Literatura

A grande novela de amor de Camus foram suas cartas

Editora francesa publica pela primeira vez a correspondência trocada pelo escritor com uma atriz espanhola

Camus (à direita) com Casares em um teatro de Paris em 1948.
Camus (à direita) com Casares em um teatro de Paris em 1948.ROGER VIOLLET / GETTY

Parece um velho filme em preto e branco. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em uma sacada na Paris ocupada em 6 de junho de 1944, data do desembarque aliado na Normandia. A primeira noite de dois amantes que só a morte dele separaria, 15 anos depois.

Também poderia ser o começo de um romance romântico, mas é o ponto de partida de uma história real, contada em detalhes minuciosos na correspondência entre seus protagonistas: Albert Camus e María Casares, o francês da Argélia e a galega exilada, o escritor e a atriz. Ambos - o autor de A Peste e O Mito de Sísifo, figura intelectual central do século XX; a atriz da Comédie-Française e do Teatro Nacional Popular, grande dama do palco - trocaram 865 cartas durante anos, que a editora Gallimard publica agora pela primeira vez em um volume de 1.297 páginas.

Ele tinha 30 anos quando se conheceram; ela, 21. Ele já tinha publicado O Estrangeiro, o romance que o lançaria à fama, e vivia sozinho em Paris, onde pertencia a uma rede da Resistência. Sua esposa, Francine Faure, tinha ficado em Orã, na Argélia francesa. Ela, nascida em Coruña, filha de Santiago Casares Quiroga - ministro e primeiro-ministro da Segunda República - tinha chegado a Paris após o golpe franquista de 1936. Conheceram-se em 19 de março de 1944 na casa do escritor Michel Leiris, e na madrugada de 6 de junho, o Dia D, se tornaram amantes.

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Após um ataque dos alemães, Camus abandonou Paris. Escondeu-se em um sítio no campo. “Esta noite tenho vontade de me aproximar de ti porque estou triste e tudo me parece difícil de viver”, escreve em uma de suas primeiras cartas. A libertação da capital francesa em agosto dá início a uma crise. Francine logo volta para ficar ao lado de Albert. “Meu desejo mais verdadeiro e instintivo seria que nenhum homem, depois de mim, pusesse as mãos em você. Sei que não é possível. Tudo o que posso desejar é que não desperdice esta coisa maravilhosa que você é”.

A relação entre Albert e María se interrompeu no final de 1944. Em 1945, Francine deu à luz os gêmeos Catherine e Jean. Quatro anos mais tarde, em outro 6 de junho, Albert e María se cruzam no boulevard Saint-Germain. Não voltaram a se separar.

“Você apareceu para mim como um último colete salva-vidas lançado no meio de uma vida que até então estava vazia. Agarrei-me a ele com todas as minhas forças e voluntariamente fechei os olhos a tudo o que podia por em perigo esta última esperança”, escreve-lhe Casares. A atriz detalha o dia a dia de sua vida profissional e expressa dúvidas sobre seu próprio talento. Descreve seu mundo de exilados espanhóis: a doença e a morte de seu pai, o papel tutelar do primeiro-ministro republicano no exílio, Juan Negrín, e sua parceira, Feliciana López de San Pablo. “Don Juan foi para mim um irmão mais velho maravilhoso”, escreve ela quando seu pai morreu, em fevereiro de 1950. A Espanha está sempre presente na vida de Camus – sua família materna era de Menorca - e Casares encarna uma das causas de sua vida, a da República.

Estrelas em Paris

Mas as cartas são, antes de tudo, de amor. Ela escreve: “Te desejo, meu amor, da manhã até a noite. Não sei o que me acontece. Nunca me senti assim, e até me dá um pouco de vergonha”. E ele: “É falso que o amor nos deixe cegos, sei por minha própria experiência. Pelo contrário: torna perceptível aquilo que, sem ele, não chegaria a existir e que, no entanto, é o mais real neste mundo: a dor da pessoa que amamos”.

Os dois são estrelas na Paris dos anos cinquenta. Ele, o grande sedutor, gosta que comparem sua aparência com a de Bogart. “Recebi a foto do jornal americano que você me mandou”, escreve a atriz. “Na verdade, o parecido está se tornando prodigioso e perigoso para mim nas tuas ausências”.

Na grande história de amor que é esta correspondência, Francine Faure é um personagem coadjuvante essencial. “Ela nunca é chata; não a escutamos e sabe viver sozinha”, explica Camus a sua amante. “[Fui] Desagradável com F., tola e injustamente”, conta-lhe ele em outro momento. “Acabei tendo que pedir desculpas”.

Em 17 de outubro de 1957, foi anunciado o Nobel de Literatura para Camus. “Que festa, jovem vencedor, que festa. María”, escreve Casares em um telegrama. “Nunca senti tantas saudades de você. Teu Alonso”, responde o escritor, conhecedor do teatro clássico castelhano. Aos 44 anos, era o mais jovem escritor agraciado com o prêmio desde Kipling.

Dois anos depois, passa a noite de Ano-Novo com Francine, os filhos e a família Gallimard no sul da França. Em 30 de dezembro de 1959, escreve para María: “Estou tão contente com a ideia de voltar a te ver que, ao escrever isto, começo a rir”.

Casares não foi a única destinatária das cartas de amor de Camus. Houve outras mulheres naqueles anos e até o final de sua vida. Oliver Todd cita, em sua biografia canônica do autor, uma carta enviada no dia anterior a outra mulher, a pintora e modelo identificada como Mi: “Pelo menos esta horrível separação nos terá feito sentir como nunca antes a necessidade incessante que temos um do outro”. E no dia 31 escreve à atriz Catherine Sellers: “Até terça-feira, minha querida, te beijo e te abençoo, do fundo do meu coração”. Foi sua última carta de amor, segundo revelou o Le Monde há alguns meses.

Em 4 de janeiro de 1960, o carro no qual voltava a Paris junto com os Gallimard bateu contra uma árvore. Francine e os gêmeos tinham voltado de trem. Camus morreu na hora.

Textos muito íntimos que fazem a terra 'mais vasta'

Não foi fácil para Catherine Camus, filha de Albert Camus e responsável por seu legado, tomar a decisão de publicar a correspondência de seu pai com María Casares. “Sofri fortes pressões para que seja publicada a correspondência entre meu pai e minha mãe, e entre ele e María Casares”, disse ela, em 2013, ao semanário Le Point. “Mas estas cartas são documentos muito íntimos”, acrescentou.

A história das cartas é um epílogo digno do romance dos dois. Quando o escritor morreu em um acidente de carro em 1960, aos 46 anos – ela faleceu em 1996 –, o poeta René Char, seu amigo, ficou com que as cartas de Casares que o autor de A Peste tinha guardado e discretamente as entregou à atriz.

No início da década de oitenta, com a morte de sua mãe, Catherine fez contato com Casares e comprou dela as cartas dos dois, que agora finalmente estão sendo publicadas. “Graças aos dois, suas cartas fazem com que a terra seja mais vasta, o espaço mais luminoso, o ar mais leve – simplesmente porque existiram”, escreve Catherine no prólogo.

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