A verdade sobre a Resistência Francesa: nem tão ampla e nem tão francesa

O historiador Robert Gildea desmonta a versão oficial do que aconteceu na França durante a ocupação nazista

A resistente Simone Ségouin em combate em Paris, em 1944.
A resistente Simone Ségouin em combate em Paris, em 1944.

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“A França foi derrotada e ocupada pela Alemanha. Quando foi libertada e unificada de novo, criou-se uma história única que afirma que todo o país alcançou a liberdade unido sob a liderança de De Gaulle e esse relato foi propagado por meio de medalhas, cerimônias, títulos”, explica Robert Gildea, professor de História Moderna do Worcester College da Universidade de Oxford, cujo livro será publicado nesta semana na Espanha pela Taurus, com tradução de Federico Corriente. Os esquecidos nessa história não foram apenas os espanhóis que fugiram do franquismo, mas também judeus da Polônia ou da Romênia, os comunistas e as mulheres, cujo trabalho como resistentes também foi subestimado.

"O que esses espanhóis todos estão fazendo desfilando?"

A libertação de Toulouse, em 19 de agosto de 1944, foi coordenada pelas forças lideradas por Jean-Pierre Vernant, mas os republicanos tiveram um papel essencial. De fato, regiões como o Périgord ou cidades como Foix foram liberadas diretamente pelos espanhóis, coisa que não agradou muito De Gaulle. Gildea relata que o general visitou Toulouse muito rapidamente porque não queria perder nenhum pingo do controle sobre os territórios dos quais os nazistas estavam sendo expulsos. Os republicanos participaram do desfile da libertação com os capacetes dos soldados alemães pintados de azul. Quando De Gaulle viu isso, exclamou: “O que estão fazendo todos esses espanhóis desfilando com as Forças Francesas livres?”. É uma anedota que, para o historiador britânico, reflete a profunda mudança que estava acontecendo na narração da Resistência e na tomada do poder na França.

O livro ainda não foi publicado na França –está previsto para o ano que vem–, mas recebeu excelentes críticas no ano passado no mundo anglo-saxão em veículos de comunicação como The Economist e The New York Review of Books, cuja resenha assinada pelo grande historiador de Vichy Robert O. Paxton se intitulava “A verdade sobre a Resistência”. Gildea, que publicou outros ensaios sobre a história da França nos quais estuda o mesmo período, reconhece que a imagem ideal da sociedade francesa já havia sido questionada em filmes como o documentário A Dor e a Piedade ou Lacombe Lucien, longa-metragem de Louis Malle, que teve como roteirista o escritor Patrick Modiano, que ganhou o prêmio Nobel. No entanto, seu estudo de 650 páginas, que usa tanto fontes documentais quanto entrevistas, é o mais completo escrito até agora do ponto de vista crítico sobre a Resistência durante a ocupação, entre 1940 e 1944. O enorme sucesso alcançado na França pelas seis temporadas da série Un Village Français (Um Vilarejo Francês) demonstra o quanto continua sendo um tema delicado e sempre atual.

“Temos de estudar o que aconteceu na França no contexto da luta na Europa contra o nazismo, mas também do Holocausto e da Guerra Fria. Muita gente da Resistência combateu nas Brigadas Internacionais; são o que Arthur Koestler, que compartilhou cativeiro com eles, chamou de “escória da Terra” num livro, gente que não tinha para onde ir. Muitos republicanos foram presos na França. O objetivo deles era acabar primeiro com os nazistas e depois com Franco, de fato, fizeram uma tentativa fracassada de invadir a Espanha em 1944. O relato simplista da libertação nacional francesa só fornece uma parte da história, não toda”, continua Gildea em uma conversa telefônica.

Robert Gildea.
Robert Gildea.

“O papel dos comunistas também foi muito importante, especialmente durante a libertação de Paris. Durante muitos anos houve um confronto entre as duas versões, a gaullista e a comunista. Em 1944, os nazistas capturaram um grupo de resistência formado por comunistas e judeus da Europa de Leste e o usou como propaganda dizendo que eram “criminosos estrangeiros”, mas havia algo de verdade nisso”, afirma.

O livro de Gildea não estuda apenas os grandes movimentos históricos, mas está cheio de personagens como Jean-Pierre Vernant, um dos grandes helenistas franceses, que foi uma figura muito importante na Resistência, mas nunca quis se vangloriar disso. Quando a guerra terminou, durante a qual arriscou a vida muitas vezes, voltou para seus livros e seus clássicos. Também aparece Lew Goldenberg, filho de revolucionários russos de origem judaica próximos de Rosa Luxemburgo, que se negou a aceitar o armistício, ou Leon Landini, um jovem toscano que participou do descarrilamento de um trem alemão em outubro de 1942, quando tinha 16 anos.

E, naturalmente, estão os republicanos espanhóis, não apenas os membros de La Nueve, a mítica brigada que foi a primeira a entrar em Paris em agosto de 1944 e cujo papel foi silenciado durante anos –só em 2008 foram inauguradas placas mostrando o seu percurso. No livro aparecem combatentes como Vicente López Tovar, nascido em Madri em 1909, que passou a juventude em Buenos Aires, lutou na defesa de Madri e na Batalha do Ebro e, depois de fugir para a França, participou da organização do maquis. “A Guerra Civil tinha nos endurecido muito”, disse o próprio López Tovar a Gildea.

“Depois do desembarque na Normandia, em junho de 1944, houve uma guerra civil dentro da Segunda Guerra Mundial, não somente entre os resistentes e os nazistas, mas também com a milícia, a força paramilitar de Vichy”, diz o professor de Oxford. Em relação à ocultação do papel desempenhado pelas mulheres, Gildea explica que só foram contempladas com medalhas aquelas que participaram de ações militares, enquanto muitas mulheres trabalharam na organização da resistência, papel tão perigoso quanto o combate, mas nunca totalmente reconhecido. Tudo isso não significa que os franceses não tiveram nenhum papel, mas não foram os únicos heróis daquela guerra.