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São Paulo não sabe quem é, e eu também não

A cidade para fora das barreiras do parque representava minha confusão. O velho, por outro lado, era aquelas construções rurais, aquele galo orgulhoso do Água Branca

Parque da Água Branca, zona oeste de São Paulo
Parque da Água Branca, zona oeste de São Paulo

O caminho mais racional para se chegar ao terminal Barra Funda, em São Paulo, onde eu pegava o ônibus para meu antigo serviço era passando por dentro do Parque da Água Branca, que poderia ser descrito por alguém menos circunspecto e mais espirituoso que eu como o parque dos três gês: dos gatos, das galinhas e dos geriátricos. Eu, contudo, que tenho grande apreço por cabelos brancos, sempre evitei a blague, apelidando-o carinhosamente de território de velhos.

Passando por lá todos os dias, tive tempo para observar e catalogar: primeiro, os grupos de velhinhos que se reúnem religiosamente na parte da manhã para conversar, cantar canções de outros séculos e alimentar gatos e galinhas que andam soltos pelo parque; depois, as construções imponentes e amarelas com ares rurais que se espalham por todo o local. Construções que faziam parte, num passado nem tão distante, de uma escola de agronomia. Por isso, toda a estrutura interiorana ainda está lá: estábulos, arena para cavalos, galinheiros, coretos e laguinhos artificiais.

Enquanto o mundo se modernizou e todas as distâncias diminuíram, o que aconteceu com o Água Branca foi o inverso. Se a distância física encurtou, a cultural aumentou. Éramos, quando antes de sonharmos ser a cidade mais pujante das Américas, um verdadeiro interposto entre o mundo caipira, a França – do bairro chique de Campos Elíseos – e o litoral de Santos, por onde escoávamos a riqueza de burgueses metidos a aristocratas. Na São Paulo que se avizinhava com a construção de um punhado de arranha-céus, e que nesta quinta-feira completa 464 anos, contudo, não havia mais lugar para meios-termos.

Talvez, por isso, acabamos ficando cada vez mais longe do Água Branca, escamoteado por nos lembrar de um passado que não combinava com a imagem dinâmica, vanguardista e profissional que os paulistanos queriam para si. Numa manhã, enquanto adiava minha partida inevitável para a Barra Funda, para minha divisória anódina de escritório, pensava nesse tipo de coisa quando vi, de esguelha, um senhor, figurino completo – sapato, roupa social, paletó, suspensório e bengala –, caminhar em minha direção.

Foi sentar ao meu lado e toda minha atenção se desviou. Fiquei reparando em sua roupa, fazendo conjecturas sobre seu passado e presente. Seu figurino, de fato, era completo, mas o sapato já estava com a sola gasta e sem brilho, a manga do paletó um pouco puída, a alça do suspensório esgarçada. Não é que ele fosse pobre, não aparentava. O que lhe faltava, logo conclui, era uma mulher. Uma mulher vigilante que deve ter se desdobrado toda vida em cuidados para com ele e que agora o deixara sem uma parte dele próprio.

Ele era quieto, de movimentos vagarosos. O cabelo ralo, mas ainda um pouco grisalho, penteado para trás. Não tinha nada de muito chamativo, mantinha sua dignidade, mas parecia um tanto ausente. Ficou ali, ao meu lado, assistindo a galinha e os pintinhos que passavam em frente a nós. A mãe ciscava, ciscava e, quando parava, era rapidamente cercada pelos filhotes que vinham logo atrás aos pulinhos. Meu vizinho de banco parecia gostar do espetáculo. Entrevi até um leve sorriso de canto em seu lábio. Aí, então, apareceu o galo: branco, galhardo, o peito proeminente, a cabeça ereta. Nem vendo direito se era pinto, galinha ou gente que tinha a sua frente, foi passando, decidido a sei lá o quê e fazendo o sorriso do velho aumentar alguns milímetros.

Como via agora o galo, imaginei o velho no viço da idade. Um aspirante a pugilista, que já colecionava alguns nocautes na carreira; um taco forte da sinuca, inspirando medo em bocós nos salões lustrosos do centro da cidade; um ás do carteado, pronto para deixar seus parceirinhos sem um tostão. Ou, então, um trabalhador de sol a sol, sério, mas alegre, bom católico, apaixonado por sua mulher e querido por seus vizinhos. Quem sabe? Ficamos assim, quietos. Imaginei também que, se me notasse, ele iria achar estúpidos os meus modos. Uma calça vermelha, uma camisa listrada, um cabelo em desalinho, uma cara de hesitação permanente.

Pergolado no Parque da Água Branca ampliar foto
Pergolado no Parque da Água Branca Wikipedia

Uma loira vulgar passou falando alto ao telefone, um gato apareceu de dentro de um arbusto, um som de radinho a pilhas chegou misturado com o barulho do vento no topo das enormes falsas seringueiras que se espalham por lá.

Pensei em nossas diferenças. A cidade para fora das barreiras do parque, a cidade que eu aprendi a amar tanto quanto a odiar, representava minha confusão. São Paulo não sabe quem é, eu também não. O velho, por outro lado, era aquelas construções rurais, aquele galo orgulhoso. Perdido no século 21, mas seguro de sua identidade. Eu havia sofrido desilusões pequeno burguesas, melancolias juvenis das quais me envergonhava, o mal-estar de já não saber o que dizer. Ele tinha vivido. Mesmo assim, naquele mundo esquecido, sentia-me como seu igual.

Depois de tanto conjecturar, imaginei que um entendimento qualquer se estabelecia entre nós, que, apesar de ainda não termos nos apresentado, poderíamos trocar algumas palavras, quem sabe até criar uma amizade extemporânea. Aquele parque, aquele território de velhos, talvez pudesse nos unir. Só que, de súbito, interrompendo meu pensamento, ele se pôs de pé. Apoiando-se na bengala e, sem dar qualquer sinal de que um dia tenha me notado, foi dando passos curtos até outro banco vazio. Com cuidado, apoiou uma mão no encosto, girou o corpo e acomodou-se a poucos metros de onde me deixou sozinho.

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