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Em três dias, Temer lança a si mesmo e a Meirelles para a sucessão no Planalto

Movimentos pretendem testar a aprovação do MDB e dar espaço a ministro da Fazenda para tentar se viabilizar

Temer e Meirelles em fevereiro, em Brasília.
Temer e Meirelles em fevereiro, em Brasília. REUTERS
Brasília / São Paulo

Um Governo impopular, dois candidatos que não atingem os 2% de preferência do eleitorado e a eleição presidencial mais indefinida em décadas. Foi neste quadro que a gestão Michel Temer (MDB) decidiu agir nos últimos dias para despejar mais espuma no panorama e testar sua força eleitoral, ancorada no comando da máquina e no tempo de TV de seu partido e embaralhando uma campanha ainda mais sui generis após a confirmação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em segunda instância que pode deixá-lo fora da corrida.

Quem capitaneia o processo nas hostes governistas é o próprio Temer. Na sexta-feira, ele confirmou à revista IstoÉ que pretende se candidatar à reeleição para defender seu legado e sua honra pessoal. “Seria uma covardia não ser candidato”. Na segunda-feira, anunciou ao Estadão que seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD) vai se desligar da pasta e de seu partido para tentar viabilizar seu nome ao Planalto. “Já era a intenção dele. Acertamos nesses últimos dias”, afirmou o presidente.

Em entrevista coletiva em Porto Alegre, Meirelles disse que sua decisão sobre a candidatura sai até o início da próxima semana. Para embasá-la, contratou uma série de pesquisas qualitativas que mostrem o que o eleitor brasileiro espera de um presidente. Além disso, espera as conversas com sua atual legenda e com o MDB. “O PSD tem outro projeto. Não acredito que o PSD vá ter um candidato próprio a presidente”.

No MDB, conforme o EL PAÍS apurou, Temer é a aposta principal. Meirelles é o plano B ou um nome para compor a chapa – algo que ele já declarou não estar tão apto. “Já fui chamado para ser vice duas vezes. Não aceitei”, ponderou o ministro. Ambos terão ao seu favor a máquina governamental: nomeação de nomes para cargos-chave da administração pública e a liberação de recursos para determinados grupos em ano eleitoral são uma das principais armas dos governantes que tentam se reeleger ou eleger os seus sucessores.

O que pesa contra o presidente são sua impopularidade recorde (60% o rejeitam, conforme o Datafolha) e os três processos criminais que tramitam contra ele: duas denúncias engavetadas pela Câmara, mas que ainda devem ser analisadas após ele perder o foro privilegiado, e uma apuração relacionada ao decreto dos Portos que pode desaguar em uma terceira denúncia em pleno ano eleitoral. Já contra Meirelles estão a falta de carisma, o desconhecimento da população e um partido que esteja completamente empenhado em defendê-lo - a favor, o apoio de parte do alto empresariado, do mercado financeiro e, por enquanto, a baixa rejeição ao seu nome, que é de 19%.

Dentro do MDB há quem julgue que Meirelles não conseguiria agradar todas as alas. Temer, que por anos foi o presidente do partido, tem certa vantagem em relação ao seu ministro porque em Estados onde havia alguma divergência, ele agiu para trocar o comando, aumentando o apoio ao seu nome. Foi o caso de Pernambuco, em que destituiu o grupo vinculado ao deputado Jarbas Vasconcellos, e do Paraná, onde tenta enfraquecer o comando do senador Roberto Requião, uma das vozes opositoras de Temer no Congresso Nacional.

Quem é o mais apto para unir a centro-direita?

O principal desafio de qualquer nome do MDB é o de manter os seus partidos aliados próximos a si. Vários já deixaram ou estão em vias de abandonar o Governo Temer. Seus principais adversários nessa busca por aliados são Geraldo Alckmin (PSDB) e Rodrigo Maia (DEM), que disputam com o MDB o título de vetor mais apto para unir a centro-direita. O partido de Alckmin já entregou seus cargos e tenta atrair o apoio de outro governista, o PSD de Meirelles e Gilberto Kassab (ministro das Ciências e da Comunicação). Já a legenda de Maia tem um leque mais amplo de apoiadores. O DEM negocia com os governistas PR, PP, PPS e PRB. Este último em negociação com o deputado de extrema direita e segundo colocado nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL). Um dos indicadores de como caminharão os partidos será a reforma ministerial que Temer concluirá até o dia 7 de abril.

