Rússia ‘hétero’: um país de histórias e filmes sem personagens gays

A lei russa, que proíbe a “promoção” de “relações não tradicionais” a menores, fez que as narrativas LGTBI+ desaparecessem da cultura para o grande público

Imagem de Putin maquiado em uma manifestação pelos direitos LGBTI+ em Amsterdã (2013).
Imagem de Putin maquiado em uma manifestação pelos direitos LGBTI+ em Amsterdã (2013).C. TOALA (REUTERS)

Vladimir Putin quer que a Rússia se torne um grande armário. E muito escuro. O presidente, que se posicionou como o grande defensor dos valores cristãos tradicionais frente a um Ocidente sem Deus nem moral, provavelmente desejaria que na Rússia não existissem gays, lésbicas, bissexuais ou transexuais. É o que revela o seu roteiro para um país em que a lei estabelece que as relações entre pessoas do mesmo sexo são “inferiores” às heterossexuais. Assim, como se fosse uma patologia contagiosa, procura escondê-las dos menores de idade. E graças à chamada lei de propaganda homossexual, que proíbe “a promoção de relações não tradicionais”, eles estão conseguindo. A norma, que estabelece multas e sanções administrativas e se tornou um modelo para países como Argélia, Indonésia e Lituânia, completará cinco anos e baniu do espaço público qualquer sinal suspeito de “criar uma imagem distorcida da equivalência” dessas relações, como diz o decreto. Isso significa que os personagens LGTBI+ se tornaram invisíveis em livros, filmes, peças de teatro e inclusive nas campanhas publicitárias destinadas ao grande público.

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A Bela e a Fera, o grande remake da animação da Disney de 1991, estrelado por Emma Watson em 2018, foi classificado na Rússia como filme para maiores porque mostra um personagem gay, um dos primeiros em um filme para todos os públicos. Quase não foi lançado na Rússia, mas depois de uma enorme polêmica foi classificado como “adequado para maiores de 16 anos”.

Outra grande discussão aconteceu no final de janeiro, quando o machado da lei de propaganda russa eliminou um jovem maquiado que aparecia com cinco garotas em uma campanha publicitária internacional da marca de cosméticos Nyx. A Rússia foi o único país em que o rapaz não apareceu com cinco garotas, porque o departamento russo da empresa norte-americana – acusado nas redes sociais de homofobia, ou de, pelo menos, ter se curvado à homofobia governamental –, deve ter pensado que não é aceitável mostrar um homem maquiado.

“A lei eliminou a possibilidade de falar ou transmitir qualquer tipo de informação relacionada a assuntos LGBTI+. E isso, é claro, inclui a cultura e a educação; uma parte vital da sociedade”, diz o advogado Anton Ryzhov, da organização Stimul. É o efeito da censura das autoridades, mas também da autocensura de autores, editoras ou distribuidoras, que temem multas e ataques de grupos ultraconservadores e a publicidade negativa. Isso, aos olhos de psicólogos, sociólogos e ativistas, não só é perigoso porque “legitima a homofobia”, como diz a ativista Lena Klimova, mas que também o é porque mostra uma imagem distorcida da sociedade: uma na qual só existem as relações heterossexuais e as pessoas cisgênero (aquelas cuja identidade de gênero está alinhada com o sexo atribuído ao nascer).

A invisibilidade é muito perigosa, adverte Lindsay Toman, pesquisadora especializada nestas questões da Wayne State University, dos Estados Unidos. “Os meios de comunicação são onipresentes e influem na sociedade atual, por isso devem refletir o nosso mundo complexo e multidimensional. As crianças são constantemente inundadas de mensagens de programas de televisão, filmes ou histórias infantis, porque essa é uma das formas de socializar as gerações mais jovens. Se os personagens LGTBI+ não são representados e normalizados, será mais difícil que as crianças assumam suas identidades. E sabemos que os adolescentes LGTBI+ são três vezes mais propensos a cometer suicídio do que os heterossexuais”, enfatiza a especialista. “Com medidas como essa se cria o fenômeno psicológico do ‘estresse das minorias’, que prejudica o estado físico e mental dos representantes do grupo discriminado”, concorda o psicólogo Kirill Fyodorov, fundador do movimento Psicologia pelos Direitos Humanos.

