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Pare e leia um poema #4 uma corrente lírica para Hilda Hilst

EL PAÍS encadeia poemas em homenagem à poeta. Nesta quarta semana, Ricardo Aleixo indica Eliane Marques

Pare e leia um poema #4 uma corrente lírica para Hilda Hilst

Faltando uma semana para o início da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 25 de julho, EL PAÍS publica o quarto poema da corrente lírica Hilda Hilst, poeta homenageada no evento literário. Indicada pela curadora da Flip, Joselia Aguiar, Josely Vianna Baptista começou a corrente que passou para Antonio Risério, Ricardo Aleixo e agora chega na poeta gaúcha Eliane Marques. Sem título, o texto faz parte do livro e se alguém o pano, publicado pela Escola de Poesia, que, coordenada por Marques, organiza grupos de estudo de poesia, realiza leituras, oficinas e publica autores. Na próxima semana, a corrente literária se encerra (pelo menos por enquanto) com o início da Flip.

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resta na medula das coisas
ali onde sobram em conluio
os sapatos

se pudesse fraturá-las
deitá-las sobre a cama

se o crime alguém o intentasse somente com o pranto
mas tem lá o seu cavalo mouro um lenço para as louças
e outro (mais curto) às canecas de estanho

a negrinha dada aos serviços da casa
corpo que se aquieta no tropel dos infantes

corpo a quem se indefere
o bilhete de passagem
um corpo pequeno um corpo estranho

ao seu braço não basta a cabeça de piolhos
esmagá-los como castanha

esse braço dado aos serviços dos outros
tem lá o seu cavalo mouro seu ruído entre os zimbros
tem lá o seu cavalo mouro seu cheiro de crina
contra a força que se impõe às insistências do morto

a negrinha braço da casa
louça partida entre tantos

a negrinha dada aos serviços da casa
tem lá o seu cavalo mouro
eu disse: tem lá o seu cavalo mouro

Eliane Marques, nascida em 1971, é gaúcha de Sant'Anna do Livramento, cidade fronteiriça entre Brasil e Uruguai. Marques tem formação em Pedagogia e Direito e atua como auditora pública do tribunal de contas do Rio Grande do Sul. De formação ampla, a poeta ainda estuda psicanálise e coordena a Escola de Poesia, vinculada à instituição de psicanálise Après Coup Porto Alegre Psicanálise e Poesia. Hoje em Porto Alegre, Marques ainda edita a revista Ovo da Ema. Seu primeiro livro de poesia, Relicário, foi publicado em 2009. Já e se alguém o pano, de 2015, ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura (categoria poesia -2016), organizado pela prefeitura da capital gaúcha.

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