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Votação de indígenas cria reserva marinha gigante na Ilha de Páscoa

O Chile aprovou a área em 2015, mas sujeitou a decisão aos rapanuis, povo que mora na região

Manuel Ansede
Uma cerimônia rapanui na Ilha de Páscoa (Chile).
Uma cerimônia rapanui na Ilha de Páscoa (Chile).SERNATURA

Um total de 411 indígenas rapanuis decidiu neste domingo, em uma votação histórica, aprovar a criação de reserva marinha de 720.000 quilômetros quadrados ao redor da Ilha de Páscoa, território chileno localizado na Polinésia, no meio do Oceano Pacífico. A área protegida, com epicentro cultural nas célebres estátuas de rocha vulcânica erguidas há 1.000 anos, terá uma superfície equivalente a quase três vezes o Estado de São Paulo. Fazendo a divisão, cada eleitor protegeu 1.750 quilômetros quadrados.

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Compareceram à consulta 642 pessoas do povo rapanui, habitantes ancestrais da ilha, cujo nome tradicional é Rapa Nui. 64% votaram a favor da criação da área de proteção, que será administrada de maneira conjunta por representantes rapanuis e pelo Estado chileno. A pesca só será permitida com métodos artesanais.

Governo chileno destacou a determinação de “respeitar a vontade do povo rapanui”

A presidenta chilena, Michelle Bachelet, anunciou a criação da reserva em 5 de outubro de 2015, mas seu Governo sujeitou a decisão à votação dos rapanuis, um povo de apenas 3.000 pessoas. É a primeira vez que se realiza uma consulta indígena sobre a proteção de uma área marinha no Chile.

O ministro do Meio Ambiente, Marcelo Mena, anunciou o resultado da votação nesta terça-feira em La Serena durante a abertura do Congresso Internacional sobre Áreas Marinhas Protegidas IMPAC4, de que o EL PAÍS participa como veículo de imprensa convidado. Mena ressaltou a determinação de “respeitar a vontade do povo rapanui”.

O representante dos rapanuis na solenidade, Poky Tane Haoa, aplaudiu o “sucesso” da criação da reserva. “Como povo, continuamos gritando: não à pesca ilegal, não à pesca industrial e não à mineração”, proclamou.

Barcos piratas do Japão, da China e da Espanha entraram em águas de Rapa Nui para pescar ilegalmente, segundo a Pew

As principais organizações ambientalistas também comemoraram o anúncio. “O principal problema de Rapa Nui é a pesca ilegal. Sabemos que há vários anos outras nações têm mostrado interesse nos recursos existentes em Rapa Nui. Principalmente o atum, o peixe-espada e o tubarão. São espécies particularmente vulneráveis e muitas estão sofrendo com a pesca indiscriminada”, alerta o ambientalista chileno Maximiliano Bello, da organização The Pew Charitable Trusts.

O ativista nomeia esses países. “Houve um interesse constante do Japão, principalmente, mas também sabemos de embarcações ilegais da China e da União Europeia, que pescam na Zona Econômica Exclusiva de Rapa Nui. Também navios espanhóis, em busca de tubarões”, diz Bello.

A comunidade internacional estabeleceu a meta de proteger 10% dos oceanos até 2020. No calor dessa promessa, proliferaram os chamados “parques de papel”, reservas marinhas imensas que existem no mapa, mas não têm uma proteção efetiva contra ameaças como a pesca ilegal. O ministro do Meio Ambiente reconhece o “importante desafio” de proteger uma área de 720.000 quilômetros quadrados.

“Estamos trabalhando com a Marinha do Chile para termos as melhores práticas de fiscalização e prevenção da pesca ilegal”, diz Mena. O Governo chileno colabora com o britânico para identificar os navios piratas por satélite. “Se detectarmos que fizeram pesca ilegal, serão impedidos de descarregar em portos chilenos e, portanto, sua pesca se tornará muito infrutífera. Vamos fazê-los perder o negócio, de certa forma”.

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