A censura legitima a homofobia mostrando uma sociedade distorcida na qual existem apenas as relações heterossexuais

A Rússia descriminalizou a homossexualidade em 1993, pouco depois da queda da União Soviética. Mas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais frequentemente sofrem discriminação e ataques. Aproximadamente 37% dos russos acreditam que a homossexualidade é “uma doença a ser tratada”. Outros 18% acreditam que deve ser perseguida, de acordo com uma pesquisa do Centro Levada. Ser gay ou lésbica é “resultado da sedução dentro da família, na rua ou em uma instituição” para 15% dos russos entrevistados; e para 26% é o “resultado da má criação ou do mau hábito”. E essas opiniões encontraram na lei sua válvula, adverte Igor Kochetkov, um dos mais renomados ativistas pelos direitos LGTBI+ da Rússia, que alerta sobre o aumento dos ataques contra esses grupos.

A norma – que 63% da população vê como positiva, de acordo com o Centro Levada – é percebida como um dos elementos centrais da mensagem nacionalista do presidente Putin e de sua aproximação da Igreja Ortodoxa como símbolo de identidade da “Grande Rússia”. Considerada como discriminatória pelo Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo, a lei ameaça editores e distribuidores com uma multa entre 800.000 rublos (cerca de 46.400 reais) e um milhão de rublos ou a suspensão da atividade durante 90 dias. Muitos deles, reconhece Nadezhda Kruchenitskaya, uma das responsáveis pela editora Pink Giraffe, não estão dispostos – ou preparados financeiramente – para assumir o risco. “A lei não é clara, então o assunto em si já se torna tabu”, diz Kruchenitskaya.

Os filmes, séries e peças de teatro têm uma classificação por idade, mas a lei também estabelece requisitos para a venda ou difusão de livros etiquetados para maiores de 18 anos. Nessa definição entram não apenas aqueles que falam sobre drogas, álcool ou violência extrema, mas também os que, segundo os censores, poderiam “promover relações não tradicionais entre os menores”, que devem ser vendidos lacrados. E assim é feito, na maioria das vezes embrulhados em celofane: se pode ver a capa, mas não ler o conteúdo de suas páginas. O resultado, diz a editora da Pink Giraffe, é que os livros com personagens LGTBI praticamente não chegam aos leitores porque essa letra escarlate que os marca como sendo apenas para adultos também os afasta das prateleiras e das mesas centrais das grandes livrarias.

Não são editados ou são censurados. A história da menina trans Coy Mathis, que ganhou uma batalha judicial nos Estados Unidos para poder usar na escola os banheiros correspondentes à sua identidade de gênero, não chegará às crianças e jovens russos dentro do livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes. A editora russa que o publicou decidiu que podia violar a lei e eliminou o capítulo do aclamado livro de Elena Favilli e Francesca Cavallo, que conta a história de uma centena de mulheres e meninas, heroínas como Mathis em diferentes épocas e lugares do planeta.

Mas cortar pela raiz não é possível em todas as obras. Então, em alguns casos, a censura é ainda mais criativa. Há um ano, a escritora Victoria E. Schwab, autora da famosa série fantástica juvenil Shades of Magic, acusou a editora Rosman de alterar na tradução russa a história de amor de alguns de seus personagens. A editora se justificou com a lei e Schwab rompeu o contrato. Agora outra editora publica suas obras. Claro, marcadas como “+18”.

Para evitar problemas ou limitações, alguns autores, especialmente os pertencentes às minorias, estão optando pela autopublicação e a Internet. Como Lena Klimova, que publicou Crianças 404, uma série juvenil de temática LGTBI+ difundida através da Internet. Apesar disso, explica Klimova, foi advertida. Ainda assim, apesar das tentativas –também há uma série de sites proibidos, mas os agregadores de notícias e os motores de busca nem sempre os ocultam–, a Internet na Rússia ainda não foi vítima do machado da lei.

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