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Embate comercial entre EUA e China pode afetar Brasil com batalha protecionista

Sobretaxa ao aço imposta por Trump fez gigante asiático elevar impostos sobre produtos dos EUA. Chineses são principais parceiros do Brasil, seguido por americanos.

Nozes importadas dos EUA em supermercado de Pequim. Produto entrou na lista de itens sobretaxados.
Nozes importadas dos EUA em supermercado de Pequim. Produto entrou na lista de itens sobretaxados. AP

Se o principal parceiro comercial do Brasil entra em queda de braço com o seu segundo principal parceiro qual será a consequência? Essa é a dúvida aberta desde que a China – número 1 em trocas comercial com o mercado brasileiro – e os Estados Unidos – o número 2 – entraram em pé de guerra. A disputa entre as duas maiores economias do mundo se acirrou nesta segunda-feira após a China anunciar um aumento de até 25% sobre 128 produtos - de carne suína congelada a algumas frutas - dos Estados Unidos. As novas taxas são uma resposta à decisão do presidente americano, Donald Trump, de sobretaxar a importação de aço e alumínio. O contra-ataque chinês ocorre após semanas de ameaças, em meio à escalada de tensões entre os dois países, o que alimenta temores de uma guerra comercial aberta entre os dois gigantes. As bolsas de valores americanas fecharam em queda, nesta segunda, puxadas por perdas nas ações de empresas de tecnologia e medo dos investidores diante da escalada da tensão comercial entre os EUA e a China. No Brasil, o mercado financeiro seguiu a tendência. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, fechou em queda de 0,82%.

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, a princípio, apesar da volatilidade nas bolsas, a medida anunciada nesta semana não gera grandes impactos para o comércio global e tampouco para o Brasil. Teoricamente, um aumento de taxa sobre a importação da carne suína americana poderia, inclusive, ser positivo para o mercado brasileiro, hoje com capacidade ociosa. "O Brasil poderia aumentar a produção para atender uma eventual necessidade da China que deixaria de comprar dos americanos carne suína, o que nos beneficiaria. Mas essa sobretaxa foi apenas um aviso dos chineses para os EUA. Eles querem mostrar que podem adotar medidas mais duras", explica José Augusto Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

E são exatamente os próximos passos desse embate que podem causar estragos globais. "Se essa guerra se prolongar e os valores de tarifas aumentarem, o Brasil vai sair perdendo junto com o resto do mundo", explica Castro. Por enquanto, as tarifas anunciadas pelo governo chinês devem afetar importações avaliadas em três bilhões de dólares, um valor pequeno se comparado ao mais de dois trilhões de dólares que o gigante asiático importa dos EUA. "Se esse número de tarifas cresce, a economia será afetada como um todo, muda a demanda, vários países podem começar a levantar barreiras, o que impacta diretamente na cotação das commodities. Aí sim várias economias seriam prejudicadas, porque os preços das commodities iria lá para baixo", explica. Para Castro, precisamos torcer para que essa guerra comercial não passe de uma pequena batalha.

Na opinião de Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, a briga entre chineses e americanos é uma péssima notícia para o Brasil. "Justamente quando o país está, aos poucos, tentando aumentar sua inserção no mercado global, ele se torna imprevisível. O pouco que o Brasil pode aproveitar de algumas barreiras aos EUA não se compara com a instabilidade que a guerra comercial entre China e EUA pode provocar", afirma Stuenkel.

Segundo o professor, uma das oportunidades que poderiam aparecer para o mercado brasileiro numa nova escalada de protecionismo seria se a China decidisse impor tarifas contra a soja americana. "Isso criaria um impacto brutal para a relação bilateral dos dois países já que é um dos principais produtos que os EUA mandam para o gigante chinês. E com a soja cara, o Brasil [que já exporta mais de 80% do seu produto para os chineses] poderia aumentar sua escala", explica .

Por enquanto, no entanto, a resposta da China é bastante moderada, segundo Stuenkel. "O que já era esperado. A China é altamente dependente das importações e sairia perdendo caso não desse uma resposta forte aos EUA", diz.

Abrão Neto, secretário de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), disse nesta segunda-feira que é muito cedo ainda para avaliar o real impacto do aumento da tarifa da China. No entanto, pontuou, em coletiva de imprensa, que uma escalada das tensões comerciais pode ser “muito prejudicial” para a economia global.

Neto mostrou-se preocupado, entretanto, com as tarifas impostas sobre as importações de aço brasileiro. Ele afirmou que o Governo pode mudar inclusive a projeção para o superávit da balança comercial de 2018, estimada em 50 bilhões de dólares, caso as tarifas não sejam suspensas.

No início de março, Trump anunciou um tributo de importação de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio vindo de outros países. A justificativa do presidente norte-americano é que a ação irá proteger a indústria siderúrgica dos Estados Unidos, que convive com uma concorrência "injusta". Antes da medida entrar em vigor, Trump suspendeu temporariamente  as novas tarifas para o Brasil, Coreia do Sul, Argentina e União Europeia. A ideia do governo americano é negociar com cada um desses países até o final de abril. 

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