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Na janela pré-eleitoral, procura-se deputado. Valor: dois milhões de reais

Nos próximos 30 dias entre 60 e 90 deputados federais negociam trocar de partido com vistas às eleições de outubro

O plenário da Câmara, em Brasília.
O plenário da Câmara, em Brasília. Luis Macedo

Estão oficialmente abertos o balcão de negócios e a temporada de caça a congressistas brasileiros. Nos próximos 30 dias entre 60 e 90 deputados federais negociam trocar de partido com vistas às eleições de outubro. A primeira leva de mudanças, começa já nesta quinta-feira, quando sete parlamentares oficializam suas entradas no PSL juntamente com Jair Bolsonaro, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, de extrema direita, que pretende se candidatar à presidência da República. Outros 13 deverão chegar e dois já anunciaram suas saídas.

Nesta quarta-feira, um ato do PSL serviu para anunciar o ingresso do militar da reserva e de seu séquito inicial, formado principalmente por deputados da bancada da bala. Dois delegados, um major da Polícia Militar e um policial federal que são parlamentares anunciaram a filiação em um ato marcado por manifestações contrárias às políticas de direitos humanos e que defendia o armamento da população.

As movimentações no Legislativo visam as eleições deste ano e ocorrem no período batizado de janela partidária, que é quando um político com mandato pode trocar de legenda sem que sofra qualquer punição da Justiça eleitoral. O troca-troca, contudo, não envolve o recebimento direto de recursos ou o aumento do tempo de propaganda em rádio e TV. Os valores do fundo partidário (888 milhões de reais) e do fundo eleitoral (1,71 bilhão de reais) tomam como base a composição do Congresso Nacional no ano de 2017. E o tempo de propaganda leva em conta o resultado eleitoral de 2014. De qualquer forma, o que deve alterar é o comando dos diretórios regionais, os palanques para candidatos do Executivo e a venda de apoios em eventuais segundos turnos (tanto para concorrentes à presidência quanto aos governos estaduais).

E a escolha de bons puxadores de votos para as eleições conta muito nessa hora. Quanto mais parlamentares eleitos em 2018, mais recursos as legendas terão para si nos pleitos de 2020 (durante eleições municipais) e de 2022. Por essa razão, há partidos que oferecem até 2 milhões de reais para atrair deputados. O MDB, hoje a maior bancada da Câmara, definiu a cota de 1,5 milhão para todos os parlamentares que se juntarem aos seus quadros. Sua dificuldade, porém, será a de cumprir a promessa caso decida lançar um candidato próprio à presidência e diversos concorrentes a governos estaduais. O tamanho do bolo para este partido é o mesmo – 234 milhões de reais para serem divididos entre todos os concorrentes.

O DEM, outro que tem se movimentado intensamente desde meados do ano passado, não estipulou valores ainda, mas cederá os comandos dos diretórios regionais para seus novos filiados a partir deste mês. “Passamos por um crescimento consistente. A nossa estratégia é dar o conforto nos Estados o controle partidário. Temos uma espinha dorsal ideológica muito clara. Quem vem sabe como funcionamos. Não é pelo dinheiro”, afirmou o líder da legenda na Câmara, Rodrigo Garcia (SP). Na última eleição, os Democratas elegeram 21 deputados. Desde então, atraíram para as suas fileiras 12 parlamentares – chegando aos 33. A meta é atingir os 40. Nessa conta estão as perdas e novas “aquisições” que ocorrerão até o dia 7 de abril.

Além do DEM e do PSL, este que perderá dois de seus atuais três deputados por causa da chegada de Bolsonaro, as legendas que passarão por maiores mudanças são o MDB, o PP e o PR. Os dois últimos são apontados como os principais “compradores” de parlamentares. As promessas para quem quer ingressar nessas legendas são a de comando partidário mais 2 milhões de reais para serem gastos em suas campanhas, conforme cinco deputados consultados pela reportagem. Cada um espera ter entre seis e dez novos deputados em suas agremiações.

Os medebistas, por sua vez, deverão perder dez parlamentares e receber entre oito e dez. As maiores perdas do MDB ocorrerão no Rio de Janeiro, Estado que está afundado em dívidas em uma intensa crise política na qual caciques do partido ou foram presos, como o ex-governador Sergio Cabral, o ex-deputado federal Eduardo Cunha e o deputado estadual Jorge Piccianni, ou estão desacreditados, como o governador Luiz Fernando Pezão.

No Rio de Janeiro, a tendência é que ocorra uma migração rara: Celso Pansera, que foi ministro da Ciência e Tecnologia de Dilma Rousseff, deixará o MDB para se filiar ao PT. A raridade é porque os petistas esperavam mais perder parlamentares do que ganhar. Givaldo Vieira, que era do PT do Espírito Santo, migrou para o PCdoB. E Chico D’Angelo, do Rio, deve fazer o mesmo caminho para o PDT.

Os partidos de esquerda, aliás, são os que menos deverão registrar ingressos. O PSOL não espera filiar mais nenhum novo integrante (hoje a bancada é de seis). A REDE minguou e ainda conversa com possíveis candidatos – caiu de 4 para dois deputados. O PDT e o PCdoB devem receber no máximo mais dois novos integrantes. E o PSB, que já perdeu sete desde o início do Governo Michel Temer, deverá receber no máximo mais cinco.

“A ideologia na política brasileira nunca existiu. Agora, sem as doações empresariais, está ocorrendo uma espécie de leilão. Quem tiver condições maiores de se eleger, custam mais para o partido”, analisou o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília. Na avaliação dele, as trocas realizadas agora no início do mês não serão um impeditivo para que os mesmos deputados mudem de novo de partido no início de abril. “Se, de repente, um deputado que acabou de entrar em um partido não se sentir seguro, ele pode muito bem mudar de novo. A lei permite esse balcão de negócios”.

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