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Convidada da Flip, Maria Teresa Horta fundiu luta feminista à sua literatura

Autora anunciada com exclusividade ao EL PAÍS é poetisa portuguesa, símbolo da luta contra o salazarismo

Maria Teresa Horta Flip 2018
A poetisa Maria Teresa Horta

Na altura de lançar seu primeiro livro de poesias, Espelho Inicial, em 1960, a escritora portuguesa Maria Teresa Horta ouviu de seu pai: “Tem cuidado com o que vais publicar, porque usas o meu nome”. Foi aí, talvez, que descobriu pela primeira vez que às mulheres nem o nome era permitido e que ser autora já representava uma transgressão por si só no Portugal salazarista em que vivia. Hoje, aos 80 anos, Teresa Horta tem mais de duas dezenas de livros entre poesia e ficção publicados, continua trabalhando incansavelmente e é também a mais nova autora anunciada na programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece no final de julho.

“Foi a primeira pessoa que tentamos trazer para a Flip deste ano, em uma mesa especial, um encontro com a autora para falar sobre sua trajetória. Infelizmente, ela não pode viajar de avião por questões de saúde, então decidimos fazer sua participação via vídeo”, diz Josélia Aguiar, curadora do evento literário. O encontro terá a presença de outras duas escritoras, ainda não divulgadas, que irão  dialogar com Teresa Horta através de vídeos previamente gravados em Lisboa, onde vive a escritora. “Será uma mesa sobre a poesia de Maria Teresa, sobre ela e sobre a conexão poética entre Brasil e Portugal”, diz Aguiar.

Pouco conhecida por leitores brasileiros e com apenas alguns livros publicados no país – como Cem Poemas [antologia pessoal + 22 inéditos], da editora 7 Letras, e o de contos Azul Cobalto, da Oficina Raquel –, Teresa Horta, além de amplamente estudada na academia, é uma das poetisas (como ela própria gosta de ser chamada, em oposição a poeta) portuguesas mais conhecidas internacionalmente. Com uma carreira literária que se confunde com sua atuação feminista e política, tem também diversos pontos de contato e semelhanças com Hilda Hilst, a poetisa homenageada nesta 16ª edição da Flip. “Elas operam em uma dimensão muito parecida. Seu último livro, Anunciações [de 2016], por exemplo, conta a história do encontro amoroso entre Maria e o anjo Gabriel, algo que poderia ter sido facilmente escrito por Hilda”.

Em 1972, ainda sob o salazarismo, Maria Teresa Horta, ao lado de duas amigas também escritoras, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa – as três Marias –, ficou famosa depois da publicação do livro Novas Cartas Portuguesas, um libelo literário feminista contra o fascismo e o patriarcado, composto por cinco cartas com uma narrativa não-linear. “O Novas Cartas faz referência às cartas de amor de Mariana Alcoforado, uma freira do século 17, ao seu amante, um soldado francês”, diz Raquel Menezes, editora da Oficina Raquel. Escritas a três mãos, as novas cartas acabaram por se transformar em um símbolo da queda do regime salazarista – comandado, então, por Marcelo Caetano – que aconteceria dois anos depois.

“O texto não era bem vindo porque discutia patriarcado, paternidade, feminismo. Recuperaram essa personagem, Mariana, enclausurada em um convento do século XVII, muito provavelmente contra sua vontade, para falar do enclausuramento português do século XX”, diz Menezes. “Após a publicação, aconteceu o que esperávamos: perseguição política, proibição de venda da obra, passaportes apreendidos, idas à Polícia Judiciária e o processo posto pelo Governo de Marcelo Caetano, por obscenidade, pornografia e atentado aos bons costumes”, conta Teresa Horta em entrevista ao EL PAÍS por telefone. Omitindo a autoria dos trechos do livro, as três Marias enfrentaram a perseguição com o apoio internacional de figuras como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e Christiane Rochefort. “Foi o maior movimento de solidariedade feminina internacional de que há memória”, diz a escritora.

As três Marias: Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta
As três Marias: Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta

Nessa época, contudo, Teresa Horta já era uma autora conhecida e perseguida pelo regime português. “A explosão do Novas Cartas, foi antecipada pela publicação de Minha Senhora de Mim, de 1971, em que Maria Teresa revisitou a lírica tradicional portuguesa ao escrever poesias com fundo erótico”, diz Ana Maria Domingues, doutora em Letras pela Universidade São Paulo (USP). O livro, segundo Domingues, faz uma releitura do trovadorismo galego-português, do século XI, sobretudo das cantigas de amigo, que tradicionalmente eram de homens, mas tinham um eu lírico feminino apaixonado. “A Maria Teresa fez uma releitura disso, colocando agora, de fato, uma mulher como autora, reivindicando seu direito à escritura e à própria voz”, diz.

