada com uma queda de 4,95%, ou 478,95 pontos. Hong Kong retrocedia 734,99 pontos (2,44%), ficando em 29.346,56 pontos.

No resto da Ásia, a reação era similar. No Japão, embora continue o feriado prolongado pela coroação de seu novo imperador, Naruhito, o índice Nikkei 225 de mercados futuros perdia 1,8%. O australiano ASX-200, 1,25%. O MSCI de ações asiáticas, excluído o Japão, desvalorizava-se 1,53%. O yuan caía ao seu menor valor desde 23 de janeiro com relação ao dólar, 6,8044 (perda de 1,07%), enquanto a moeda de refúgio na região, o iene, se fortalecia e era negociada a 110,43 unidades por dólar, depois de ter passado a semana anterior acima dos 111,60.

A batalha tarifária acaba de completar 300 dias. Até agora, foram 10 rodadas de negociação, e nos últimos dias especulou-se que o acordo poderia vir na próxima sexta-feira. Mas o republicano recorreu neste domingo às redes sociais para deixar claro que está perdendo a paciência e lamentar que as discussões não estejam avançando no ritmo que ele esperava. Em duas ocasiões ele já aceitou adiar a alta tarifária para deixar mais tempo para as negociações, mas o acordo continua sem ser fechado.

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Na primeira mensagem no Twitter, Trump recorda que há 10 meses já é aplicada uma alíquota de 25% sobre produtos de alta tecnologia importados do gigante asiático num valor de 50 bilhões de dólares, e de 10% sobre outros bens comercializados por 200 bilhões. “Estas tarifas são em parte responsáveis por nossos grandes resultados econômicos”, afirma, anunciando em seguida que na próxima sexta-feira a faixa dos 10% será elevada para 25%.

Em uma segunda mensagem, o presidente diz que os 325 bilhões restantes do volume total que os EUA importam da China permanecerão livres de impostos, mas adverte que “em breve” esses produtos também ficarão sujeitos uma tarifa de 25%. As represálias adotadas por Pequim, acrescentou o mandatário norte-americano, estão tendo “pouco impacto”.

Ao contrário de ocasiões anteriores, nenhum detalhe foi divulgado ao final da 10ª rodada de negociações, que terminou na quarta-feira passada em Pequim. Os participantes se limitaram a dizer que o encontro foi muito produtivo e que uma nova reunião foi marcada para esta semana em Washington, com o objetivo de definir um acordo e evitar uma escalada de consequências imprevisíveis. Mas o tuíte de Trump revela que as posições continuam afastadas. Segundo o The Wall Street Journal, a China provavelmente cancelará a viagem da delegação negociadora encabeçada por Liu Hei a Washington nesta semana.

Como é habitual nestas negociações, as arestas mais complexas são deixadas para o final. Os EUA se concentraram até agora em “aspectos estruturais”, como os subsídios chineses a suas companhias, e outras questões para garantir o “reequilíbrio” dos intercâmbios comerciais, em relação a como será verificado o cumprimento dos termos acordados e das sanções aplicadas em caso de descumprimento.

A China, por sua vez, comprometeu-se a elevar suas compras de produtos energéticos e agrícolas norte-americanos, além de oferecer uma agressiva redução dos impostos alfandegários para bens oriundos dos EUA. A grande questão, além disso, era saber o que acontecerá com as tarifas que começaram a ser ativadas 10 meses atrás, e até que ponto Trump cederia em reivindicações como a proteção das inovações tecnológicas.

O presidente norte-americano, já desde a campanha eleitoral, advertiu que seria firme para obter um acordo que forçasse a China a introduzir mudanças fundamentais em suas políticas. Levou essa agressiva retórica à prática com três baterias de medidas tarifárias impostas sobre produtos chineses avaliados, até agora, em 250 bilhões de dólares, procurando pressionar para que os dois países se sentassem para negociar.

Em nota, a consultoria Eurasia Group observou que “as negociações enfrentam agora um risco crescente de um ponto morto prolongado, talvez inclusive durante as eleições presidenciais [dos EUA em 2020]”.

O reequilíbrio comercial, assunto de segurança nacional

As sanções já impostas representam um pouco mais de metade dos 540 bilhões de dólares que os EUA importaram da China no ano passado. Como argumento de ataque para o reequilíbrio, Trump alegou questões de segurança nacional para proteger a economia. Pequim reagiu a Washington impondo tarifas sobre 110 bilhões de dólares do comércio bilateral, uma cifra muito próxima do total de 130 bilhões das exportações norte-americanas em direção ao gigante asiático no ano passado.

O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, sugeriu que um acordo poderia ser possível em duas semanas. Viajou à China com o representante de Comércio Exterior, Robert Lighthizer, e lá ambos se reuniram com o vice-premiê Liu Hei. Entretanto, ele também deu a entender que seria necessário um impulso final por parte do presidente Donald Trump e de seu homólogo chinês, Xi Jinping.

O objetivo de Trump com este enfrentamento era reduzir o desequilíbrio na balança comercial. Mas, apesar das discussões, os dados oficiais estão mostrando justamente o efeito contrário. O déficit com a China bateu um recorde em março, ficando em 419,2 bilhões de dólares (1,65 trilhão de reais), frente a 375,5 bilhões (1,48 trilhão) em 2017. É praticamente metade dos 891 bilhões do déficit comercial total dos EUA.

As exportações norte-americanas para o mercado chinês caíram 7% no ano passado, segundo um estudo do US-China Business Council. Isso equivale a uma redução de 9 bilhões. A organização empresarial atribui isso ao impacto do litígio comercial. Indica que 34 Estados experimentaram reduções, principalmente produtores agrícolas. Em 24 deles, a queda foi superior a 10%.

Os dados em mãos do Departamento de Comércio dos EUA mostram, por sua vez, que nos dois primeiros meses deste ano o México superou pela primeira vez a China como principal sócio comercial. O pacto pode dar como resultado que os chineses comprem mais produtos agrícolas (principalmente soja), gás natural liquefeito e bens industriais, como aviões da Boeing ou máquinas da Caterpillar.

Procurando esse reequilíbrio na balança comercial e um sistema de intercâmbios sustentável, os EUA renegociaram o acordo comercial com o México e o Canadá, assim como com a Coreia do Sul. Está em processo de revisá-lo com o Japão, e busca o mesmo com a União Europeia. Trump, além disso, abandonou o pacto do Transpacífico assim que chegou à Casa Branca. Somou a isso sobretaxas ao aço e ao alumínio.