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Barça reconquista o Campeonato Espanhol

A equipe azul-grená ganha seu 25º título da competição com quatro jogos de antecedência e sem ter perdido nenhuma partida

Jogadores do Barcelona comemoram sua vitória no campeonato espanhol. Ampliar foto
Jogadores do Barcelona comemoram sua vitória no campeonato espanhol. GTRES

O Barça recuperou neste domingo o título do Campeonato Espanhol, que no ano passado o Real Madri lhe arrebatou, depois de derrotar por 4x2 o Deportivo em A Coruña, com três gols de Messi e um de Philippe Coutinho. A equipe catalã, que dominou claramente a competição, conquistou o campeonato quando ainda tem que disputar mais quatro jogos e sem ter perdido nenhuma partida. Se acabar invicto, conseguirá uma marca que ninguém alcança há 85 anos, quando o Campeonato Espanhol era disputado por apenas 10 equipes.

La Liga foi do Barcelona em sete das 10 últimas temporadas e em nove de um total de 16 desde a estreia de Messi e Iniesta. Como tinham feito Guardiola, Tito Vilanova e Luis Enrique, o atual treinador, Ernesto Valverde, debutou com um título cujo valor é enorme ainda que não emocione tanto como a Champions.

A regularidade pontua menos que a instantaneidade, sobretudo no clube azul-grená, ansioso por recuperar na era de Messi a distância que o Real Madrid ganhou nos anos 60, nos tempos em que era capitaneado por Di Stéfano. A diferença entre ambos no Campeonato, 25 troféus do Barça ante 33 de seu maior rival, se reduziu espetacularmente desde que Johan Cruyff assumiu como técnico em 1990 e mudou a história do time. Nesse período, os catalães conseguiram 15 de seus campeonatos.

A figura de Messi e o know-how de seu treinador lhe sobram para mandar na competição, até mesmo nas condições mais adversas, como foram as últimas, em especial desde que Neymar fugiu para o PSG e deixou impedidos os diretores do Barça. “Teríamos ultrapassado a linha da responsabilidade se houvéssemos contratado dois jogadores por 270 milhões de euros [cerca de 1,1 bilhão de reais]”, afirmou então o clube, depois de descartar a possibilidade de trazer Coutinho e Di María antes do começo do campeonato por causa de seu elevado preço. O brasileiro se incorporou em janeiro por 160 milhões de euros (120 mais 40 em  variáveis) – total de 670 milhões de reais. A quantidade mais alta paga por um jogador na história do Barça, superior até aos 140 milhões (105 mais 35) despendidos por Dembélé, contratado para combater os efeitos do adeus de Neymar.

Apesar de ter atuado no jogo que lhe deu o campeonato, a contribuição de Dembélé tem sido escassa, afetado por uma lesão que o deixou afastado por quatro meses. Nada novo em uma equipe veterana e difícil de renovar se não for pela desistência dos próprios jogadores, como foi o caso de Iniesta, reserva em A Coruña. Nem as contratações nem a base podem competir com os 10 titulares ratificados por Valverde ao longo de quase todo o campeonato.

Não deve ser fácil treinar as estrelas quase intocáveis e menos ainda se contam com a cumplicidade absoluta de uma diretoria que renova seus contratos sem chiar, obrigada porque os títulos mandam e o Barcelona acaba de somar a oitava dobradinha:Campeonato e Copa do Rei. Portanto, é sobretudo uma questão de administrar a equipe e suas partidas, e ler as situações do jogo, tarefas em que Valverde se sobressaiu com a exceção de Roma, onde caiu eliminado da Champions e causou tanta cólera na diretoria que esta chegou a questionar sua continuidade. Uma reação difícil de compreender quando se leva em conta que se previa um ano terrível depois de perder Neymar e ser claramente derrotado pelo Real Madrid na Supercopa da Espanha, o título que abre a temporada.