Depois da publicação de Minha Senhora de Mim, o livro foi apreendido, a editora Dom Quixote foi ameaçada de fechamento caso publicasse a poetisa novamente e ela própria foi vítima de atentados. Primeiro começaram a telefonar em sua casa e para o jornal em que trabalhava, depois, um dia, foi espancada por três homens que a atiraram no chão e, sem parar de bater, gritavam: “isto é para aprenderes a não escrever como escreves”. Não funcionou. “Se eu tivesse ficado com medo, nunca teria escrito o Novas Cartas, que nós três resolvemos escrever justamente por causa da repercussão de Minha Senhora de Mim. Há pessoas que não se calam e eu não nasci para me calar”, diz Teresa Horta.

Em 25 de abril de 1974, poucos dias antes de uma audiência judicial que julgaria as três Marias aconteceu a Revolução dos Cravos – “o dia mais feliz da minha vida depois do nascimento do meu filho”, diz a autora –, Marcelo Caetano, que em sua juventude nos anos 1920 já havia perseguido outra poetisa, Judite Teixeira, caiu; o regime acabou; o processo contra elas foi extinto; e Teresa Horta deixou de ser uma autora perseguida em Portugal para se tornar um símbolo literário e de resistência do país. “Dos 15 anos até o 25 de abril, eu só fiz lutar contra o fascismo. Meus livros depois do 25 de abril são outros e diferentes entre si, mas têm uma raiz idêntica, que são as coisas que eu reflito sobre a vida. Minha poesia nunca deixou de ser uma arma”, diz.

Por trás das possíveis razões de Maria Teresa Horta chegar a 2018 como uma autora pouco conhecida na Flip, está o próprio quinhão brasileiro de fascismo. Em 1974, quando o mundo parava para assistir a Revolução dos Cravos e comentava sobre as Novas Cartas Portuguesas, o Brasil vivia os anos de chumbo da ditadura civil militar. Assim, em dezembro do mesmo ano, quando Teresa Horta veio pela primeira vez ao país, foi aconselhada a ser mais cautelosa em seus discursos, a falar mais baixo, a dissimular. Alguém de cima poderia se irritar. Anos mais tarde, em 2007, de visita ao país para um encontro literário na USP, lembrou um episódio acontecido na viagem anterior: “Por último, quando já na pista do aeroporto ia embarcar no avião, de regresso ao Rio, fui barrada por dois indivíduos que se identificaram como sendo da polícia política e me ‘aconselharam’ a voltar no dia seguinte para Portugal”. Claro, ela não obedeceu: “Voltei quando era de voltar”.

É uma escrita transgressora, conquistada a pulso da vida, da existência menor durante séculos imposta às mulheres. Por isso, aquelas que escrevem não podem ter medo de escutar o clamor

Hoje, anos depois, fala que é necessário ainda estar atenta ao “buraquinho” que o fascismo sempre espreita para regressar. E, por isso, diz-se feliz com os rumos do atual Governo de Portugal, encabeçado pelo primeiro-ministro socialista António Costa. “Somos um dos únicos Governos de esquerda em um mundo que está a ver renascer muito do fascismo”. Gostaria de ser até mais atuante, mas expressa seu contentamento com a primavera feminista do mundo e apoia os protestos das atrizes de Hollywood. “Estou contrária às francesas. Elas estão a ver se ganham a simpatia dos homens? É muito feio e muito triste”. diz. A simpatia ou aprovação de ninguém, ecoando a frase do pai que se preocupava com a própria honra na estreia literária da filha, nunca foi necessária, porque não deveria existir.

De sua casa, com caneta em punho, porque só escreve à mão – “uma vez tentei escrever no computador e a poesia desapareceu imediatamente” –, Teresa Horta ama seu passado – “viver em democracia é um sonho realizado para mim e eu vivo de sonhos” –, mas não teme o porvir. Ela, que explica não ter rotina, “porque a rotina é uma coisa anti-poesia”, escreve incessantemente. Ana Maria Domingues conta que em uma viagem pelo interior de Minas Gerais, a poetisa não parava de anotar em um moleskine por nenhum segundo, estivesse sentada ou em pé, andando ou parada. “É assim mesmo, a poesia aparece quando aparece e eu a aceito sempre”, diz. Na mesma conferência da USP, em 2007, falou: “É uma escrita transgressora, conquistada a pulso da vida, da existência menor durante séculos imposta às mulheres. Por isso, aquelas que escrevem não podem ter medo de escutar o clamor”.

Entre a (falta de) rotina imposta pela poesia, a autora ainda trava suas próprias batalhas. Em 2017, rejeitou uma indicação ao quarto lugar do Prêmio Oceanos que dividiria com o escritor brasileiro Bernardo Carvalho. Em uma carta, disse repudiar a classificação dada ao seu romance Anunciações e falou que não o aceitaria “por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobre sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra”. Na época, a romancista Inês Pedrosa disse sobre a questão: “Atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do prêmio representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado”.

Ao EL PAÍS, no final do telefonema, disse, como num último recado: “eu sou minha própria poesia”. A frase, que condensa seu trabalho, vida e batalhas, faz lembrar os versos de Ponto de Honra, em Minha Senhora de Mim:

"Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo o oposto do que ouço

Evito o que me ensinaram
Invento troco disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato

Escrevo
e cuspo na fogueira"

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