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Colômbia pede que Cuba entregue líderes do ELN, a última guerrilha ativa da América Latina

Grupo é suspeito do ataque que deixou mais de 20 mortos e 70 feridos em Bogotá nesta semana.

Explosão de carro-bomba marca naufrágio das negociações com a organização de raízes católicas

Libertação de três militares sequestrados pelo ELN em Arauca, em setembro
Libertação de três militares sequestrados pelo ELN em Arauca, em setembro AFP

O presidente da Colômbia, Iván Duque, deu formalmente por encerradas, nesta sexta-feira, as tentativas de negociar com o Exército de Libertação Nacional (ELN) após o atentado contra a academia policial de Bogotá, atribuído a esse grupo guerrilheiro, que deixou mais de 20 mortos e 70 feridos na quinta-feira. O presidente se pronunciou depois que o Ministro da Defesa e o Procurador Geral divulgaram detalhes das investigações que ligam o atentado ao grupo. Ele enviou um forte recado aos terroristas e pediu a Cuba, onde vários líderes da organização estão localizados, que os prendesse.

Iván Duque se dirigiu diretamente ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel. "Somos gratos", disse ele, "pela solidariedade expressa ontem pelo governo de Cuba e hoje pedimos a eles que efetivem as capturas dos terroristas que estão em seu território e os entreguem às autoridades policiais colombianas."  No entanto, evitou se referir, como fez em outras ocasiões, à Venezuela onde, de acordo com membros da inteligência colombiana, estão escondidos membros do ELN e onde o autor material do ataque, José Aldemar Rojas Rodríguez, instruiu outros combatentes no manuseio de explosivos.

O atentado marcou o naufrágio das negociações que já se enfraqueciam havia meses. De raízes católicas, admirador de Ernesto Che Guevara e com uma estrutura federada que dificulta um processo de diálogo, o ELN é considerado por diversos observadores como a última guerrilha ativa na América Latina.

Após selar há dois anos um acordo com a extinta guerrilha das FARC − hoje desarmada e transformada em partido político −, o presidente Juan Manuel Santos procurou o que chamava de “paz completa”. Depois de aproximações secretas desde 2014, estabeleceu uma mesa formal de conversas com o ELN no começo de 2017. Na última parte de seu mandato, o também Nobel da Paz levou para Havana as negociações que ocorreram praticamente sem avanços durante mais de um ano em Quito.

As conversas estavam paradas desde a chegada de Iván Duque ao poder, em 7 de agosto, quando prometeu levar 30 dias para tomar uma decisão. O mandatário exigiu diversas vezes que para retomar o diálogo a guerrilha deveria libertar todos os sequestrados, abandonar os territórios fronteiriços com a Venezuela, cessar os ataques aos oleodutos e deixar de recrutar menores de idade. De acordo com a contagem feita pelo comissário da Paz, Miguel Ceballos, o ELN mantém 17 pessoas em cativeiro, e desde que Duque assumiu a presidência sequestrou nove pessoas e realizou 33 ataques contra oleodutos. “O ELN não fez nenhuma manifestação de sua vontade de paz”, disse Ceballos. “Não cederemos ao terrorismo e não negociaremos”.

O ELN mantém forte influência em regiões fronteiriças com a Venezuela, como os Estados de Arauca − de onde saiu a caminhonete do atentado em Bogotá − e Norte de Santander, e com o Equador, como Nariño, o Estado com maior extensão de plantações ilegais. Também está presente no centro do país, em Casanare, Boyacá e sul de Bolívar, assim como em Chocó e Cauca (no Pacifico), de acordo com fontes militares.

Católico e guevarista

Quase tão antigo quanto as FARC, o ELN nasceu em 1964, inspirado na revolução cubana e marcado por uma profunda influência religiosa. Vários de seus fundadores − sindicalistas, estudantes e camponeses − foram treinados na ilha caribenha e logo se somou a eles o padre colombiano Camilo Torres (1929-1966), que morreu em um dos primeiros combates. O mitificado padre Torres, juntamente com outros três sacerdotes espanhóis expoentes da Teologia da Libertação que seguiram seus passos, selaram a confluência entre cristianismo e marxismo que caracterizou o grupo guevarista. Entre eles, Manuel Pérez (1943-1998), que chegou a comandar o ELN.

Os rebeldes contam atualmente com 1.500 combatentes e vários milhares de milicianos, segundo cálculos do Governo, e são liderados por Nicolás Rodríguez Batista. Conhecido como Gabino, ingressou em suas fileiras quando tinha 14 anos e é comandante desde 1998, depois da morte, por causas naturais, do padre Pérez.

Algumas das piores ações de guerra do ELN chegaram precisamente nessa época. A explosão de um oleoduto em Machuca (Antioquia) matou 70 pessoas em 1998, e em 1999 o grupo perpetrou dois cinematográficos sequestros em massa. Primeiro capturaram um avião da Avianca com 46 passageiros e depois levaram 170 fiéis da igreja La María, perto de Cali.

Com o passar do tempo, o pretexto ideológico do ELN foi se dissolvendo. Atualmente, ele disputa o controle de alguns territórios rurais e da produção de coca com outros grupos criminosos. No entanto, mantém um discurso nacionalista que destaca o controle dos recursos naturais, e por isso sempre procura atacar as multinacionais e a infraestrutura energética – principalmente a petrolífera – como objetivo militar.

Enquanto as FARC, com um caráter mais camponês, foram em seus tempos de insurgência uma organização muito vertical, os analistas assinalam que o ELN – com influência em setores urbanos, principalmente estudantis e sindicais − tem uma estrutura mais “federativa”, quase fragmentada, com liderança própria em cada frente. Articula-se no chamado Comitê Central (COCE) de cinco chefes, liderado por Gabino.

Sucessivamente, os Governos de César Gaviria (1990-94), Ernesto Samper (1994-98), Andrés Pastrana (1998-2002) e Álvaro Uribe (2002-10) tentaram infrutíferos processos de negociação com a guerrilha guevarista, que em muitos momentos foi considerada de importância secundária diante da ameaça que representava o poder de fogo das FARC. Santos chegou um pouco mais longe com a única conquista realmente tangível entre as múltiplas tentativas de encontrar uma saída política para o conflito. No fim de 2017, às vésperas da visita do papa Francisco a uma Colômbia que desejava deixar a guerra para trás, as partes acertaram o primeiro cessar-fogo bilateral em mais do meio século de luta armada. Um grupo formado por representantes da ONU, do Governo, dos rebeldes e da Igreja Católica verificou no terreno o cumprimento do acordo, mas a trégua sem precedentes expirou há um ano. À luz do que ocorre atualmente, foi uma conquista efêmera.

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