Até o momento, a falta de um cenário tão claro na disputa eleitoral tem ocasionado uma disseminação de candidaturas. Além de Maia, que tem percorrido o país com recursos da Presidência Câmara para tentar viabilizar o seu nome, outros azarões lançam seus nomes ao público. É o caso de Paulo Rabello de Castro (PSC), atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As demais candidaturas ou são de políticos sem vinculação direta com Temer – como João Amoêdo (NOVO), Fernando Collor (PTC) e Álvaro Dias (Podemos) – ou transitam no campo da esquerda e dificilmente impactarão nos movimentos feitos pelos candidatos governistas. Neste grupo estão Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Manuela D’ávila (PCdoB) e o ex-presidente Lula.

Substituto terá que frear gastos eleitoreiros

A já esperada saída de Henrique Meirelles do ministério da Fazenda não deve, a princípio, impactar a agenda econômica da pasta até o fim do ano. Segundo especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, já havia uma expectativa muito grande de que ele iria concorrer nestas eleições e o grosso da gestão Meirelles foi realizado no ano que passou. "Ninguém tinha expectativa de novas aprovações. A grande promessa da Reforma da Previdência já tinha perdido fôlego no fim de 2017. O certo é que Brasília está agora apenas ancorada na questão da corrida eleitoral", explica Sérgio Rodrigo Vale, economista da MB Associados. Ainda segundo Vale, o desafio para o substituto de Meirelles será impedir que as pretensões eleitorais do presidente Temer gerem gastos extras. "Se o novo ministro da pasta conseguir segurar isso, já está de bom tamanho".

Meirelles sugeriu ao presidente Temer os nomes dos secretários da Fazenda Mansueto de Almeida (Acompanhamento Fiscal) e Eduardo Guardia (Secretaria Executiva) para substituí-lo no cargo. A visão do ministro é de que manter a continuidade na equipe é a melhor opção para evitar qualquer complicação na reta final do mandato de Temer. O presidente, no entanto, ainda não tem uma posição fechada sobre o tema. "Meirelles sairá da pasta deixando como opção duas pessoas com condutas bem similares a deles. Seria preocupante se ele estivesse saindo em algum momento polêmico", afirma Camila Abdelmalack, economista da Capital Markets.

Na avaliação de Pablo Spyer, da corretora Mirae Asset, Meirelles foi um dos pilares para a sobrevivência do Governo Temer e sua saída, ainda que já aguardada, pode gerar um ruído para os investidores estrangeiros. "Ele é extremamente competente para o cargo e dava credibilidade internacional à equipe econômica brasileira. Meirelles trazia muita tranquilidade aos investidores e agora perdemos isso", explica.

Queridinho do mercado financeiro, Meirelles se despede do ministério com algumas conquistas econômicas, mas uma recuperação até agora tida como lenta demais para conseguir impulsionar uma candidatura governista. Na visão do próprio ministro, a maior delas é ter tirado o Brasil da maior recessão das últimas décadas. A equipe liderada por ele também deixa uma inflação bem abaixo da meta, juros em queda, e uma incipiente melhora na taxa de desemprego no país. Ainda que não tenha conseguido passar as polêmicas mudanças nas regras da Previdência, ele foi ovacionado pelo mercado e por empresários por ter apoiado a reforma trabalhista. Meirelles também deixa um legado junto ao Governo Temer que poderá ser sentido a longo prazo: a regra do teto dos gastos.

Nada desta lista de conquistas, no entanto, garante popularidade ao futuro candidato a vice ou à presidência. "Meirelles terá que fazer um esforço maiúsculo para tentar convencer o eleitorado que ele é a pessoa certa para o país não pela parte econômica, mas pela social. O que não é um discurso dele", explica Vale. Em sua caminhada eleitoral, também não o ajuda o fato de ter sido ministro de um Governo extremamente impopular. Em uma eleição que será marcada por uma grande quantidade de nomes - muitos deles que apavoram o setor financeiro - o que se pode esperar é um segundo semestre tumultuado e marcado por um mercado volátil.

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