FLIP 2018

Pare e leia um poema #2: uma corrente lírica para Hilda Hilst

EL PAÍS encadeia poemas em homenagem à poeta. Nesta segunda semana, Josely Vianna Baptista indica os versos de Antonio Risério

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Inspirada pela poeta Hilda Hilst, homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a corrente poética do EL PAÍS continua. Na semana passada, a indicada por Joselia Aguiar, atual curadora da Flip, foi Josely Vianna Baptista com o poema Guiá Ñandu. Ela agora escolhe Via Papua, do poeta, antropólogo e historiador, Antonio Risério. Os versos do autor, publicados no livro Fetiche, de 1996, são bem conhecidos: foram musicados por Caetano Veloso e gravados pelas cantoras Maria Creuza e Vânia Abreu. O EL PAÍS publicará esta corrente lírica semanalmente até o início da festa literária.

Via Papua

desamarra a quilha, canoa

desamarra a quilha

e voa

(vai pelo ar

pelo mar

e sobre a ilha;

voa sobre o que

se armadilha)

mas voa leve, canoa

e leva uma estrela

na ponta da proa

cruza o mar, a névoa

o peito, a boca, a língua

almas que invadem nuvens

dobras de angra e de íngua

(mas voa leve, canoa

há uma estrada inteira

na ponta da tua proa)

e que o ar mais leve a leve

e faça das algas do céu

a minha única

e exclusiva

coroa,

canoa.

Poeta, escritor e antropólogo, Antonio Risério foi militante estudantil na década de 1960, quando foi preso aos 16 anos. Baiano, natural de Salvador, estuda cultura afro-brasileira e tem mais de quinze livros publicados, entre ficção e ensaios, como O Poético e O Político, de 1988, em coautoria com Gilberto Gil; Caymmi - Uma Utopia de Lugar, de 1993; Oriki Orixá, de 1996; e A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros, de 2007. Risério, que nasceu em 1953, também trabalhou no Ministério da Cultura, durante a gestão de Gilberto Gil e teve participações nas campanhas políticas do PT à presidência.