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Brasília monotemática: eleição molda discursos e alianças de candidatos a suceder Temer

Onze pré-candidatos se movimentam na capital em temporada de sedução partidária.

Presidente tem a máquina pública como instrumento de barganha para alianças

Eleições presidenciais 2018
Michel Temer durante evento em Brasília. REUTERS

A capital do Brasil está a todo vapor, de olho em um só objetivo. Qualquer movimento feito em Brasília neste período do ano tem apenas uma motivação: as eleições de outubro. Uma resposta em uma entrevista coletiva, um discurso no plenário da Câmara dos Deputados, a definição dos projetos de lei que serão votados, as trocas de partidos durante a janela partidária ou a escolha de um novo ministro. Tudo visa a próxima disputa eleitoral. Esta que deve ser a mais pulverizada desde 1989, ano em que 22 candidatos disputaram o principal cargo da República. Neste ano, já há 11 pré-candidatos.

Um exemplo da temperatura no Planalto Central. Na última semana, o presidente Michel Temer se reuniu com lideranças de diversas legendas, entre elas o PP, o PRB e o PTB, para avisar que ainda há espaço para que seus aliados continuem participando de seu Governo a partir de abril, desde que se comprometam em apoiar o candidato do Planalto à sucessão presidencial – seja ele quem for. Foi sua primeira tentativa de emparedar sua base. As lideranças das legendas nada responderam. Mas entenderam o recado. E rapidamente deram uma resposta indireta ao presidente. Representantes de 12 partidos da base governista estiveram no lançamento da pré-campanha de Rodrigo Maia (DEM) à presidência, na quinta-feira.

O dia 7 de abril é o prazo limite para ocupantes de cargos no Executivo ou no Judiciário deixarem suas funções e se candidatarem na próxima eleição. É o mesmo prazo de encerramento da janela partidária, que é quando um político pode trocar de uma legenda por outra, sem sofrer qualquer punição, como a perda de seu mandato. Na Esplanada dos Ministérios a expectativa é que até 12 ministros deixem suas cadeiras.

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, foi um dos dirigentes com quem Temer se reuniu e que no dia seguinte foi saudar a pré-candidatura Maia. E os casos que o envolvem são os mais emblemáticos. O PP ocupa hoje três ministérios com orçamentos de fazer inveja às outras pastas: Saúde, Cidades e Agricultura. E esses recursos destinados a eles são vistos como atrativos para irrigar campanhas eleitorais ou apenas para servirem como propaganda institucional. Os responsáveis pelas pastas são três congressistas licenciados: Ricardo Barros, Alexandre Baldy e Blairo Maggi. Barros já informou que deixará a Saúde. Baldy se comprometeu com Temer a não disputar eleição, mas a direção do PP quer convencê-lo a concorrer porque o consideram “bom de voto”. Enquanto Maggi anunciou que pretende “dar um tempo” da vida política e, após o fim do mandato de Temer, dedicar-se às suas empresas.

O jogo duplo do PP é o mesmo de quase todos os partidos da base governista. Os que estiveram no evento de Maia, por exemplo, dizem nos bastidores que darão um tempo para o nome do presidente da Câmara se firmar. Hoje, ele tem entre 0,6% e 1% nas pesquisas eleitorais. Caso consiga melhorar o seu desempenho até julho, quando ocorrem as convenções partidárias, garante o apoio das legendas de centro-direita. Se não, a tendência é que se aliem a Geraldo Alckmin (PSDB) ou ao nome escolhido pelo MDB, possivelmente o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que está em vias de se desfiliar do PSD.

Meirelles esteve com Temer no fim de semana para discutir exatamente a eleição de outubro. O presidente não o escolheu nem o descartou ainda como seu candidato porque nutria esperança de poder concorrer à reeleição. Seus movimentos no início deste ano foram exatamente nesse sentido. Primeiro, desistiu da impopular reforma da Previdência. Depois, adotou um discurso duro contra a criminalidade e optou por decretar uma intervenção federal na área de segurança do Rio. Quando achou que suas articulações poderiam lhe render frutos, ou seja, uma melhora na sua popularidade, sofreu derrotas no Judiciário que, por ora, enterram qualquer desejo eleitoral. Nas últimas semanas, Temer passou a ser investigado sob a suspeita de capitanear propina para o MDB e teve seu sigilo bancário quebrado por um ministro do Supremo Tribunal Federal dentro do inquérito que apura irregularidades na elaboração do decreto dos portos.

Maia 'paz e amor'

Outro exemplo de como Brasília já respira eleição está no tom que Rodrigo Maia dá aos seus pronunciamentos. Ele mudou nos últimos dias e se tornou o Maia 'paz e amor'. Antes, era fácil vê-lo irritado quando questionado sobre assuntos que já havia respondido em uma entrevista coletiva. Desde que anunciou sua pretensão de concorrer ao Planalto, responde às perguntas de uma maneira mais serena. Ao menos sem demonstrar irritação.

Maia se descolou do governo Temer. Mas os emedebistas ainda não o deixaram. Sabem que ele tem duas poderosas armas que podem pesar contra o presidente. A primeira é a capacidade de pautar qualquer tema para ser votado na Câmara. A segunda, há quase duas dezenas de pedidos de impeachment contra o presidente aguardando uma avaliação de Maia. Em princípio, ele não quer ser para Temer o que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi para Dilma Rousseff (PT), quando este aceitou o pedido de impeachment dela e deu início à crise política que levou o Brasil a ter hoje 11 pré-candidatos à presidência.

Saindo da disputa pelo apoio dos governistas, ainda há os embates entre os extremos. De um lado, o deputado de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) defendendo a suspensão do estatuto do desarmamento e atacando os esquerdistas do PSOL. De outro, Guilherme Boulos, o líder dos movimento sem-teto que lançou sua pré-candidatura pelo PSOL, rebatendo as provocações. Em seguidos discursos Bolsonaro chama os sem-teto de criminosos e os sem-terra de terroristas. Enquanto Boulos responde, em suas redes sociais, que criminoso é Bolsonaro, que já foi condenado três vezes a pagar indenizações por danos morais por ofender comunidades negras (quilombolas), movimentos que defendem os direitos de homossexuais e a deputada Maria do Rosário (PT-RS). No caso envolvendo a parlamentar, Bolsonaro também é investigado por apologia ao estupro.

Em uma zona cinzenta das eleições, há ainda os que têm dúvidas de como alavancar uma candidatura em um partido nanico (Marina Silva da REDE) e os que ainda não sabem se terão candidatos ou apostarão em um plano B. Os petistas que transitam pela capital federal debatem se vale investir na incerta candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – condenado em segunda instância e sob o risco de ser barrado pela lei da Ficha Limpa – ou se é o momento de lançar um novo nome ou ainda o de articular apoio a outros nomes que já se colocaram na disputa, como Ciro Gomes (PDT) ou Manuela D’ávila (PCdoB). Os palanques ainda estão distantes de serem definidos.

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