Pare e leia um poema #1: uma corrente lírica para Hilda Hilst

EL PAÍS publica um poema por semana até a Flip, em que poeta de Jaú será homenageada

Chuva de estrelas
Chuva de estrelasAndres Kudacki (AP)
Mais informações

Para começar a corrente poética, a primeira convidada foi Joselia Aguiar, atual curadora da Flip, que no ano passado chamou atenção ao elaborar uma programação diversa, com grande representação de autoras e escritores negros e negras. Para começar esse primeiro elo da corrente, ela escolheu a poeta e tradutora Josely Vianna Baptista, com seu poema Guirá Nãndu – nome da Constelação da Ema, na cultura Tupi-Guarani –, publicado no livro Roça Barroca, que acaba de ser reeditado pela editora Sesi-SP e será lançado em agosto. Na semana que vem, Vianna, que tem um breve perfil abaixo, escolhe o próximo poeta.

Guirá Nãndu

Para Teodoro (sob a Constelação da Ema, cujas penas são desenhadas por claro-escuros da Via Láctea)

pode que a noite hoje

se furte a amanhecer

a terra desmorone

nos bordos do poente

e outra vez o sol

como antes

não desponte

em busca de outro sol

pode alguém se perder

abandonando o humano

para encontrar seu deus

– o mesmo que ao nascer

deu-lhe um nome secreto

de sua divindade

perfeito e repleto

pode que na viagem

no trajeto disperso

um homem adivinhe

a vereda possível

sem fim, de sol a sol

até que a fome e a febre

o êxtase à flor da pele

a intempérie, a prece

a dança em excesso

transportem o corpo adverso

e o espírito pulse

e respire

e confronte

o mar que o separa

da terra indestrutível

quem sabe o paraíso

que descrevem os antigos

não esteja além do vasto

nevoeiro e sargaço

mas no árduo percurso

vencido passo a passo

sem bússola ou mapa do céu

em pergaminho

talvez além do zênite

que ofusca o caminho

deixando um invisível

roteiro para os olhos

que enfrentam o escuro

entre os dois

crepúsculos

Josely Vianna Baptista é poeta, tradutora e editora. Ela nasceu em Curitiba, no Paraná, em 1957, e vive hoje em Florianópolis. Entre seus livros, estão títulos como Ar, Corpografia, de 1991, editado pela Iluminuras; Los poros floridos, editado no México, em 2002, pela Aldus; Roça Barroca, em que aparece o poema acima e que acaba de ser reeditado pelo Sesi-SP e será lançado em agosto; e da coleção Cadernos Ameríndios, dedicada à cultura de etnias indígenas sul-americanas. Recentemente, ela também criou o site-conceito Na Tela Rutila das Pálpebras.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: