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Partido das FARC estreia no Congresso da Colômbia

Santos defende a convivência na sessão inaugural da legislatura e pede que Duque “cuide da paz que está nascendo”

Membros do partido oriundo das FARC, entre eles Victoria Sandino e Pablo Catatumbo (da esq. para a dir.), no Congresso colombiano.
Membros do partido oriundo das FARC, entre eles Victoria Sandino e Pablo Catatumbo (da esq. para a dir.), no Congresso colombiano. AFP

O que se viu e ouviu na última sexta-feira no Congresso da Colômbia talvez não seja o reflexo mais fiel da situação real do país. Mas a coleção de imagens do início da legislatura mostra o clima político que a nação atravessa. Suas realizações, seus obstáculos, suas questões pendentes e sua polarização —esta, sem dúvida, com um eco na sociedade—. A antiga guerrilha das FARC estreou no Parlamento com cinco senadores e cinco deputados. O presidente que termina seu mandato, Juan Manuel Santos, defendeu seu legado e lançou uma mensagem crucial sobre o processo de paz ao sucessor, Iván Duque. E o ex-mandatário Álvaro Uribe, hoje congressista, voltou-se contra os oito anos do Governo de Santos. Assim, no Dia da Independência, teve início este período de quatro anos, tradução do resultado das eleições legislativas do passado 11 de março. Uma sessão inaugural que, de alguma forma, simboliza as tensões da Colômbia depois da guerra.

A Força Alternativa Revolucionária do Comum, o partido oriundo das FARC, das quais conserva a sigla, entrou pela primeira vez nas instituições. E o fez em virtude dos acordos de Havana, assinados em 2016, que garantiram 10 cadeiras aos ex-combatentes para sanar sua frustração ante a rejeição social. A previsão dos negociadores era a correta, já que a formação teve apenas 85.000 votos nas eleições e abriu mão da disputa presidencial. Além disso, a chegada dos guerrilheiros acontece uma semana após sua cúpula, liderada por Rodrigo Londoño, mais conhecido como Timochenko, ter sido citada por sequestro sistemático na Jurisdição Especial para a Paz, o tribunal encarregado de julgar os crimes de mais de meio século de conflito. Na primeira jornada da legislatura, seus integrantes exibiram cartazes com o lema Convergência pela Esperança, receberam as boas-vindas de Santos por sua aceitação do sistema e o desprezo de Uribe, que foi o principal mentor do presidente eleito e cujo partido, o Centro Democrático, dominará um Parlamento muito fragmentado. Duque, que assume o cargo em 7 de agosto, pretende corrigir os acordos para que os condenados por crimes de lesa-humanidade não possam participar da política.

“Chegamos ao Senado para trabalhar para que se torne realidade o desejo de uma Colômbia soberana, moderna, em paz, com equidade e verdadeira democracia”, escreveu no Twitter Carlos Antonio Lozada, ex-comandante do grupo insurgente. Ele foi acompanhado por Pablo Catatumbo, Victoria Sandino, Sandra Ramírez e Benkos Biohó, que nos últimos dias substituiu Iván Márquez, número dois de facto da organização, que abriu mão de seu assento no Congresso. Na Câmara dos Representantes, assumiram seus mandatos Luis Alberto Albán (Marcos Calarcá), Byron Yepes, Olmedo Ruiz, Jairo Quintero e Sergio Marín.

Argumento pela paz

Em qualquer caso, o início do período de sessões se transformou numa espécie de despedida de Santos, que teceu argumentos pela paz num momento repleto de dúvidas sobre a continuidade do foi acordado. “Aqui estão, pela primeira vez, cinco senadores e cinco representantes do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum, nascido da desmobilização e do desarmamento das FARC. Muitos, é preciso admitir, não gostarão de vê-los neste lugar de debate e civilidade”, afirmou Santos. “Para mim —e tenho certeza de que também para milhões de colombianos—, é uma grande satisfação ver que aqueles que combateram o Estado e suas instituições com as armas, por mais de meio século, hoje se submetam à Constituição e às leis da Colômbia, como todos nós fazemos.” O presidente mostrou sua esperança de que eles cumpram o mandato de Timochenko, ou seja, que “de agora em diante, sua única arma seja a palavra”. Também deixou clara a distância em relação às propostas do partido, mas saudou o fato de que seus integrantes se submetam às regras do jogo do Estado de direito. “Podemos não estar de acordo, e não estou, com sua ideologia, mas disso se trata a democracia: de resolver as diferenças através do debate de ideias, não pela violência.”

Santos enviou uma mensagem ao novo presidente. “Esta é a paz que deixamos em plena construção, que não é minha nem do meu Governo, e sim de todos os colombianos... E estes são alguns de seus resultados mais visíveis: milhares de vidas salvas, milhares de vítimas e feridos poupados, mais investimentos, mais turismo, mais trabalho, mais recursos naturais protegidos, mais progresso no campo”, declarou. “Por isso, hoje lhes digo: cuidem da paz que está nascendo! Cuidem dela! Defendam a paz, lutem por ela! Porque é o bem mais valioso que qualquer nação pode ter. Cuidem da paz para que ela cresça forte, para que dê frutos... Porque a Colômbia merece viver em paz!”

Mais de 60 tuítes

Durante o discurso, Uribe escreveu mais de 60 tuítes críticos em relação ao legado de Santos. “Um Congresso com pessoas condenadas por crimes atrozes, sem reparar as vítimas, sem cumprir sanções simbólicas, inadequadas. Na Colômbia, criminalidade crescente e reorganização criminosa das FARC. Paz aparente”, lançou o ex-mandatário, de quem Santos foi ministro da Defesa.

Além do choque entre essas duas visões, houve outros momentos de tensão, embora de menos importância, como o criticado show protagonizado por Antanas Mockus, o senador mais votado depois de Uribe. O ex-prefeito de Bogotá, da Aliança Verde, baixou as calças e mostrou o traseiro na Câmara para chamar a atenção dos deputados ante as interrupções do discurso de Efraín Cepeda, o presidente do Senado que termina agora seu mandato.

 

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