“Pela primeira vez desde que estou aqui me senti inferior ao Madrid”, confessou Piqué depois da derrota para a equipe de Zidane. “O lema de então era retardar o quanto possível a crise que sabíamos ia nos cair encima”, argumentam no Camp Nou quando se pergunta pela dupla derrota para o Real. O método de Valverde se mostrou tão surpreendente quanto eficaz porque a conjuntura compensava a derrota em um clube depressivo como o Barça.

Ernesto Valverde. ampliar foto
Ernesto Valverde. Getty Images

O clube era um barril de pólvora em razão das disputas internas pelo poder e também pela situação política na Catalunha, já que os azul-grenás sempre foram vistos como “mais que um clube”, um símbolo nacional. Os jogadores, porém, se uniram ao treinador e seguiram em frente enquanto viam o Real hesitar. O time de Barcelona arrancou com sete vitórias consecutivas e deixou na sarjeta a equipe de Zidane. Marcada a diferença, os rapazes de Valverde souberam resolver o renhido embate com o Valencia, o Atlético e o Real Madrid no Bernabéu.

A experiência em equipes como o Athletic, o Espanyol, o Valencia e o Villarreal, assim como o Olympiacos grego, serviu a Valverde para compactar um Barça que se dividia pela metade na última temporada do tridente, Messi-Luis Suárez-Neymar. Jogou com as linhas muito juntas, se tornou forte no meio, às vezes com dois volantes, e sólido nas áreas com a ajuda de um quarto meia ou de um terceiro atacante, conforme o adversário, com frequência mais a gosto com um 4-4- 2 do que com seu tradicional 4-3- 3 –uma mudança que a torcida assumiu sem resmungar. O Camp Nou esteve especialmente despovoado no inverno, quando a média de público caiu em 13.000 espectadores, mas a recuperou com o bom tempo e a fase decisiva na Copa do Rei –também conquistada pelos catalães– e no Campeonato Espanhol.

A temporada foi “especialmente doce”, para usar a terminologia do vestiário do Camp Nou, sem incidentes importantes desde a Supercopa até a eliminação da Champions. A confiabilidade da equipe e o sentido institucional do treinador facilitaram a tranquilidade e também a monotonia, para sorte de um grandioso Messi. O 10 desequilibrava os rivais enquanto Valverde equilibrava o Barça a partir da figura do onipresente goleiro Ter Stegen. O treinador aproximou as posições de Messi e Luis Suárez, e os bons resultados se sucederam: os azul-grenás permanecem invictos e, com 40 partidas sem perder, já superaram o recorde de 38 mantido pela Real Sociedad desde 1980. E Messi aspira a ganhar outra Bola de Ouro.

A equipe de Valverde nunca perdeu o rumo, nem sequer em jogos que pareciam impossíveis, como o de Sevilha, quando empatou (2x2) com meia hora de Messi um duelo que parecia lhe escapar. Embora não tenha sido uma trajetória emocionante, houve picos de jogo interessantes, suficientes para combater a inércia e a rotina, respaldados pela segurança de dois excelentes zagueiros, Piqué e Umtiti, e um lateral exuberante como Jordi Alba.

Ficam para recordação duas partidas antagônicas: o Barça jogou muito mal em Roma e muito bem contra o Sevilha na final da Copa do Rei. Esse dia evocou as melhores noites do time azul-grená, quando no banco se sentava Gaurdiola. Aquele 5x0 permitiu a Valverde responder às críticas pelo adeus europeu e àqueles que entendem que a equipe perdeu estilo e identidade, sobretudo pela pouca presença de jogadores da base, nula no onze.

Embora o balanço final dependa de saber se seu principal rival, o Real Madrid, ganha a Champions, a recordação da história convida a uma grande festa em Barcelona: em um ano em que tudo parecia a caminho do desastre, conquistou o Campeonato Espanhol e a Copa do Rei sem levantar a voz, com a normalidade dos campeões, como antes fazia o Real Madrid e há anos o Barça faz.

Messi, com Schar, no jogo contra o Deportivo de A Coruña. ampliar foto
Messi, com Schar, no jogo contra o Deportivo de A Coruña. EFE

 

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