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O que acontece com o Barça se a Catalunha ficar independente da Espanha?

Em princípio, o Barcelona ficaria de fora da Liga espanhola e das competições internacionais

FC Barcelona
Camp Nou vazio durante o jogo entre Barcelona e Las Palmas, no domingo REUTERS

A possível proclamação unilateral de independência da Catalunha afetaria a inclusão de clubes esportivos catalães nas competições espanholas das quais hoje participam. No caso do futebol profissional (clubes de primeira e segunda divisão), Barcelona, Espanyol, Girona, Nàstic e Reus se veriam imediatamente afetados pela declaração de uma suposta República Catalã. O mesmo ocorreria com os demais times que competem na Segunda Divisão B e Terceira (o terceiro e quarto escalões do futebol espanhol, respectivamente).

“Frente à complexidade do que possa acontecer no futuro com a independência da Catalunha, onde o Barça poderá ou não jogar é algo que abordaremos com a diretoria quando for a hora, e o faremos com seny [sensatez], como dizemos aqui”, afirmou nesta terça-feira o presidente do Barcelona FC, Josep Maria Bartomeu, mostrando que, por enquanto, o clube não tem um plano preparado.

Se a Catalunha se constituir como um Estado independente, e atendendo à lei esportiva que vigora em toda a Espanha, todos os clubes catalães ficariam de fora das competições espanholas, pois violariam requisitos estabelecidos nas regras. Conforme o artigo 6º. da seção 4ª. da Lei 1835/1991, “para a participação de seus membros em atividades ou competições esportivas oficiais de âmbito estatal ou internacional, as Federações esportivas de âmbito autonômico dever-se-ão integrar às correspondentes Federações esportivas espanholas”. Ao constituir o novo Estado catalão, a Federação Catalã de Futebol deixaria de representar uma comunidade autônoma espanhola, sendo, portanto, automaticamente excluída da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF).

O artigo 99 do regulamento também estabelece que “todos os clubes que desejarem participar de competições oficiais em nosso país deverão estar filiados à Real Federação Espanhola de Futebol e integrados a estas, e também na federação de âmbito autonômico da qual sejam membros”.

Javier Tebas, presidente da Liga espanhola, disse que também na sua avaliação o Barcelona seria impedido de disputar competições “A Lei do Esporte inclui uma disposição adicional segundo a qual somente há um Estado não espanhol que pode jogar a Liga ou as competições oficiais espanholas, e este é Andorra. Para fazer essa modificação [para incluir a Catalunha], seria preciso haver uma alteração no Parlamento, e é preciso ver se o setor afetado estaria ou não de acordo”, afirmou o dirigente em setembro passado. Tebas respondia assim às declarações de Gerard Esteva, presidente da União de Federações Esportivas da Catalunha e do Comitê Olímpico Catalão (COC), segundo quem “numa Catalunha independente o Barça teria a sorte de poder escolher em qual Liga jogar”. O COC, por sua vez, enviou uma carta ao Comitê Olímpico Internacional antes da realização do referendo solicitando seu reconhecimento “como membro de pleno direito” caso o sim vencesse nas urnas – em uma votação que a Justiça espanhola disse ter sido ilegal.

Diante dos diversos regulamentos aplicáveis, as únicas formas de o Barcelona disputar o Campeonato Espanhol em caso de separatismo seriam com uma modificação na Lei do Esporte – a qual deveria ser proposta e aprovada no Parlamento espanhol, reconhecendo a excepcionalidade da Catalunha e equiparando-a ao Principado de Andorra – ou filiando-se a outra federação regional subordinada à RFEF.

Além de serem excluídos das competições espanholas, os clubes catalães também ficariam inicialmente de fora de qualquer torneio internacional, como a Champions League e a Liga a Europa. Os clubes locais só poderiam disputar vagas em torneios continentais depois que a Catalunha solicitasse à UEFA a criação de uma liga própria.

Exemplos na França e Inglaterra

Dois clubes não ingleses (Cardiff City e Swansea, ambos do País de Gales) disputam o Campeonato Inglês. Esses dois times foram autorizados pela Football Association (federação inglesa) para participar de sua competição porque Gales pertence ao Reino Unido, assim como a Inglaterra, e houve um acordo com a federação inglesa para que os dois times da região vizinha fossem incorporados. Cardiff e Swansea iniciaram sua participação das categorias inferiores do futebol inglês até ascenderem por méritos próprios à divisão principal. Caso oposto ao do Cardiff e do Swansea acontece com o Celtic e o Glasgow Rangers. Nos últimos anos, os dois mais poderosos clubes da Escócia manifestam interesse em disputar a liga inglesa, mas ainda não houve um acordo nesse sentido.

Algumas vezes foi mencionada a possibilidade de o Barcelona solicitar sua adesão à Ligue 1 (Campeonato Francês), amparando-se no exemplo da AS Monaco, um clube sediado no Principado de Mônaco, minúsculo país soberano encravado no litoral sul da França. A diferença é que o Mônaco, fundado em 1924, participou da primeira edição da Ligue 1, na temporada 1932-1933, depois de alcançar um acordo esportivo, tornando-se uma das equipes históricas do futebol francês.

Para que qualquer das duas possibilidades anteriores chegasse a valer, a UEFA e a FIFA deveriam se posicionar favoravelmente depois que Catalunha fosse reconhecida como comunidade política independente.

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