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São Paulo, minha amiga gigante

Guia pela capital paulista, uma cidade que conseguiu o impossível: não se parecer com absolutamente nada

Fui ao Brasil buscar meu pai, morto sete anos antes. O velho biólogo, catedrático de Ciências, porém mais feliz quando metia um chapéu-panamá e se perdia pelas florestas sul-americanas atrás de novas plantas, entenderia melhor ter um filho igualmente perdido em São Paulo do que um que escrevia sobre atores para revistas no bairro madrilenho de Malasaña. E fazer algo que ele faria soava como uma última oportunidade de conhecê-lo melhor. Nem todo mundo quando vai a São Paulo é para ressuscitar um morto, mas também é verdade que pouquíssima gente vem para cá se não tiver nada para fazer aqui.

Em São Paulo é mais fácil encontrar uma loja de uniformes para empregados domésticos do que um reduto turístico. E não é só isso. A maior cidade da América do Sul pode parecer um mistério até para um viajante curtido em mil países: este monstro de 1.500 quilômetros quadrados e 12 milhões de habitantes, essencialmente uma selva de arranha-céu e helicópteros, quase não tem espaços públicos. É um lugar extremamente brasileiro, apesar da ausência de praias e florestas; é brasileiro no sentido de que se trata de um lugar de ricos cheio de pobres, e porque encarna a frase “o Brasil não é para amadores”, de Tom Jobim, repetida aqui com orgulho e bastante arrogância. Também sua inacessibilidade é inerentemente brasileira: a região foi colonizada não através da criação de comunidades, e sim a partir de fazendas isoladas, onde empresários fabricavam açúcar com seus escravos e mal saíam ao perigoso exterior. “São Paulo é a cultura da fazenda levada ao seu extremo lógico”, explica Benjamin Moser, o norte-americano autor do livro Autoimperialismo: Três Ensaios Sobre o Brasil. “Embora pareça um lugar moderno, na verdade é o resultado mais extremo da economia escravista rural, no qual o desejo individual de enriquecer é o único imperativo social.” Mas não é impossível encontrar lógica na cidade e, assim, não só ver nela certo encanto, por estar alheia a disneyzação do turismo, como inclusive admirá-la. Quando a gente percebe, está num lugar que conseguiu o impossível em 2017: não se parecer com absolutamente nada.

Clássicas curvas do Copan, no instragam @tcavendano
Clássicas curvas do Copan, no instragam @tcavendano

A arquitetura

São Paulo não tem atrações turísticas, mas é o contrário de uma paisagem desolada: as ruas estão abarrotadas de edifícios. Onde deveria haver horizonte o que existe é uma construção enorme atrás de outra, um arranha-céu, um condomínio, uma casa, tudo grande, fruto de uma especulação desmedida e de uma vocação nacional para a grandiloquência. Seu skyline poderia ser comparado ao nova-iorquino, não fosse o fato de que, quando a gente tenta olhá-la de longe, percebe que a cidade continua em todas as direções. “Em Brasília os edifícios estão isolados, no meio do nada, porque o estilo internacional adorava a marginalização: em São Paulo eles são a paisagem”, explica Raul Juste Lores, crítico de arquitetura e autor de São Paulo nas Alturas, sobre o boom do estilo internacional que houve aqui nas décadas de 1950 e 60. Esse amontoamento da arquitetura é o que transforma a própria cidade numa atração turística. Há duas formas de captar essa ideia. A fácil: ir à Avenida Paulista, artéria central da cidade, e percorrer seus três quilômetros de blocos de concreto armado; lá há autênticas obras-primas da elefantíase, como o Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073). O jeito difícil é se plantar na praça da República, o antigo centro e hoje lar de incontáveis drogados, bandidos e famílias de indigentes. Lá os edifícios do estilo internacional estão oxidados, ocupados e cheios de pixações. Essa paisagem pós-apocalíptica digna de um Blade Runner com palmeiras não existe em nenhum outro lugar, e entender que ela guarda sua beleza – trágica e nada óbvia, mas beleza – muda tudo. Mais do que nenhum território, São Paulo é essa lição. Também perto da República está o que de mais parecido com uma vista famosa São Paulo tem a oferecer: o cruzamento do ondulado Copan (avenida Ipiranga, 200), de Oscar Niemeyer, com o lindo Edifício Itália (avenida Ipiranga, 344).

