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Tomar água e não compartilhar o canudo: a redução de danos para drogas no Carnaval

Entidades lançam manual para minimizar os problemas com o uso de substâncias, incluindo o álcool

Carnaval 2018
Folião leva cerveja em uma mini bomba de gasolina, sábado em São Paulo. REUTERS

"Preste atenção no teor alcoólico e na qualidade do que for beber". "Beba devagar, tenha compaixão pelo seu fígado". "As notas de dinheiro estão cheias de bactérias, não as use como canudo [para o consumo de cocaína]". Essas são algumas das dicas da campanha #RolêSemVacilo, criada para promover a redução de danos para aqueles que, apesar dos alertas mais rígidos sobre os malefícios dessa prática, pensam em usar drogas durante o Carnaval.

A iniciativa tem como foco o consumo de álcool, cocaína, ecstasy / MDMA, LSD, inalantes e ketamina. "Focamos no álcool também, porque as pessoas ainda não o consideram uma droga e porque existe muita interação do álcool com outras substâncias", explica Maria Angélica Comis, psicóloga e membro do Centro de Convivência É de Lei, uma das organizações parceiras.

De acordo com ela, o objetivo da campanha é fazer com que as pessoas entendam o que é redução de danos, uma prática reconhecida pela Organização Mundial de Saúde. "O conceito da redução de danos é garantir o direito do uso [das substâncias] das pessoas, mas que elas saibam a procedência, saibam o que estão tomando e cuidem umas das outras", diz Maria Angélica. Ela diz que o conceito serve para qualquer pessoa, "não só para quem faz uso de alguma substância". "Que as pessoas possam falar sem medo do uso de drogas".

Neste ano, o primeiro em que há uma campanha como essa no Carnaval de São Paulo, o intuito é focar em alguns blocos ao longo dos dias de festa, distribuindo manuais, faixas e placas informando sobre cada substância. O manual, que pode ser lido pela internet aqui, classifica as substâncias como estimulantes (cocaína), depressoras (álcool, inalantes — lança-perfume, B25, tíner e cola — e ketamina) e perturbadoras (ecstasy e LSD). Alerta também para a mistura de cada uma delas com outras substâncias.

Algumas das dicas do manual são:

Álcool

Preste atenção no teor alcoólico e na qualidade do que for beber. Saiba o que você está colocando pra dentro.
Assim como outras drogas, pode deixar a pessoa mais desinibida e afetar o julgamento de risco. Se for fazer sexo, não esqueça a camisinha.
Pode dar ruim:
Álcool + cocaína, energéticos, ecstasy e outros estimulantes
Pode causar falsa sensação de sobriedade, fazendo o usuário achar que pode consumir ainda mais drogas, aumentando a chance de coma e de parada cardíaca.
Álcool + maconha, LSD, MDMA e outros psicodélicos
Pode levar a reações inesperadas e situações indesejadas pelo usuário, afetando seriamente seu julgamento de riscos.

Cocaína

Fique ligado: a maior parte da cocaína vendida no Brasil é adulterada com outras substâncias, podendo trazer sérios riscos à saúde.
As notas de dinheiro estão cheias de bactérias, não as use como canudo. E cada um com o seu: não compartilhe o material usado para aspirar. Isso aumenta o risco de contaminação de doenças como tuberculose e hepatites
Pode dar ruim:
Cocaína + álcool, ketamina ou inalantes
A combinação de estimulantes do Sistema Nervoso Central com substâncias depressoras, além de dar a falsa impressão de sobriedade, aumenta a sensação de poder e as chances de acidentes, envolvimento com brigas e comportamentos de risco

Ecstasy, MDMA

Bala, ecstasy e cristal [alguns dos nomes para a mesma droga] devem conter a substância MDMA, uma metanfetamina. Algumas metanfetaminas demoram mais para surtir efeitos do que outras. Espera a substância bater se for usar outra dose. Isso diminui os riscos dos efeitos tóxicos.
Óculos escuros, sempre! As pupilas dilatadas ficam mais expostas a lesões provocadas por exposição intensa às luzes e aos raios solares.
Pode dar ruim:
Ecstasy + álcool
Os efeitos estimulantes das balas e cristais podem mascarar os efeitos do álcool. As duas substâncias sobrecarregam o fígado, rins e aumentam a temperatura corporal.

LSD

Algumas moléculas análogas ao LSD são mais estáveis, fáceis e baratas de ser produzidas. Por isso, grande parte dos usuários nem fica sabendo o que está consumindo de fato.
Doses bem pequenas podem provocar efeitos intensos e duradouros.
Pode dar ruim:
LSD + álcool
Evite a mistura com álcool e outras substâncias, que podem potencializar os efeitos estimulantes dos análogos, trazendo riscos de problemas cardíacos, aumento de pressão arterial, além da síndrome a seratonina [que causa mudança do estado mental, anormalidades neuromusculares e hiperatividade, por exemplo].

Inalantes

Evite usar quando estiver sozinho!
Muitos dos casos de morte e internações registrados ocorrem em função do modo de uso intenso, quando o usuário chega ao quase desmaio.

Ketamina

Cuidado ao aspirar para não confundir com cocaína, pois os efeitos são bem diferentes.
A ketamina pode causar problemas no trato urinário, por isso é importante beber água constantemente.
Mesmo em quantidades pequenas, evite dirigir e fique muito atento até mesmo ao atravessar a rua, pois é comum aumentar a chance de tropeçar após o uso. E não importa o calor: evite fortemente nadar sob o efeito da droga.
A ketamina aumenta a pressão ocular. Se você já fez operação nos olhos, fique atento.

Em todos os casos, o manual recomenda que o usuário evite dirigir após o consumo da droga.

A campanha #RolêSemVacilo: Experimente Reduzir Danos é uma campanha da iniciativa Drogas: Reduzir Danos, do Centro de Convivência É de Lei e da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, em parceria com a produtora de eventos culturais Pipoca.

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