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Trump inicia guerra tarifária do aço e alumínio por “segurança nacional”

Presidente dos EUA impõe aumentos unilaterais ao aço (25%) e ao alumínio (10%).

Trump exclui México e Canadá e modera o golpe para os países com superávit com os EUA

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O presidente Donald Trump, hoje na Casa Branca. AP

A América primeiro. Fiel a seu lema de campanha, Donald Trump apelou à “segurança nacional” para detonar uma guerra comercial planetária e anunciar o aumento das tarifas sobre o aço (25%) e o alumínio (10%). A medida, um símbolo do efervescente nacionalismo que se apoderou da Casa Branca, é moderada por critérios de flexibilidade para países aliados e pela exceção do México e do Canadá. Apesar disso, não deixou de gerar temor acerca de um terrível efeito dominó em escala mundial. Um jogo de resistências e represálias de consequências imprevisíveis.

O presidente dos EUA não parou de rugir nesta semana. Mas o alcance de sua mordida era um mistério. Pressões de todo tipo, dentro e fora da Casa Branca, faziam os especialistas crer que diminuiria a dureza de sua iniciativa e aplicaria critérios de exceção a países com os quais tivesse colaboração militar ou superávit comercial. Também era tido como certo que Canadá e México ficariam de fora. Mas não se sabe ainda o rumo da relação com o Brasil, por exemplo.

“As tarifas de ambos os países serão revisadas dentro da negociação do Tratado de Livre Comércio na América do Norte que está sendo desenvolvido neste momento”, disse à emissora Fox o assessor comercial Peter Navarro, principal mentor da medida. “Temos de proteger nossa indústria do aço e do alumínio, e, ao mesmo tempo, demonstrar grande flexibilidade e cooperação para nossos amigos reais e aqueles que nos tratam com justiça tanto no âmbito comercial como no militar”, afirmou o presidente pelo Twitter.

Foram boas palavras para uma proclamação que, ao final, adotou o discurso mais duro: o da segurança nacional. O argumento da Casa Branca é que a alta dependência do aço e do alumínio estrangeiro põe em risco o setor armamentista. Além de o país comprar cinco mais vezes alumínio do que consome e ser o maior importador mundial de aço, sua indústria “foi dizimada por décadas de importações a preços mais baixos que o dos produtores nacionais”. O efeito, para Trump, é duplo: ameaça a segurança em caso de bloqueio exterior e prejudica a malha industrial com perdas maciças de emprego. Resultado: é preciso impor barreiras tarifárias.

O passo representa uma volta ao modo de combate e permite a Trump fazer o papel de que sempre gostou: o do outsider que enfrenta sozinho a injustiça universal. Para o presidente, o déficit comercial dos EUA, que ele calcula em 800 bilhões anuais, é a materialização de um fracasso histórico. Um descuido dos interesses nacionais em favor de outros países. “Fomos maltratados como nação durante muitos anos; todos tiraram vantagem de nós, e isso não vai voltar a acontecer nunca mais. As guerras comerciais não são tão más. Porque somos mais poderosos que eles”, chegou a dizer.

A partir desse ponto de vista, a punição dos que se aproveitam dos Estados Unidos é uma resposta natural. O que para o resto do planeta é puro isolamento para Trump representa justiça. E, certamente, votos. O conflito comercial, apesar de moderado pelas exceções, condiz com sua narrativa antiestablishment. É a lição que dá ao mundo o homem que não está submetido aos interesses do aparato do poder nem do multilateralismo.

Embora ninguém chegue tão longe, não são poucos os economistas que o acompanham nessa viagem. Nos EUA, o vultoso déficit comercial é visto como um desequilíbrio profundo que tem na China seu principal beneficiário. “Não encontramos cooperação da Europa nem de outros aliados, e o déficit é grande demais. As tarifas sobre o aço e o alumínio beneficiarão os EUA. É o que se precisa fazer. Mas se trata apenas de um primeiro movimento, agora resta ver o que acontecerá com a Europa e a China”, diz ao EL PAÍS o professor Peter Morici, da Universidade de Maryland, ex-diretor econômico da Comissão de Comércio Internacional dos EUA.

O medo do efeito dominó e de um aumento do isolamento internacional dos EUA está na mente de todos. A guerra tarifária, à parte do choque com a Organização Mundial de Comércio (OMC), pode intensificar a perda de influência de Washington e gerar ressentimentos profundos nos aliados. “A retórica de tudo ou nada de Trump está convencendo um número crescente de norte-americanos de que não lhes interessa se desconectar da economia global. E isso é bom, porque os EUA florescem quando estão conectados, não isolados”, disse o Instituto de Políticas Progressistas.

Diante desses alertas, a oposição interna não parou de crescer. No Governo, a principal resistência veio do diretor do Conselho Econômico Nacional, o influente Gary Cohn, que anunciou seu afastamento em consequência do crescimento da facção nacionalista representada por Navarro. A iniciativa também não foi bem recebida em Wall Street. Nem pelo Partido Republicano, cujos principais líderes, alarmados com os possíveis efeitos eleitorais, mostraram-se contrários. Trump, contudo, não tirou o pé do acelerador. Convencido de que está do lado certo da história, deu o primeiro passo. O segundo está por vir.

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