Macron ataca isolacionismo, nacionalismo e guerra comercial em discurso no Congresso dos EUA

Após dois dias de afagos com Trump, presidente francês mostra divergências e defende multilateralismo

O presidente francês, Emmanuel Macron, é aplaudido no Congresso. Atrás, à esquerda, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, e o líder do Congresso, Paul Ryan
O presidente francês, Emmanuel Macron, é aplaudido no Congresso. Atrás, à esquerda, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, e o líder do Congresso, Paul RyanCHIP SOMODEVILLA (AFP)

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Plantaram um carvalho em frente à Casa Branca. Trocaram beijos e apertos de mão na frente das câmeras. Cobriram-se de elogios no jantar oficial. Donald Trump e Emmanuel Macron construíram um relacionamento privilegiado. O presidente dos Estados Unidos jamais demonstrou tanta deferência a um mandatário estrangeiro. Antes dessa visita oficial, encontraram-se em seis ocasiões e conversaram 25 vezes por telefone. Um número imenso para alguém que falou apenas uma vez em cinco meses com Angela Merkel. “É que gosto muito de Macron”, brincou Trump na frente dos jornalistas.

Se com Macron o presidente dos Estados Unidos encontrou o interlocutor que lhe dá a pátina de estadista, o francês encontrou em Trump a fórmula mestra de sua política externa. Com ele do lado, pode demonstrar amizade com o ogro isolacionista e brilhar por si próprio. “A convicção de Trump de que os EUA não precisam lidar com todos os problemas internacionais é uma forma de desocidentalizar a política externa que se ajusta à visão francesa”, diz Célia Belin, especialista do think tank Brookings Institution.

É uma relação simbiótica que abre, para a diplomacia francesa, um espaço monopolizado durante anos por Barack Obama. O recuo internacional de Trump permite que Paris recupere terreno para exercer sua autonomia e grandeur. Aconteceu há um ano com a mudança climática. E também ontem com o discurso de Macron no Congresso dos Estados Unidos.

Seu discurso teve um tom simbólico. Em outro 25 de abril, o de 1960, o general Charles De Gaulle falou ao povo norte-americano daquela mesma tribuna. Na ocasião, o presidente francês falou de igual para igual com os Estados Unidos e defendeu o valor de sua amizade. Macron repetiu o gesto.

Desde o início, o presidente francês quis deixar claro que o vínculo entre as duas nações é mais profundo do que qualquer avatar diário. Citou seus ideais compartilhados, a luta contra o nazismo e a dor acumulada na defesa da democracia. “Nossas nações sofreram por seus valores.”

Diante de um auditório atento, que irrompia em aplausos constantes, Macron recordou o lema revolucionário de “viver livre ou morrer” e colocou a defesa da democracia como um horizonte histórico. Mostrou aí todo o seu carisma, aquele brilho que cativou a França e grande parte da União Europeia.

Após dois dias em que se apresentou ao mundo como grande amigo de Trump, o presidente francês aproveitou a oportunidade para marcar as diferenças e atacou o isolacionismo e o nacionalismo tão apreciados por seu anfitrião. “É um momento crítico, se não agirmos como uma comunidade global, nem a ONU nem a OTAN conseguirão manter a estabilidade.” Diante dessa ameaça, defendeu um “multilateralismo forte” como a pedra angular da nova ordem mundial.

Nesse ponto, Macron decidiu lançar toda a artilharia. Começou rejeitando a guerra comercial promovida pela Casa Branca – “nós escrevemos as regras, nós devemos segui-las”. Continuou com a defesa do pacto nuclear com o Irã que Washington demonizou – “não o abandonemos”. E culminou na luta contra a mudança climática. Uma iniciativa global que Trump abandonou ruidosamente, deixando os EUA como o único país do mundo fora do Acordo de Paris. “Estamos sacrificando o futuro de nossos filhos. Não há planeta B e teremos que enfrentar o desafio e trabalhar juntos. Tenho certeza de que os EUA voltarão para o pacto.”

No fim do discurso, Macron retornou a De Gaulle e à ligação com o povo norte-americano. “Estes são tempos de determinação e coragem. O que amamos está em perigo. Não temos escolha a não ser vencer. E, juntos, vamos vencer.” Despediu-se em francês, dando vivas à amizade. O aplauso do Congresso dos EUA foi estrondoso.