O centro de São Paulo.
O centro de São Paulo.

Restos do futuro

O centro hoje representa o passado, um conceito não muito valorizado no país. “O Brasil sempre foi obcecado com o futuro, mas, se alguém acha que isso parece otimista, não é; pelo contrário, pois na verdade é uma forma de escapar do passado”, conta Moser. “Existe a ideia de que o Brasil não é tudo o que deveria ser (um país rico e moderno), e por isso os brasileiros partem de um sentimento de vergonha, muito profundo e muito pessoal. Cada geração acredita que as coisas vão mal agora, mas irão bem depois. E a cada geração essa crença acaba sendo terrível e brutalmente frustrada.” São Paulo é composta por incontáveis tentativas de apropriação do futuro, de aposta numa apoteose que depois acaba enferrujada. Como Higienópolis, um bairro próximo ao centro, fundado para ser aristocrata e diretamente batizado em alusão ao que faltava a todo o resto. Nos anos cinquenta, seus ricos moradores judeus começaram a competir para ter o edifício mais ostentoso e moderno, e um passeio por suas ruas, começando pelo impressionante Domus da rua Sabará, 47 – um prédio residencial com formato de bolo de noiva, mas que nem por isso deixa de valer a pena –, é uma experiência memorável: na avenida Higienópolis se misturam o greco-romano e o futurista, o alto e o curvilíneo, a Hollywood clássica imaginada por um personagem dos Jetsons. Na realidade, quem concebeu isso foi Artacho Jurado, que gostaria de ser arquiteto, mas não pôde estudar porque para entrar na faculdade era preciso jurar à bandeira, e seu pai, um anarquista espanhol, não permitia. Ao se afastar o máximo possível do progenitor, conseguiu com que os judeus ricos de Higienópolis lhe pagassem o projeto de suas casas – que depois eram assinados por arquitetos formados. De sua imaginação saíram fantasias da arquitetura modernista como o edifício Cinderela (rua Maranhão, 163). Para deleite dos olhos, é possível encontrar o refinado classicismo dos edifícios Itamarati (avenida Higienópolis, 147) e a entrada de prédio mais bonita da cidade, do edifício Piauí (rua Piauí, 428).

São Paulo futurista nas ruas de Higienópolis, no instagram @tcavendano
São Paulo futurista nas ruas de Higienópolis, no instagram @tcavendano

A obsessão pelo futuro às vezes provoca traumas. Um dos mais famosos é o Minhocão. No final dos anos sessenta, foi decidido que o futuro era dos carros e se planejou uma via elevada para que os veículos circulassem majestosamente sobre os homens. Foi inaugurado em 1969, e em 1976 precisou ser fechado pelo menos nos finais de semana: os carros passavam a cinco metros das janelas de alguns apartamentos, e o barulho era insuportável. Agora, o Minhocão fica lotado aos domingos de jovens que, saindo da praça Roosevelt, ocupam seus 3,5 quilômetros para tocar música, tirar fotos, beber cerveja ou simplesmente ver o pôr do sol e a característica luz branca da cidade se transformar em um vermelho que não existe em outros lugares. São acompanhados pelas pessoas nas janelas a cinco metros e pelos que majestosamente passam por baixo. Graças a Deus, o futuro às vezes dá errado.

O impressionante Mirador no instagram @tcavendano ampliar foto
O impressionante Mirador no instagram @tcavendano

Vestígios do passado

O central Vale do Anhangabaú hoje está tomado por indigentes, mas continua sendo um dos poucos lugares onde se pode apalpar a história da cidade. Ali está o Edifício Martinelli (São Bento, 405 www.prediomartinelli.com.br), o primeiro arranha-céu da urbe (e de toda a América Latina), projetado por um empresário italiano que queria deixar sua marca. Lá fica também o impressionante Mirante do Vale (Avenida Prestes Maia, 241), o segundo edifício mais alto do Brasil até ser desbancado em 2014.

