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Colômbia responsabiliza ELN pelo atentado com mais de 20 mortos em Bogotá

Suspeito de ser o autor material do ataque instruiu membros do grupo armado na Venezuela. Ele tentou entrar nas FARC e foi rejeitado

Atentado em Bogotá
Homenagem às vítimas do atentando em Bogotá EFE

O governo colombiano responsabilizou, nesta sexta-feira, a guerrilha esquerdista Exército de Libertação Nacional (ELN) pelo ataque à principal academia de polícia do país, que deixou mais de 20 pessoas mortas e quase 70 feridas nesta quinta-feira, 17, em Bogotá. A informação foi confirmada pelo ministro da Defesa, Guillermo Botero, e pelo procurador geral, Nestor Humberto Martinez, em uma aparição conjunta com o comando da polícia e o alto comissário para a paz. "O Ministério Público irá imputar responsabilidade aos membros do Coce [Comando Central] do ELN", disse Martinez. O grupo armado se sentou em 2017 em uma mesa de negociação com uma equipe do então presidente Juan Manuel Santos, embora o diálogo não tenha avançado.

O suspeito de ser o autor material do ataque à escola de cadetes é José Aldemar Rojas Rodríguez. Este terrorista, nascido em 1962, juntou-se à organização insurgente há 25 anos. Em 2003 ele se tornou um explosivista e instrutor. "Em 2011", explicou Botero, "ele continuou sendo instrutor de cursos para especialistas em Fortul, Arauca, com viagens para a Venezuela para ensinar membros do ELN que estavam naquele país e outros a lidar com explosivos". Dessa região fronteiriça procede o veículo empregado no atentado.

Rojas Rodríguez, também conhecido pelos os pseudônimos 'Mocho' ou 'Kiko', era desde 2017 um dos chefes da "inteligência" do ELN, que ainda conta com cerca de 1.500 combatentes e células urbanas. Ele tentou se aproveitar dos benefícios do processo de paz com como FARC e, após a assinatura dos acordos de 2016, tentou ingressar nessa organização. No entanto, como explicou o ministro da Defesa, ele foi rejeitado pela estrutura do antigo grupo guerrilheiro em pelo menos três ocasiões. Vários testemunhos ligam-no à chamada "frente de guerra oriental" do ELN, uma guerrilha que nasceu em 1964 ao mesmo tempo que as FARC e faz parte da lista de grupos terroristas nos Estados Unidos e na União Europeia.

O governo também confirmou que todas as vítimas da explosão eram cadetes da escola "com idades entre 17 e talvez 22 anos".

Iván Duque

Colombianos fazem vigília em frente à escola policial onde a explosão de um carro-bomba matou mais de 20 pessoas, nesta quinta-feira, 17 de janeiro.
Colombianos fazem vigília em frente à escola policial onde a explosão de um carro-bomba matou mais de 20 pessoas, nesta quinta-feira, 17 de janeiro. REUTERS

Em discurso à nação na noite de quinta-feira, o presidente Iván Duque pediu unidade dos colombianos frente ao terrorismo. Este foi o pior ataque desde a assinatura da paz com a guerrilha FARC. Frente a esse novo episódio de violência, o mandatário fez um apelo e enviou uma mensagem que busca tranquilizar a opinião pública.

“Todos os colombianos rejeitam em uníssono o terrorismo. Por isso os convido a nos unirmos para enfrentá-lo e derrotá-lo com todo o peso das instituições”, exortou Duque. “Hoje os terroristas procuram nos intimidar como sociedade e amedrontar o Estado colombiano. A Colômbia lhes demonstrará que esta é uma nação forte, unida e que não se quebra perante a demência destas agressões”, acrescentou. “O terrorismo irracional se derrota com a resposta de todos os colombianos, sem distinção alguma. Derrotaremos o terrorismo com a contundência de nossas ações e o compromisso da nossa Força Pública. Derrotaremos o terrorismo com a cooperação cidadã. Derrotaremos o terrorismo atuando como uma sociedade fortalecida por seu compromisso irrestrito com a legalidade”, enfatizou.

O tom do discurso foi firme e ao mesmo tempo estritamente institucional. Ao longo da manhã, depois de voltar a Bogotá de uma viagem à costa do Pacífico e comandar uma reunião do seu conselho de segurança na academia de polícia, havia dito que atuaria “com toda a firmeza e com toda a prudência”. Não mencionou a palavra paz, mas tampouco criticou nem mencionou o acordo alcançado com as FARC em 2016 por seu antecessor, Juan Manuel Santos. Já o ex-presidente Álvaro Uribe vinculou o ocorrido com a transição iniciada na Colômbia. “Que grave que a paz tenha sido um processo de submissão do Estado ao terrorismo!”, escreveu em sua conta do Twitter.

Ele prometeu às famílias das vítimas e à sociedade que o atentado “não ficará na impunidade”. “Diante deste ataque miserável, vamos nos fortalecer como nação e continuaremos atuando contra os grupos armados organizados que operam no país”, afirmou. “O terrorismo”, acrescentou, “pretende golpear e ameaçar nossos valores, nossa democracia e nossa justiça. Mas cada um de vocês deve ter a certeza de que estamos preparados para defender o nosso país. Estamos aqui para defender nosso futuro”.

O mandatário determinou um reforço nos controles fronteiriços e nos acessos às cidades. Também solicitou “prioridade a todas as investigações, convocando a solidariedade, a informação e a ajuda dos cidadãos para identificar os autores intelectuais desse atentado terrorista e seus cúmplices”. Fez, além disso, uma referência à fonte de financiamento de todas as atividades violentas no país, o narcotráfico, com o compromisso de que tirará esse combustível dos criminosos.

Duque, definitivamente, tratou de se dirigir a toda a sociedade e a todos os atores políticos. “Colombianos, é nas adversidades onde crescemos, onde mostramos nossa resiliência, nossa fé, nossa solidariedade e nosso espírito”, disse. “Hoje, nossa nação sente dor, mas não se dobra.”

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