Crise dos combustíveis no Brasil

Pedro Parente pede demissão da Petrobras pressionado por crise dos caminhoneiros

Executivo citou desgaste com paralisação e debate sobre política de preços dos combustíveis. Ivan Monteiro, diretor-executivo da Área Financeira e de Relacionamento com Investidores da estatal, será o CEO interino

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Pedro Parente, presidente da Petrobras, apresentou sua carta de demissão no final da manhã desta sexta-feira, 1° de junho, na esteira da crise provocada pela longa greve dos caminhoneiros que colocou no centro do debate a política de preços de combustíveis da estatal. A mudança foi confirmada pela empresa em comunicado enviado ao mercado e, no final desta tarde, Michel Temer anunciou o nome de Ivan Monteiro, diretor-executivo da Área Financeira e de Relacionamento com Investidores da estatal, como novo presidente da companhia

A reação nas Bolsas à saída de Parente foi imediata. A negociação das ações da empresa chegou a ser paralisada para impedir uma queda vertiginosa, mas, retomadas as transações, tanto no Brasil como no exterior, a companhia, que já havia perdido cerca de um terço de seu valor de mercado com a paralisação, já amargava grandes perdas. A agitação nos mercados não deve cessar tão cedo porque, além da escolha do novo comando definitivo, a ser feito pelo Planalto, está em jogo políticas estruturais na Petrobras.

Em sua carta de demissão enviada ao presidente Michel Temer, Parente cita a crise dos caminhoneiros e deixou claro que mudanças na política de preços dos combustíveis estão sendo discutidas. "Novas discussões serão necessárias. E diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o Governo tem pela frente", escreveu Parente.

Pedro Parente estava no comando da Petrobras desde maio de 2016, escolhido por Temer logo após a saída de Dilma Rousseff. Tudo para marcar uma nova gestão alinhada aos standards de mercado depois de um período de forte intervenção estatal, inclusive no preço dos combustíveis, e o escândalo da Operação Lava Jato. Não faz nem um mês que o então presidente da Petrobras comemorava que a empresa, que tem controle acionário estatal, mas também acionistas privados, havia voltado a ser a companhia mais valiosa do Brasil.

Bastaram dez dias, no entanto, para ele vir seu capital político minguar com a greve dos caminhoneiros. Os grevistas exigiam redução no preço do óleo diesel e criticavam Parente pela extrema volatilidade dos preços nos postos. Desde julho de 2017, a Petrobras passou a cobrar pelo diesel e gasolina de acordo com oscilação do mercado internacional de petróleo e do dólar - não importa que elas fossem diárias. Era uma versão inédita de outros mecanismos de reajuste usados no passado, tendo a cotação internacional como referência. As mudanças constantes já causavam desconforto e havia críticas, por exemplo, à escalada do preço do gás, que penalizava especialmente os mais pobres. Entre a abril e maio, o problema explodiu: por causa de instabilidade em grandes países produtores, como Irã e Venezuela, o barril do petróleo foi de 68 dólares a mais de 80 dólares em semanas. Só no último mês houve mais de uma dezena de flutuação de preços, exibindo a exposição do mercado interno às bruscas oscilações globais. Aí veio a crise dos caminhoneiros.

Primeiro, Parente foi obrigado a ceder: congelou por 15 dias e deu um desconto no diesel no auge da paralisação. Depois, foi o Governo quem apresentou um acordo para estabilizar por pelo menos dois meses o preço do diesel, reduzir 0,46 centavos de real com subsídio - sem prejuízo para a Petrobras. Mas, a essa altura, já era claro que a política de Parente havia deixado de ser um consenso e estava sob intensas críticas. Até entre apoiadores do Governo começaram a surgir as críticas, públicas e privadas, de que a política de preços da estatal era demasiado "radical". Para completar, na última semana Temer deu uma entrevista na qual mencionou que a política de preços poderia ser "reexaminada".

Na carta de demissão, Parente se defende tacitamente das críticas durante o "intenso e por vezes emocional debate sobre as origens dessa crise" que "colocaram a política de preços da Petrobras sob intenso questionamento". "Poucos conseguem enxergar que ela reflete choques que alcançaram a economia global, com seus efeitos no país. Movimentos na cotação do petróleo e do câmbio elevaram os preços dos derivados, magnificaram as distorções de tributação no setor", escreveu também Parente, um quadro considerado de excelência no mercado e historicamente ligado ao PSDB.

Enquanto a Petrobras derretia na Bolsa nesta sexta-feira, uma empresa também sob influência de Pedro Parente subia: a BRF. O executivo foi escolhido há poucas semanas pelos principais acionistas da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, para a presidência do conselho de administração da companhia. Agora, a especulação é que ele poderia ser o CEO da gigante de carnes.

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