Parte do problema narrativo de São Paulo é que é uma capital financeira, e sua história é formada por entediantes sucessos empresariais. As tentativas de remediar isto não foram exatamente acertadas. Quando uma pessoa vai ao Parque do Ibirapuera, se depara com um monumento aos bandeirantes. “É um grupo muito estranho de homenagear porque foram os cruéis e desapiedados homens que colonizaram o interior do Brasil”, pondera Moser. São Paulo é a única cidade que celebra a existência desses homens, odiados no restante do país por terem escravizado e assassinado os nativos. “Parecem querer celebrar um ideal elevado que a cidade não tem, um valor ou uma consciência nacional para além de ser um lugar onde ganhar dinheiro.” Há monumentos por toda a cidade, mas no Ibirapuera pelo menos há obras de Niemeyer para se olhar.

Os cavaletes de Lina no instagram @tcavendano ampliar foto
Os cavaletes de Lina no instagram @tcavendano

Outra forma de ver a arte

Não se pode visitar São Paulo sem prestar uma fervorosa homenagem a quem o crítico Martin Filler chamou de “a Anna Magnani da arquitetura”, a ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992). Na Avenida Paulista, número 1578, não passa desapercebido a ninguém um dos ícones da cidade e já um clássico da arquitetura contemporânea. O Museu de Arte de São Paulo (masp.art.br), de 1958, é em si mesmo uma obra de arte, enquadrado por pilares pintados de vermelho e apoiado e suspenso entre eles com 74 metros de extensão a oito metros do solo. O museu, além disso, felizmente recuperou, em dezembro de 2015, a original apresentação das obras da coleção em cavaletes de vidro sobre bases de concreto espalhados por toda a sala. De tal forma que não se admira a obras penduradas na parede, mas em uma espécie de bosque transparente em que parecem levitar. Essa disposição, que nos anos 1960 rompeu com a visão hierárquica tradicional em busca de uma organização não linear, foi suprimida em 1996 e recuperada graças ao prestigioso curador Adriano Pedrosa, responsável pelo museu desde 2014 e à equipe Metro Arquitetos, que projetou os novos cavaletes. Uma iniciativa que transforma o MASP em um dos museus mais originais do mundo.

A admiração produzida pela nitidez estrutural desse edifício de Lina Bo Bardi aumenta com a visita de outra obra sua, o SESC Pompéia (rua Clélia, 93), de 1977-1986. É a obra mais experimental, inovadora e inclassificável da arquiteta: uma velha fábrica que ela decidiu não demolir e que transformou em um centro comunitário para a cultura, o esporte e o lazer colocando na empreitada toda sua veemência e paixão. A Casa de Vidro, de 1951, e o Teatro Oficina, de 1990, são outras das obras da arquiteta na cidade.

Entre os centros culturais, se destaca o do Banco do Brasil (Álvares Penteado, 112; bb.com.br/cultura), e entre as galerias de arte, uma das melhores é a Mendes Wood DM (Rua da Consolação, 3358). Também vale a pena visitar a galeria Leme (avenida Valdemar Ferreira, 130), obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, e a Livraria da Vila, do arquiteto Isay Weinfeld, localizada no Shopping Cidade Jardim. E para quem gosta de arte de rua, uma obsessão dos paulistanos, existe um beco com obras: o Beco do Batman (Rua Gonçalo Afonso).

Um dos pratos do restaurante Carlota, em São Paulo.
Um dos pratos do restaurante Carlota, em São Paulo.

