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EUA e China entram em guerra comercial de grande escala

As duas maiores economias do mundo se desafiam anunciando tarifas no valor de 50 bilhões de dólares.

Apesar de Trump e Xi Jinping se mostrarem próximos, a disputa econômica segue caminho diferente

A Saca de Nova York, nesta quarta-feira.
A Saca de Nova York, nesta quarta-feira. AFP

Os bombardeios estão só começando, mas a guerra já foi declarada. Os Estados Unidos anunciaram tarifas sobre a importação de 1.300 produtos chineses no valor de 50 bilhões de dólares e a China contra-atacou anunciando sua própria lista, com um valor similar. A Bolsa se ressentiu e as indústrias afetadas de cada lado do Pacífico estão em suspense, mas as consequências do enfrentamento das duas maiores economias do mundo são globais. Nas brigas de elefantes, dizem, quem mais sofre é a grama que está embaixo.

A relação entre Washington e Pequim é complexa. Donald Trump, que tem uma queda por líderes autoritários, já expressou simpatia por Xi Jinping e elogiou sua decisão de perpetuar-se no poder mediante uma reforma constitucional. Ambos os líderes conseguiram coordenar-se em uma questão complicada como a norte-coreana, tendo a China concordado em aumentar a pressão sobre Pyongyang e abrindo a porta para uma possível cúpula histórica entre o presidente norte-americano e Kim Jong-un a fim de negociar a desnuclearização de seu hermético país. Mas a promessa trumpista de reduzir o déficit comercial segue um caminho diferente e o republicano não está disposto a ceder.

O Governo norte-americano detalhou na terça-feira a lista de 1.300 produtos chineses submetidos a tarifas de 25% e que inclui bens de alto valor agregado, como aparelhos eletrônicos, maquinário industrial e produtos químicos e farmacêuticos. Em poucas horas, o Governo chinês respondeu anunciando a mesma taxação para 106 produtos norte-americanos, entre os quais estão as joias da exportação: aviões, automóveis, produtos químicos e soja. A China não especificou quando suas tarifas entrarão em vigor e as condicionou aos movimentos de Washington, que dificilmente mudará de posição.

Os EUA são o segundo maior exportador mundial, mas seu déficit comercial (a diferença entre o que importa e o que exporta) chegou a 556 bilhões de dólares em 2017, o ponto mais alto desde 2008. A China está por trás do grosso dessa defasagem, com 375,2 bilhões, e aproveita regras de jogo que Washington não considera justas. Além de operar com padrões trabalhistas e sociais distantes dos dos EUA, Trump acusa os chineses de roubo sistemático de propriedade intelectual e de apropriar-se de tecnologia alheia.

“Não estamos em uma guerra comercial com a China, essa guerra foi perdida há muitos anos por pessoas estúpidas ou incompetentes que representavam os EUA”, disse Trump no Twitter. “Agora temos um déficit comercial de 500 bilhões por ano, com roubo de propriedade intelectual na ordem de 300 bilhões. Não podemos permitir que isso continue!”, acrescentou. O regime chinês limita rigorosamente os setores em que os estrangeiros podem investir no país e impõe a associação com uma empresa local em outros. Os EUA asseguram que as empresas norte-americanas são forçadas a entregar sua tecnologia aos rivais locais para ter acesso ao poderoso mercado, algo que Pequim nega. Washington, UE e Japão somaram forças contra a China na cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Buenos Aires em dezembro passado.

Vítimas colaterais

Desta vez, no entanto, Trump age sozinho, ativando uma guerra comercial que, em uma economia globalizada, faz vítimas colaterais fora das potências envolvidas. Há poucas semanas, em seu giro protecionista, chegou a anunciar tarifas sobre o aço de parceiros como União Europeia, Canadá e México, mas logo os isentou. Com a divulgação da lista, a China quis deixar claro quais serão suas cartas se Trump optar pela via dura. Também espera que a nada arbitrária seleção de produtos obrigue o presidente norte-americano a buscar uma solução negociada: a maioria das importações no alvo, especialmente a soja e os carros, é produzida em estados de maioria republicana.

“Nenhuma tentativa de pôr a China de joelhos por meio de ameaças e intimidação jamais teve sucesso e não o terá desta vez”, declarou o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Geng Shuang, segundo informa a AFP. A China, disse, está disposta a dialogar em matéria comercial, “mas a oportunidade de consultas e negociação foi omitida pelos EUA diversas vezes”, em referência aos vários pedidos recentes que o país enviou a Washington através da OMC.

Wilbur Ross, secretário de Comércio dos EUA, minimizou a escalada tarifária e disse que a medida chinesa terá pouco efeito, já que só afeta 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB).

Nos últimos dias, China e EUA já oficializaram aumentos de tarifas alfandegárias no valor de 6 bilhões de dólares (3 bilhões de cada lado) que afetam o aço e o alumínio chineses, por um lado, e a carne suína, certas frutas, vinho e tubos de aço dos EUA, por outro. São cifras mínimas tendo em conta que o comércio bilateral movimentou 630 bilhões de dólares no ano passado. Mas a entrada em vigor desta segunda rodada de tarifas significaria um aprofundamento do conflito.

 

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