FLIP 2018

Pare e leia um poema #1: uma corrente lírica para Hilda Hilst

EL PAÍS publica um poema por semana até a Flip, em que poeta de Jaú será homenageada

Chuva de estrelas
Chuva de estrelasAndres Kudacki / AP

Um texto semanal, um instante para parar tudo e ler um poema. A partir deste momento, o EL PAÍS começa esta corrente semanal em que uma poeta ou um poeta indica o trabalho de outro até o começo da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que homenageará a poeta Hilda Hilst, que nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, e morreu em 2004. Hilst foi tachada de difícil durante a vida, de autora hermética. Ela própria enxergava essas críticas como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher, não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. A homenagem do evento de literatura vem para colocar as coisas nos devidos lugares.

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Para começar a corrente poética, a primeira convidada foi Joselia Aguiar, atual curadora da Flip, que no ano passado chamou atenção ao elaborar uma programação diversa, com grande representação de autoras e escritores negros e negras. Para começar esse primeiro elo da corrente, ela escolheu a poeta e tradutora Josely Vianna Baptista, com seu poema Guirá Nãndu – nome da Constelação da Ema, na cultura Tupi-Guarani –, publicado no livro Roça Barroca, que acaba de ser reeditado pela editora Sesi-SP e será lançado em agosto. Na semana que vem, Vianna, que tem um breve perfil abaixo, escolhe o próximo poeta.

Guirá Nãndu

Para Teodoro (sob a Constelação da Ema, cujas penas são desenhadas por claro-escuros da Via Láctea)

pode que a noite hoje

se furte a amanhecer

a terra desmorone

nos bordos do poente

e outra vez o sol

como antes

não desponte

em busca de outro sol

pode alguém se perder

abandonando o humano

para encontrar seu deus

– o mesmo que ao nascer

deu-lhe um nome secreto

de sua divindade

perfeito e repleto

pode que na viagem

no trajeto disperso

um homem adivinhe

a vereda possível

sem fim, de sol a sol

até que a fome e a febre

o êxtase à flor da pele

a intempérie, a prece

a dança em excesso

transportem o corpo adverso

e o espírito pulse

e respire

e confronte

o mar que o separa

da terra indestrutível

quem sabe o paraíso

que descrevem os antigos

não esteja além do vasto

nevoeiro e sargaço

mas no árduo percurso

vencido passo a passo

sem bússola ou mapa do céu

em pergaminho

talvez além do zênite

que ofusca o caminho

deixando um invisível

roteiro para os olhos

que enfrentam o escuro

entre os dois

crepúsculos

Josely Vianna Baptista é poeta, tradutora e editora. Ela nasceu em Curitiba, no Paraná, em 1957, e vive hoje em Florianópolis. Entre seus livros, estão títulos como Ar, Corpografia, de 1991, editado pela Iluminuras; Los poros floridos, editado no México, em 2002, pela Aldus; Roça Barroca, em que aparece o poema acima e que acaba de ser reeditado pelo Sesi-SP e será lançado em agosto; e da coleção Cadernos Ameríndios, dedicada à cultura de etnias indígenas sul-americanas. Recentemente, ela também criou o site-conceito Na Tela Rutila das Pálpebras.

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