Gastronomia vertiginosa

Uma vez na cidade, é questão de tempo até você ouvir que São Paulo é a Nova York da América Latina, que tem a maior colônia de japoneses fora do Japão e que é uma das capitais mundiais da gastronomia. São os pontos de destaque repetidos pelos paulistanos. E mais curiosa que sua aleatoriedade é a pouca quantidade de pessoas que podem demonstrar isso recomendando um restaurante favorito. Aqui os estabelecimentos ganham e perdem credibilidade num ritmo vertiginoso. Este ano é o da Capivara (rua Dr. Ribeiro de Almeida, 157), um bar de grafite, cadeiras de metal, guardanapos de papel e lista de espera. Dada sua incrível popularidade, viu-se obrigado a abrir mais do que apenas algumas horas nas noites de quinta e a aceitar pedidos em vez de servir o que o chef decide: para muitos, perdeu a essência.

O que nunca falha é o bairro Liberdade, no centro, porque ali está a famosa colônia japonesa com os melhores restaurantes nipônicos do país. Em particular, o Izakaya Issa (rua Thomaz Gonzaga, 20), onde a dona (reconhecível porque há retratos dela nas paredes, juntamente com os de atrizes japonesas de décadas atrás) decide sim, e furiosamente, o que você pode ou não comer. O tori karaage é espetacular e o saquê nacional, uma péssima ideia. Para conhecer a gastronomia brasileira, o melhor é o Carlota (rua Sergipe, 753, carlota.com.br), o predileto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Uma opção mais barata, mas também destacada, é o Tordesilhas (Alameda Tietê, 489, tordesilhas.com).

Esplanada do bar Balsa, no centro de São Paulo. ampliar foto
Esplanada do bar Balsa, no centro de São Paulo.

A noite

Qualquer programa noturno depende de uma variável: se é quinta-feira ou não. Nesse dia abre o Balsa (rua Capitão Salomão, 26) e não há discussão possível: este bar, escondido no quarto andar de um edifício deteriorado do centro, tem um terraço com a melhor vista da cidade, para o Vale do Anhangabaú. Se não for quinta, é preciso se contentar com o melhor bar da capital, o Riviera (Avenida Paulista, 2584 rivierabar.com.br), onde se reuniam os intelectuais de esquerda durante a ditadura militar. Acaba de abrir de novo, felizmente com o desenho original de 1949 e sem intelectuais. Após o primeiro coquetel, cada um saberá o que atrai mais: se for a música, o Ó do Borogodó (rua Horácio Lane, 21) oferece o samba ao vivo mais melancólico da cidade. Depois da meia-noite, é hora do Lourdes (rua da Consolação, 247), sede noturna do reduto da arte paulistana e ponto de reunião de diletantes e efebos com óculos de bordas diversas. É possível que o Autódromo de Interlagos ofereça algum festival (São Paulo abriga edições próprias do australiano Milkshake e do Lollapalooza): se for assim, é lá onde todos estarão. Mas se você quiser algo mais lisérgico, a Cesta Ácida (praça da Sé, 156) gera um culto quase religioso.

Festa na local Cesta Ácida, em São Paulo. ampliar foto
Festa na local Cesta Ácida, em São Paulo.

As multidões

É comum ver as portas de certos bares com centenas de pessoas, bebendo o que podem comprar de vendedores ambulantes. É gente que nunca entra no estabelecimento, traço fundamental da vida paulistana. O agito principal está do lado de fora do Paribar (praça Dom José Gaspar, 42): pessoas de todas as cores, idades e classes. O público LGBTQ deve ir à praça Roosevelt, ainda que seja em respeito à quantidade de horas que seus frequentadores dedicam ao culto ao corpo na academia. Alguns estendem a visita ao 269 Chili Pepper Single Hotel (largo do Arouche, 610 www.hotelchillipeppersp.com.br), que tem uma das maiores saunas da América Latina. Mas se for domingo e você for um jovem com vontade de ação, dê um pulo de tarde na porta do Museu de Arte Contemporânea (Parque do Ibirapuera), onde estudantes do instituto tomam os últimos goles. Depois – se é que é possível nessa cidade – eles voltam à realidade.

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