Fórum Econômico Mundial de Davos

Guerra comercial leva FMI a cortar previsões para crescimento mundial

Economista-chefe do Fundo espera que bancos centrais adaptem suas políticas ao novo cenário de desaceleração

Gita Gopinath, economista-chefe do FMI, em foto de arquivo.
Gita Gopinath, economista-chefe do FMI, em foto de arquivo.

A expansão continua, mas está perdendo força mais rápido do que o projetado há alguns meses, admitiu nesta segunda-feira em Davos a nova economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. E, embora a redução seja modesta (de dois décimos este ano e de um décimo em 2020, para 3,6%), o crescente vínculo entre as tensões comerciais e os mercados financeiros em um cenário de condições financeiras mais restritivas aumenta significativamente os riscos de expansão mais fraca este ano.

"O comércio e o investimento tiveram uma pausa, a produção industrial fora dos EUA se desacelerou e os índices dos gestores de compras perderam força, apontando para um cenário global mais fraco. Embora isso não signifique que estejamos à beira de um [cenário mais fraco], é importante observar os crescentes riscos existentes", destacou Gopinath. Entre esses riscos, o Fundo enfatiza a possibilidade de que o Reino Unido deixe a União Europeia sem acordo e uma desaceleração maior do que a esperada na China.

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Em 2018, as autoridades chinesas implementaram reformas para regular a atividade bancária irregular e investimentos não incluídos nos orçamentos dos Governos locais, o que freou o crescimento do país. No entanto, o conflito comercial com os EUA forçou Pequim a reverter essas políticas e a adotar medidas de estímulo para suavizar a desaceleração. Mas as medidas podem não ser suficientes. "Sua desaceleração pode ser mais rápida do que a esperada se as tensões comerciais continuarem, e isso poderia provocar vendas abruptas nos mercados financeiros e de matérias-primas, como já aconteceu em 2015-2016", alerta a economista-chefe.

Além dessas ameaças, existe a incerteza em torno da agenda política dos novos Governos, caso do Brasil e do México, o fechamento da Administração nos EUA e as tensões geopolíticas no Oriente Médio e Sudeste Asiático.

Assim, o Fundo propõe uma maior cooperação internacional, uma receita que está perdendo adeptos de forma acelerada. "A principal prioridade política é que os países resolvam com rapidez e cooperação suas disputas comerciais e a consequente incerteza política, em vez de levantarem barreiras prejudiciais e desestabilizarem uma economia global enfraquecida", destacou Gopinath.

Entre os países desenvolvidos, a zona do euro foi a que sofreu maior corte nas previsões de crescimento econômico (três décimos abaixo do que o estimado em outubro, para 1,6%), devido às dificuldades do setor automotivo na Alemanha (cuja previsão de expansão foi reduzida em seis décimos, para 1,3%) e às novas tensões nos mercados financeiro e de dívida soberana na Itália, cujo PIB deve crescer 0,6% este ano.

No caso dos mercados emergentes, Turquia e México se destacaram nas revisões para baixo das projeções, com uma recessão mais forte do que a estimada no primeiro, e uma queda do investimento privado no segundo. É significativo que, no caso do México, com um novo Governo desde dezembro, o FMI projete uma desaceleração (de quatro décimos este ano e de meio ponto percentual em 2020, para 2,1% e 2,2%, respectivamente). Mas, no Brasil, com a posse de Jair Bolsonaro em 1o de janeiro, o Fundo acredita que a recuperação será mantida (com crescimento de 2,5% este ano, um décimo acima do projetado, e de 2,2% para 2020, um décimo a menos).

Depois de anos fora do foco, após o essencial protagonismo que desempenharam durante a Grande Recessão, o Fundo lançou um alerta aos presidentes dos bancos centrais, que estão ausentes de Davos este ano. "A política monetária nas economias desenvolvidas deveria continuar a ser normalizada com cuidado. Os principais bancos centrais estão cientes do momento de desaceleração e esperamos que calibrem seus próximos passos de acordo com esses eventos", disse Gopinath. Um argumento que, considerando as diferenças, se aproxima das declarações do presidente americano Donald Trump, que criticou os aumentos dos juros pelo Federal Reserve, e que capta o sentimento do mercado de que não haverá novos aumentos da taxa básica nos EUA na maior parte deste exercício.